Para Trump, é 'América primeiro' ou 'América fora'

Crédito: Laurent Gillieron/Associated Press Trump com a fanfarra antes de seu discurso em Davos
Trump no palco com a fanfarra antes de seu discurso no Fórum Econômico Mundial, em Davos, Suíça

CLÓVIS ROSSI
COLUNISTA DA FOLHA

A manchete inescapável para o discurso de Donald Trump nesta sexta-feira (26) em Davos foi, mundo afora, tirada da frase "América primeiro não quer dizer América sozinha".

À primeira vista, parece desmentir o isolacionismo que se atribuiu ao presidente americano, já durante a campanha eleitoral e, muito mais, após a posse.

Mas é só à primeira vista, porque todo o resto do discurso foi uma reafirmação de que os Estados Unidos de Trump só se envolverão (comercialmente) com o resto do mundo se for nos termos definidos por Trump –ou seja, se prevalecer o interesse americano.

Disse Trump: "Nós apoiamos o livre comércio, mas ele precisa ser justo e precisa ser recíproco, porque, no fim, comércio injusto prejudica todos nós. Os Estados Unidos não fecharão mais os olhos para práticas econômicas injustas".

Antes do discurso, um alto funcionário americano, falando aos jornalistas na condição de que o nome não fosse citado, especificou o que o presidente considera "práticas injustas" : "coisas como o roubo de propriedade intelectual, transferências de tecnologia forçadas, subsídios industriais, planejamento econômico estatal, dumping".

No discurso propriamente dito, Trump mencionou apenas três itens (roubo de propriedade intelectual, o controle estatal da economia e os subsídios industriais; os dois primeiros, no passado, ele vinculara à China, não mencionada nesta sexta-feira).

O Brasil também entra frequentemente na lista de países que não respeitam a propriedade intelectual.

É forçoso reconhecer, goste-se ou não do discurso de Trump, que foi coerente com suas práticas: ao retirar os Estados Unidos da TPP (Parceria TransPacífico), o presidente alegou que a maneira como foi concebida é injusta para com os Estados Unidos. Tanto que acena aceitá-lo agora, desde que nos seus termos.

Vale idêntico raciocínio para a renegociação do Nafta (o acordo entre EUA, Canadá e México).

Coerência à parte, Trump faz questão de ignorar que as regras comerciais vigentes foram desenhadas essencialmente pelos próprios Estados Unidos, com a colaboração da União Europeia, nos tempos em que as potências ocidentais tinham hegemonia incontrastável na economia.

Agora, no entanto, a China disputa a liderança econômica global com os Estados Unidos, o que deixa em aberto saber se Trump terá condições de impor suas regras nas negociações comerciais.

O discurso de Trump teve um segundo enfoque para reforçar seu lema de "America First": o bom momento da economia americana, que ele atribui à sua gestão, após "anos de estagnação" (o New York Times, sempre crítico, lembrou que o crescimento econômico desde que ele tomou posse foi similar ao que ocorreu em 2014 e 2015).

Dois números impactantes foram citados: o aumento de US$ 7 trilhões na riqueza, quando medida pelo valor das ações em Bolsa, e a criação de 2,4 milhões de empregos.

É música aos ouvidos do público majoritário em Davos, que são executivos das grandes corporações globais, como notou Roula Khalaf no "Financial Times" : "Os homens de negócio americanos adotam a atitude de dizer 'não gosto do que ele diz, mas gosto do que ele faz".

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.