Descrição de chapéu Nicolás Maduro

Colapso econômico e fome elevam número de saques na Venezuela

Crédito: Fernando Llano/Associated Press Adolescente se apressa para recolher milho que caiu de caminhão saqueado em Puerto Cabello
Adolescente se apressa para recolher milho que caiu de caminhão saqueado em Puerto Cabello

SCOTT SMITH
FABIOLA SÁNCHEZ
DA ASSOCIATED PRESS, EM PUERTO CABELLO (VENEZUELA)

A cabine do caminhão de Carlos Del Pino lhe ofereceu um assustador lugar de primeira fila no surto de ataques de bandos de pessoas a mercados de bairro, fazendas de gado e caminhões de comida na Venezuela.

Pouco depois de sair do cais em Puerto Cabello, o maior porto do país, ele assistiu a 20 pessoas atacarem um caminhão à frente do seu, enchendo freneticamente sacos com o milho que o veículo carregava para uma fábrica de processamento. O motorista foi rendido sob a mira de armas. "A gente fica aterrorizado", disse Del Pino.

Ele transporta carga há 14 anos, e nos meses bons ganha o equivalente a US$ 100, o bastante para sustentar sua mulher e duas filhas. Mas apesar de seus temores ele simpatiza com seus conterrâneos empobrecidos, que estão ficando desesperados em meio à escassez generalizada de alimentos e à inflação disparada. "Eles têm de saquear para comer", explicou Del Pino.

Os saques, greves e protestos realizados pelos pobres famintos aumentaram muito na Venezuela, país já habituado a tumultos. Mas as rebeliões que ocorrem recentemente têm uma face diferente dos manifestantes majoritariamente de classe média que foram às ruas durante meses no ano passado, em atos políticos que pediam a saída de Nicolás Maduro.

"Esses protestos vêm de pessoas das classes mais baixas, que simplesmente não conseguem o suficiente para comer", disse David Smilde, membro sênior do Escritório de Washington para a América Latina, que passou décadas pesquisando a Venezuela. "Elas querem socorro, não necessariamente tirar Maduro do poder."

A Venezuela possui as maiores reservas de petróleo do mundo e já esteve entre os países mais ricos da América Latina. Entretanto, depois de quase duas décadas de regime socialista e má administração da companhia estatal de petróleo, está sendo destroçada pela pior crise econômica de sua história.

PERNIL

O aumento dos protestos violentos por comida começou em bairros pobres de todo o país na época do Natal, quando Maduro tinha prometido que haveria pernis nas cestas de alimentos distribuídas pelo governo a seus apoiadores.

Mas muitos não chegaram, provocando protestos em que pequenos grupos queimaram lixo nas ruas e praticaram saques. Analistas da oposição chamaram isso de "revolta do pernil".

Tentando gerar calma, Maduro ordenou que centenas de supermercados vendessem os produtos com os preços de dezembro —uma ordem difícil em um país onde os valores das mercadorias têm duplicado em algumas semanas.

Repetindo um mantra comum, o governo atribuiu a falta de pernis à sabotagem de seus críticos estrangeiros, neste caso Portugal, que estaria recebendo ordens dos EUA, segundo autoridades.

"Por que o presunto não chegou? Por causa do bloqueio contra nós", disse na televisão estatal o líder do Partido Socialista, Diosdado Cabello, acusando os "gringos", mas sem apresentar provas.

A revolta se acalmou um pouco, mas muitos venezuelanos temem que seja uma fase passageira, enquanto a economia gira cada vez mais descontroladamente. O Fundo Monetário Internacional calcula que a inflação na Venezuela atingirá cinco dígitos neste ano, enquanto a economia, em seu quinto ano consecutivo de recessão, encolherá 15%.

Empresas quase insolventes dizem que hesitam em importar mais produtos, temendo uma nova liquidação ordenada pelo governo. Enquanto a moeda despenca no florescente mercado paralelo, o salário mínimo mensal hoje equivale a apenas US$ 3 (cerca de R$ 9,50).

FOME

As sanções econômicas impostas em agosto pelo governo Trump só aumentam o sofrimento dos venezuelanos, impedindo o acesso do país ao crédito e afastando as companhias de petróleo. Enquanto isso, a fome se amplia.

Recentemente, uma dúzia de homens invadiram uma loja de comida pronta na cidade de Barquisimeto, no oeste do país. Câmeras de vigilância os gravaram saltando sobre o balcão de vidro, enquanto clientes e funcionários corriam. Eles limparam a loja em minutos.

Pecuaristas dizem que pelo menos duas fazendas foram atacadas por pessoas que abateram bois. Um vídeo no Twitter mostra mais de dez homens no Estado de Mérida matando um boi com pedras e um machado. Um deles grita: "Estamos com fome".

Na primeira metade de janeiro, houve pelo menos 110 incidentes de saques, mais que cinco vezes o número do mesmo período do ano passado, segundo o Observatório Venezuelano de Conflitos Sociais, um grupo não governamental que registra os tumultos.

A comida e o dinheiro para pagar por ela estão mais difíceis de encontrar, especialmente fora da capital, Caracas. E mesmo quando as pessoas têm dinheiro os preços muitas vezes estão fora de seu alcance, com a taxa de inflação acima de 2.600% em 2017, segundo a Assembleia Nacional, controlada pela oposição.

Os saques fazem parte de uma tendência maior de crimes relacionados à fome, disse Roberto Briceño León, diretor do Observatório Venezuelano da Violência, sediado em Caracas.

Gangues de rua atraem crianças pobres de apenas 9 anos com comida, disse ele. Servir de vigia durante um assalto costumava render para os recrutas um par de tênis ou de jeans. Hoje eles ganham um sanduíche, disse o pesquisador.

Briceño León acrescenta que algumas pessoas que não podem comprar alimentos os consomem dentro das lojas. Cada vez mais, homens em motocicletas arrancam sacolas de alimentos de pessoas que ficaram na fila durante horas e gastaram o pouco dinheiro que tinham.

"Não é só que você não tem o dinheiro", disse ele. "Há pouco dinheiro com que comprar e poucos produtos."

Os caminhoneiros que transportam alimentos —de arroz a frangos vivos— tornaram-se alvo de ataques quando param em sinais de trânsito ou para abastecer.

Quando a multidão recentemente saqueou o caminhão na frente dele, Del Pino subiu os vidros da cabine e trancou as portas, temendo que o bando o atacasse em seguida.

Ele tirou sua carreta da fila, evitando o ataque. "O problema aqui é só um: fome. A fome está matando as pessoas", afirmou Del Pino.

Tradução de LUIZ ROBERTO MENDES GONÇALVES

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