Funcionários da Oxfam intimidaram testemunhas de abusos, diz relatório

Diretor admitiu ter usado prostitutas e teve relacionamento com adolescente

Londres | Associated Press e Reuters

Funcionários da Oxfam suspeitos de má conduta sexual no Haiti intimidaram e ameaçaram uma testemunha quando a entidade passou a investigar as denúncias, diz relatório de investigação interna divulgado nesta segunda-feira (19).

O relatório aponta ainda que o diretor da Oxfam no país caribenho, o belga Roland Van Hauwermeiren, teve um relacionamento com uma haitiana de 16 anos quando ele tinha 61 anos, a quem dava dinheiro e fraldas. Durante a investigação, Van Hauwermeiren também admitiu ter pago por sexo com prostitutas -- algo que na última sexta-feira (16) ele havia negado

O relatório era confidencial, mas a Oxfam decidiu torná-lo público após ter sido acusada de ter encoberto os abusos cometidos por sete funcionários no Haiti após o terremoto de 2010. 

Menino brinca próximo a propaganda da Oxfam em Corail, campo para desabrigados no terremoto de 2010, nos arredores de Porto Príncipe - Andres Martinez Casares - 17.fev.2018/Reuters

"Estamos fazendo essa publicação excepcional porque queremos ser tão transparentes quanto possível sobre as decisões que tomamos nessa investigação em particular e em reconhecimento à quebra de confiança que foi causada", afirmou a entidade em uma nota. "Vamos também nos encontrar com o governo do Haiti para pedir desculpas por nossos erros e discutir o que mais podemos fazer, inclusive para as mulheres afetadas por esses eventos."

Na sexta, o governo britânico suspendeu o financiamento à organização britânica. A Oxfam Reino Unido recebeu 31,7 milhões de libras do governo no período de 12 meses até 31 de março de 2017, o que equivale a 8% de sua renda. 

O relatório mostra que a investigação teve início após o recebimento de um email que dizia que funcionários haviam violado o código de conduta da organização ao usar prostitutas em abrigos da Oxfam, além de cometer fraude, nepotismo e negligência. 

Enquanto a investigação estava sendo realizada, o gerente de um dos suspeitos vazou um relatório para outro funcionário.

"Isso resultou em três dos suspeitos fisicamente ameaçando e intimidando uma das testemunhas citadas no relatório", afirma o texto final. "Esse incidente levou a acusações adicionais de bullying e intimidação contra esses três funcionários."

A Oxfam investigou denúncias de que sete membros usaram prostitutas em propriedades da organização. Dois desses sete também foram investigados por "exploração sexual e abuso de empregados" e dois supostamente acessaram material pornográfico em computadores da entidade. 

Van Hauwermeiren, diretor de operações no país, admitiu o uso de prostitutas em sua acomodação, mas recebeu "uma saída digna e gradual" em troca de cooperação com a investigação, diz o relatório. 

A haitiana Mikelange Gabou disse ao jornal "The Times" que teve uma relação com Van Hauwermeiren quando ela tinha 16 anos e ele 61. De acordo com seu depoimento, o belga entregou dinheiro e fraldas para seu bebê. Algumas vezes convidada para sua casa mulheres que procuravam trabalho, as quais dava dinheiro.

"Me ajudava, mas eram muitas garotas (...) Sempre era mulheres do local, haitianas, as mulheres eram sua distração", afirmou.

Na semana passada, Van Hauwermeiren negou ter organizado orgias com jovens prostitutas, mas admitiu em uma carta publicada pela imprensa belga que teve relações sexuais com uma "mulher respeitável e madura", sem entregar dinheiro.

O relatório diz ainda que "não é possível excluir a possibilidade de que algumas prostitutas tenham sido menores de idade". 

Sete funcionários se demitiram ou foram demitidos como resultado da investigação.

A Oxfam concluiu no relatório que era necessário adotar "mecanismos melhores" para informar as demais agências sobre o comportamento problemático dos funcionários.

Depois de deixar a Oxfam, Van Hauwermeiren trabalhou para a organização francesa Ação contra a Fome em Bangladesh. Esta última lamentou não ter sido avisada sobre o comportamento do belga no Haiti.

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