'Relação especial' entre EUA e Reino Unido vive estremecimento

Crédito: John MacDougall - 7.jul.2017/Reuters O presidente dos EUA, Donald Trump, e a primeira-ministra britânica, Theresa May, na cúpula do G20
O presidente dos EUA, Donald Trump, e a primeira-ministra britânica, Theresa May, na cúpula do G20

DANIEL BUARQUE
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE LONDRES

O vídeo de Donald Trump caminhando de mãos dadas com a primeira-ministra britânica, Theresa May, na Casa Branca, dias após a posse do presidente dos EUA, parecia prometer um bom momento para a relação bilateral em meio à polarização política nos dois países. Um ano depois, o cenário é outro.

Após o americano compartilhar vídeos de cunho anti-islâmico publicados por uma organização ultranacionalista britânica, em novembro, a aproximação pareceu estremecer. Depois de trocar farpas com o prefeito de Londres, Sadiq Khan, e de criticar May pelo Twitter, Trump cancelou na semana passada a visita que faria à cidade para inaugurar uma sede da embaixada.

Em seu primeiro ano no poder, o presidente dos EUA se tornou um fardo para o governo britânico. A pressão é tanta que especialistas já debatem o possível impacto de Trump na histórica "relação especial" —termo usado por Winston Churchill em 1946 para descrever a amizade entre os dois países.

"Trump está destruindo de vez a relação especial", escreveu o ex-subsecretário de Defesa dos EUA, Dov Zakheim,na revista "Foreign Policy". A avaliação ganhou força entre pesquisadores.

"No curto prazo, a relação vai tremer", comentou em artigo John Lloyd, da Fundação Reuters, na Universidade de Oxford. May "descobriu que Trump não é seu amigo", escreveu Julian Borger, editor de internacional do "Guardian".

A partir do último ano, a relação entre EUA e Reino Unido passou a ser ritmada pelas oscilações de humor do presidente americano, avalia Michael John Williams, diretor do Programa de Relações Internacionais da Universidade de Nova York, em entrevista à Folha.

"Trump toma decisões com base em seu instinto. Se ele tiver um sentimento positivo em relação ao Reino Unido, à primeira-ministra e ao governo, isso pode ser benéfico para o relacionamento. Mas, se sua personalidade narcisista se sentir ofendida por qualquer um desses atores, então ele pode facilmente ser discriminatório e prejudicar a relação", diz.

Ele argumenta que, apesar da incerteza em torno de Trump, os fundamentos da relação especial são áreas de cooperação em que as pessoas normalmente não pensam, como compartilhamento de inteligência, planejamento estratégico, coordenação de defesa e desenvolvimento industrial. Esses segmentos dependem menos das flutuações da política, segundo ele.

"As raízes da cooperação são facilitadas por uma linguagem comum, bem como muitos valores e normas compartilhados. Ela é forte o suficiente para sobreviver a qualquer presidente."

Ainda assim, Williams admite que Trump pode implementar políticas que reduzam ou dificultem a parceria no curto prazo. Além disso, "se a inteligência britânica achar que suas fontes arriscam ser incluídas na tendência do presidente americano de falar abertamente sobre inteligência, pode limitar o compartilhamento de informações", explica ele.

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Para o pesquisador, o cancelamento da visita de Trump a Londres não é necessariamente um problema para a relação entre os dois países e pode até melhorá-la.

Segundo Williams, Trump desistiu da viagem por saber que enfrentaria grandes protestos em Londres, o que criaria tensão para a Casa Branca, o governo conservador de May e até a Coroa britânica, anfitriã do americano.

A possível melhora na relação é importante especialmente para May, que sofre pressão desde a visita ao americano no início de 2017. Enquanto seu governo enfrenta crises internas e tem que lidar com as negociações do "brexit", o público britânico tem uma percepção muito negativa de sua aproximação com Trump.

Segundo uma pesquisa do instituto YouGov, para os ingleses, o mandatário dos EUA foi a pior coisa de 2017. A impressão dos britânicos sobre Trump é tão negativa que ele aparece duas vezes no ranking de infortúnios —suas ações lideram, e o fato de ter se tornado presidente ocupa a segunda posição (empatado com o terrorismo).

Trump ainda pode ser relacionado ao quarto pior acontecimento de 2017, já que, para 13% dos entrevistados, a crise entre a Coreia do Norte e os EUA foi o ponto mais baixo do ano. O "brexit", obsessão nas discussões britânicas, ficou apenas em quinto lugar, citado por 10%.

A mesma pesquisa perguntou aos britânicos que personalidade teve mais impacto no mundo em 2017, e 87% dos entrevistados disseram que foi Trump.

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