Irmã de Kim Jong-un vira arma diplomática da Coreia do Norte

Kim Yo-jong chamou a atenção internacional durante sua visita à Coreia do Sul

Bryan Harris
Seul | Financial Times

Antes de se tornar o rosto global da diplomacia norte-coreana, Kim Yo-jong era mais conhecida por evitar os holofotes.

Irmã mais jovem do líder supremo norte-coreano Kim Jong-un, até recentemente Kim Yo-jong geralmente evitava ser vista em público. Mesmo a mídia estatal apenas a vislumbrava raramente.

Essa situação mudou em fevereiro, quando o ditador norte-coreano enviou sua irmã, que teria 30 anos, à Coreia do Sul, na primeira visita de um membro da dinastia Kim ao país vizinho do sul.

Kim Yo-jong (centro), ao lado do chefe de Estado da Coreia do Norte, Kim Yong-nam, durante a apertura da Olimpíada
Kim Yo-jong (centro), ao lado do chefe de Estado da Coreia do Norte, Kim Yong-nam, durante a apertura da Olimpíada - Felipe Dana - 10.fev.2018/Associated Press

A viagem foi saudada como uma ofensiva de charme. Muitos órgãos de mídia internacionais elogiaram a sorridente Kim, dizendo que ela suavizou a imagem do regime notório de Pyongyang.

Na realidade, Kim Yo-jong é uma parte integral da ditadura.

Oficialmente ela é a vice-diretora do Departamento de Propaganda e Agitação do Partido dos Trabalhadores da Coreia. O papel a encarrega de articular e reforçar a imagem de seu irmão e do país.

Extraoficialmente ela é assessora muito próxima de Kim Jong-un e goza de sua confiança extrema. A importância de Kim Yo-jong para o regime de Pyongyang foi evidenciada em Seul na semana passada, quando ela se reuniu com o presidente sul-coreano, Moon Jae-in. Apesar da presença de Kim Yong-nam, de 90 anos, o chefe de Estado cerimonial da Coreia do Norte, foi Kim Yo-jong, sentada diretamente diante de Moon, quem liderou as discussões.

Ela também tinha uma reunião programada com Mike Pence, o vice-presidente dos Estados Unidos. Teria sido a reunião de mais alto nível entre os dois países adversários em quase duas décadas. Mas Kim Yo-jong desistiu do encontro apenas horas antes de seu início previsto.

Para Kim Jong-un, Kim Yo-jongé a pessoa mais confiável neste momento, diz Lim Jae-cheon, da Korea University, especialista na política dinástica norte-coreana. Mais que qualquer outra pessoa na delegação norte-coreana que foi à Coreia do Sul, seus conselhos são os mais valiosos e influentes.

Filha do falecido líder Kim Jong-il e de sua consorte Ko Yong-hui, Kim Yo-jong cresceu em Pyongyang, vivendo em uma das muitas residências luxuosas de seu pai, em grande medida escondida do público.

Mais tarde ela fez seus estudos em Berna, Suíça, onde já estavam seus irmãos mais velhos Kim Jong-un e Kim Jong-chol, os três usando pseudônimos.

Retornando a Pyongyang na adolescência, ela manifestou interesse pela política, segundo Sierra Madden, da organização de pesquisas North Korean Leadership Watch, e então saiu do radar público por quase uma década.

Kim  Yo-jong  ressurgiu publicamente após a ascensão de Kim Jong-un ao cargo de líder supremo, em 2012. Apesar de ser o irmão mais velho dos dois, Kim Jong-chol foi deixado de lado para o cargo por ter sido visto por seu pai como gentil demais, até mesmo efeminado.

Enquanto isso, Kim Yo-jong começou a conquistar a confiança de seu irmão, administrando a segurança dele, sua programação e suas aparições públicas.

Nessa época ela começou a ser vista em fotos da mídia estatal, muitas vezes fazendo anotações em discursos de Kim Yo-jong ou aparecendo de relance no segundo plano.

Para analistas, a natureza dessas aparições revela muito sobre como Kim Yo-jong trata seu irmão: ela quer apoiá-lo, mas nunca roubar a cena dele.

Sua recompensa chegou em outubro, quando ela foi promovida, passando a fazer parte do politburo norte-coreano, numa iniciativa que especialistas interpretaram como sinal de que Kim Yo-jong estaria consolidando o controle da dinastia Kim sobre a Coreia do Norte. Meses antes disso, Kim Yo-jong  tinha sido submetida a sanções pelo Tesouro americano por sua atuação em violações dos direitos humanos cometidas por seu país.

Lee Yoon-keol, desertor da Coreia do Norte que hoje dirige o Centro de Informações Estratégicas sobre a Coreia do Norte, em Seul, diz que, embora goze da confiança de seu irmão, Kim Yo-jong é repudiada por altos funcionários norte-coreanos, muitos dos quais têm mais que o dobro de sua idade.

"É sabido que há conflitos frequentes...  devido à personalidade dela e a sua atitude de quem sabe tudo. Sabe-se que ela é arrogante e desbocada", disse ele.

A carreira de Kim Yo-jong ecoa de alguma maneira a de sua tia, Kim Kyong-hui.

Irmã de Kim Jong-il, Kim Kyong-hui também ganhou destaque e acabou ingressando no politburo, alcançando o mesmo cargo hoje ocupado por Kim Yo-jong.

Mas sua sorte acabou em 2013, quando Kim Jong-un mandou executar seu marido, Jang Song-thaek, por traição à pátria. Kim Kyong-hui não é vista desde então.

Eles não foram os únicos membros da família governante a ter um final desagradável. Um ano atrás, Kim  Jong-nam meio-irmão de Kim Yo-jong e Kim Jong-un, mas que tinha se distanciado deles, foi assassinado com o gás venenoso VX enquanto viajava na Malásia.

O assassinato mostrou brutalmente a todos, incluindo Kim Yo-jong, que não é aconselhável desafiar o líder supremo de Pyongyang.

Tradução de Clara Allain

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.