Criar o caos no Afeganistão beneficia o Taleban

Crédito: Rahmat Gul/AP Forças de segurança afegãs chegam a academia militar depois de ataque que deixou ao menos dez mortos
Forças de segurança chegam a academia militar em Cabul depois de ataque que matou ao menos dez

MAX FISHER
DO 'NEW YORK TIMES'

Dificilmente foram os primeiros ataques do Taleban na capital. Mas havia algo especialmente alarmante em sua escala e implicação sobre os dois episódios que abalaram o Afeganistão, com uma semana de diferença: o ataque a um hotel que matou 22 pessoas e depois um carro-bomba, uma ambulância, que matou 103.

Mas a pergunta sobre o motivo –por que atacar civis indefesos, e em tal número– talvez seja melhor respondida não analisando a mente dos atacantes, mas examinando a estrutura de uma guerra que cada vez mais arrasta seus participantes para a insensatez.

Se os acontecimentos da semana se traduzirão em um ganho em longo prazo para o Taleban ou servirão apenas como uma terrível mas passageira demonstração de força, os ataques personificam a tendência para a violência e a desintegração que parece estar se agravando no Afeganistão.

CAOS

Os participantes da guerra embarcaram no que pensaram ser uma batalha tradicional pelo controle do território do Afeganistão e pela fidelidade de sua população. Mas durante mais de 16 anos, sem decidir fazê-lo, eles a transformaram em uma guerra sobre uma questão: se o país pode ou não ter um Estado central e funcional.

Para a coalizão liderada pelos EUA e seus parceiros afegãos, o objetivo era simples: criar um governo, ajudá-lo a consolidar o controle e esperar que os afegãos rejeitassem o Taleban em favor da estabilidade. O Taleban, que nega a legitimidade do governo apoiado por estrangeiros, tentou derrubá-lo.

Como os dois lados trataram a governança do Afeganistão como uma questão de sobrevivência "tudo ou nada", o Taleban tinha todos os incentivos para criar o caos.

"Eu vejo muita cumplicidade dos EUA nisto", disse Frances Brown, analista na Fundação Carnegie para a Paz Internacional e ex-membro do Conselho de Segurança Nacional dos EUA.

Com o Taleban incapaz de vencer totalmente, mas os americanos sem querer admitir sua derrota, disse ela, cada lado privilegiou escaladas de curto prazo. Isso convalidou a visão do Taleban de que o grupo deve minar o Estado, inclusive por meio de ataques em Cabul que exponham a fraqueza do governo.

"A estratégia de Trump se baseia em uma máquina de combate –enviar mais tropas", disse o mulá Hamid, um comandante Taleban no sul do Afeganistão. "Se eles estão dando prioridade à opção militar, nós não somos fracos. Podemos alcançar nosso alvo e atingir o inimigo."

A violência banalizada assumiu uma lógica própria, superando outras opções. "Não houve qualquer canal de conversações entre o Alto Conselho da Paz e o Taleban", disse Maulavi Shafiullah Nuristani, um membro do órgão do governo encarregado de explorar as negociações. "Nós nunca tivemos contato direto com eles, a não ser contatos indiretos e pessoais."

Nuristani disse que os escritórios do Conselho de Paz, situados a pouco mais de 200 metros do local do atentado a bomba de sábado, ficariam fechados por dois dias –"até que as salas e nossos escritórios sejam limpos de detritos e vidros quebrados".

FORÇA E FRAQUEZA

Enquanto as forças lideradas pelos EUA escalaram em reação aos ganhos do Taleban, elas sem querer empurraram o Taleban para uma violência mais cruel. Os ataques aéreos obrigaram o Taleban a se esconder nas áreas rurais, onde preferem operar, ocupando território e extorquindo os moradores.

Em vez disso, eles passaram a ataques rápidos, embora aterrorizantes, no estilo guerrilha em Cabul e outras áreas urbanas, onde o poder aéreo dos EUA tem pouca utilidade. Embora isso não lhes conquiste território, permite que humilhem o governo onde ele é mais visível.

A dinâmica interna do grupo se alinhou com seus incentivos em mudança, elevando os oficiais que preferem ataques em grande escala contra civis.

Sirajuddin Haqqani, líder da antiga rede semiautônoma Haqqani, um grupo terrorista estreitamente associado à Al Qaeda, hoje serve como nº 2 do Taleban e seu planejador militar. "O Taleban e a Haqqani são a mesma coisa", disse Sayed Akbar Agha, um ex-comandante Taleban. "Só o governo diferencia entre eles."

Enfraquecer a capacidade do Taleban de agir como uma insurgência tradicional que controla território, embora lógico, também os obriga a dar prioridade a seu papel como grupo terrorista, como mostram os ataques da semana passada.

SUBSTITUTOS

Desde que começou a dura guerra no Afeganistão, o Paquistão, que faz um jogo duplo com o Taleban, esteve no centro de sua aparente intratabilidade.

O presidente Donald Trump, seguindo dois presidentes que tentaram e fracassaram em conter a influência do Paquistão, criticou publicamente os líderes paquistaneses neste mês, congelando a ajuda à segurança no Paquistão.

Mas Brown disse que os EUA pareciam não estar prontos para a reação inevitável de seu confronto com o Paquistão. "Se você parte no caminho de escalar a pressão, precisa estar preparado para o outro lado escalar", disse ela.

As autoridades em Cabul temem que a abordagem linha-dura de Trump possa agravar a situação, pelo menos em curto prazo.

CONFLITO ETERNO

Na teoria, um acordo de paz poderia unir todos os lados. Mas uma meia geração de combates desgastou a confiança e polarizou os combatentes. Enquanto as guerras já recuaram para a paz antes, houve necessidade de um mediador. Aqui não parece haver nenhum.

"A comunidade internacional está absolutamente desequipada para isso", disse Brown.

Os diplomatas estão desgastados, tentando evitar que o governo desmorone entre discussões políticas, outro sintoma de sua fraqueza depois de anos de guerra.

A força dos americanos também é um obstáculo na diplomacia. Os EUA são influentes demais para tergiversar, mas, com o Departamento de Estado fragilizado, não tem a capacidade ou a atenção para buscar um acordo de paz, no que Trump parece ter pouco interesse, de todo modo.

O preço crescente para os civis não está mudando o cálculo para nenhuma das forças que conduzem a guerra.

O general Joseph Votel, que como chefe do Comando Central dos EUA tem autoridade para a guerra, foi perguntado em uma recente visita à Jordânia sobre os últimos ataques em Cabul. Ele disse que só confirmavam a estratégia dos EUA.

"Isso não impacta nosso compromisso com o Afeganistão, nosso compromisso com a missão e de ver o fim disto", disse ele.

Perguntado sobre se a vitória ainda é possível, ele deu a mesma resposta que os generais americanos dão há 16 anos: "Absolutamente, absolutamente".

Tradução de LUIZ ROBERTO MENDES GONÇALVES

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