Ex-embaixador dos EUA no Brasil se aposenta em meio a debandada

Thomas Shannon esteve na representação em Brasília de 2009 a 2013

Patrícia Campos Mello
São Paulo

Em mais um capítulo da debandada dos diplomatas americanos durante o governo Trump, Thomas Shannon, 60, que ocupava o terceiro mais alto cargo do Departamento de Estado dos EUA, anunciou sua aposentadoria nesta quinta-feira (1º).

Thomas Shannon, em entrevista coletiva no Sri Lanka; ex-embaixador dos EUA no Brasil se aposenta
Thomas Shannon, em entrevista coletiva no Sri Lanka; ex-embaixador dos EUA no Brasil se aposenta - Ishara S. Kodikara - 6.nov.2017/AFP

Shannon, que foi embaixador no Brasil durante quase quatro anos (2009-2013), era subsecretário de Estado para Assuntos Políticos e um dos mais respeitados diplomatas em Washington.

Embora tenha dito que deixa o cargo por motivos pessoais, há muitos relatos de que Shannon estava frustrado com a demora do governo para indicar embaixadores e preencher cargos vagos no departamento, além da tendência do secretário Rex Tillerson de deixar de escanteio diplomatas mais experientes, preferindo recorrer a assessores de fora.

Chamado de "enciclopédia ambulante" por Tillerson, ele serviu anteriormente como secretário-assistente para Hemisfério Ocidental (2005-2009) e era um dos maiores especialistas em América Latina no governo americano, sendo frequentemente enviado à Venezuela para negociar com o ditador Nicolás Maduro.

Em entrevista à Folha, Shannon defendeu o processo de reaproximação entre EUA e Cuba, iniciado no governo Obama e parcialmente revertido por Trump.

"Os países na América Latina são alérgicos à exclusão; eles se sentiriam muito desconfortáveis se pensassem que estamos no processo de excluir Cuba", disse.

Shannon era embaixador em Brasília quando estourou o escândalo da espionagem da Agência de Segurança Nacional (NSA), que levou a presidente Dilma a cancelar sua visita de Estado a Washington, em 2013.

Ele chegou a ser secretário de Estado interino nas duas primeiras semanas do governo Trump, enquanto o Senado avaliava a indicação de Tillerson.

O diplomata, que tem um doutorado em ciência política pela Universidade de Oxford, relatou a amigos que queria passar mais tempo com seu pai. A mãe de Shannon morreu no fim do ano passado.

"Decidi que era hora de descansar um pouco", disse Shannon à CNN na quarta-feira. "Trinta e cinco anos é bastante tempo."

Shannon permanecerá no cargo até que seu sucessor seja escolhido e confirmado pelo Senado.

A saída dele reforça a percepção de baixo moral entre os funcionários do departamento. Após o início do governo Trump, a maioria dos diplomatas que ocupavam cargos altos se aposentou ou renunciou. Tillerson contratou uma consultoria para fazer grandes cortes no orçamento do departamento.

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