Israel planeja mandar de volta para a África cerca de 35 mil ilegais

Interior diz que grande maioria não foge de guerras civis ou intolerância; ONGs contestam

Tel Aviv

Na noite do último sábado (24), 20 mil manifestantes saíram às ruas de Tel Aviv para protestar contra a deportação planejada de cerca de 35 mil imigrantes ilegais africanos a partir do final de março.

Eles entraram irregularmente em Israel entre 2006 e 2016 através da fronteira com o Egito. Agora, têm duas opções: ou deixam voluntariamente o país —e recebem ajuda de custo de US$ 3,5 mil—, ou são presos. As primeiras detenções já começaram.

O Ministério do Interior de Israel afirma que a grande maioria dos africanos não foge de perseguições na terra natal e é composta por infiltrados ilegais em busca de trabalho —cidadãos de Eritreia e Sudão representam 92% dos expatriados oriundos do continente vizinho.

Ativistas de direitos humanos contestam o argumento. Para eles, os estrangeiros buscam, sim, abrigo de regimes intolerantes e de guerras civis.

Só poderão ser deportados homens solteiros que não pediram asilo político ou tiveram a solicitação rejeitada. ONGs dizem que o governo nega a maioria dos requerimentos.

Dos 13.764 pedidos de asilo submetidos até julho de 2017, só 11 foram deferidos, segundo ativistas. Mais de 7.000 esperam resposta.

Intelectuais e movimentos sociais se opõem firmemente ao plano. Pilotos da empresa aérea nacional, a El Al, ameaçaram não pilotar os voos que levarão os degredados.

Mas a manifestação que mais chamou a atenção foi a de sobreviventes do Holocausto, que se disseram dispostos até a esconder imigrantes em suas casas:

“Pare o processo! Só você tem a possibilidade de tomar essa decisão histórica e de mostrar ao mundo que o Estado judeu não vai permitir o sofrimento e a tortura de pessoas sob sua proteção”, conclamavam os 36 signatários de uma carta enviada em janeiro ao primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu.

A discussão sobre o status dos imigrantes em Israel leva mais de uma década. Dados de 2017 da Autoridade de Imigração e População mostram que mais de 65% dos originários do Sudão e da Eritreia são do sexo masculino e têm entre 18 e 40 anos —na população global de refugiados, 50% são mulheres ou crianças.

PRIMEIRA ONDA

Em 2006, os primeiros 1.500 eritreus e sudaneses (egressos sobretudo do conflito em Darfur) foram recebidos de braços abertos e ganharam vistos temporários e permissões de trabalho. Passados sete anos, o número de africanos roçava os 100 mil.

Foi então que o governo completou a construção de uma cerca na fronteira com o Egito, o que diminuiu muito o influxo. Desde então, só 300 ilegais conseguiram entrar em Israel via Egito.

“Vim porque ouvi dizer que era um lugar seguro, bom para morar. Mas sem permissão para trabalhar, fica difícil”, diz Omar Tawur Hamid Koko, 46, do Sudão do Norte.

Boa parte dos cerca de 35 mil ilegais restantes mora em bairros pobres do sul de Tel Aviv, em que a população reclama do aumento da criminalidade —há registros de assaltos, estupros e depredação.

“Tenho medo de sair na rua”, afirma Tzipora Petel, 73, moradora do bairro Hatikva. “Sinto como se não fosse mais o meu país.”

O governo de Israel lembra já ter concedido status de refugiados a milhares de perseguidos políticos desde 1970, incluindo cidadãos de Líbano, Egito, Irã, Vietnã, Bósnia, Kosovo, Eritreia e Sudão.

Também argumenta que a decisão de agora não leva em consideração o continente de origem dos imigrantes. Em 2017, 4.000 ilegais da Geórgia e da Ucrânia foram expulsos.

A versão mais recente da lei de imigração prevê a deportação dos ilegais para suas nações de origem ou para um terceiro país africano que, segundo a imprensa israelense, seria Uganda ou Ruanda (autoridades desses países negam acordo nesse sentido).

Sigal Rozen, fundadora da ONG Linha Direta para Refugiados e Imigrantes, afirma que os deportados têm sido humilhados e extorquidos em Uganda e Ruanda: “Eles não recebem status legal, são explorados e forçados a entregar o passaporte. Muitos são roubados ou têm que subornar policiais para evitar a prisão”.

Para alguns, a solução seria manter os imigrantes africanos e diminuir a dependência de trabalhadores legais de outros países, como Filipinas, Tailândia e China.

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