Livro radiografa obstinação de ex-presidente do Equador

Sylvia Colombo
Buenos Aires

Por que Rafael Correa se transformou num governante tão autoritário, capaz de polarizar o país?

Atrás da resposta a essa pergunta, as jornalistas equatorianas Mónica Almeida e Ana Karina López iniciaram uma investigação que recupera a trajetória de algumas gerações da família Correa, além da infância e da juventude de Rafael Vicente Correa Delgado, que governou o Equador por uma década (2007-17).

Curiosamente, o Rafael Correa que conhecemos hoje é o sétimo Rafael Correa de uma linhagem que nasce com um capitão espanhol que desembarcou no que hoje é o Chile, ainda no período colonial.

"El  Séptimo Rafael" (ed. Aperimus, www.elseptimorafael.com) tem início em 1905, quando nascem os avós paterno e materno do político, e vai até 2009, quando, já no poder, ele convoca a Constituinte. Esse é tido pelas autoras como um momento de rompimento.

"A partir daí, ele se afasta de muita gente que o acompanhou e que até hoje não o reconhece mais. Foi o momento em que pudemos ver o que o poder faz com um homem", diz Almeida.

Ela acrescenta: "As pessoas não se transformam em autoritárias da noite para o dia, e o ego de Correa é grande. Nossa intenção era descobrir a origem disso, por isso buscamos a história de seus ancestrais."

O presidente do Equador, rafael Correa, à esquerda, segura a mão direita de seu sucessor e então afilhado político, Lenín Moreno, que veste a faixa presidencial amarela, azul e vermelha e ergue os braços em celebração sentado em sua cadeira de rodas no Congresso equatoriano
Rafael Correa transmite o cargo de presidente em Quito a seu então afilhado político, Lenín Moreno, com quem romperia meses depois - Dolres Ochoa-24.mai;17/Associated Press

ENREDO DE CINEMA

O livro mostra que a história dos "Rafaeis Correas" seria cinematográfica mesmo sem o mandatário. Uma família de classe média, mas com bons contatos e boa relação com figuras de poder, que embarcou no sonho do ciclo do cacau a enriquecer a costa equatoriana em princípios do século 20.

Ali, também encontraram a ruína financeira, foram acompanhados por mulheres fortes que levaram adiante a família em momentos de dificuldade, perderam terras e até meteram-se no narcotráfico. Por fim, obrigaram as novas gerações a viver na cidade, nem sempre em boas condições.

"Víamos as coisas que ele dizia sobre seu passado e, quando íamos olhar a realidade, nos dávamos conta de que cada coisa que ele dizia correspondia a uma meia verdade. Nada era inteiramente falso, mas tampouco totalmente verdadeiro."

Na obra, tem grande importância o colégio que ele frequentou, o San Jose de La Salle, de Guayaquil. Segundo as autoras, a doutrina rígida da instituição, que incluía castigos físicos, e depois sua experiência como escoteiro foram elementos importantes para formar um jovem que sempre quis se destacar.

O livro não traz declarações do presidente, que, como de costume naquilo que diz respeito à imprensa equatoriana, não quis dar entrevistas às autoras. 

 

A ERA CORREA (2007-2017) Ex-presidente investiu na área social, mas pecou por autoritarismo

PONTOS POSITIVOS

Crescimento econômico Apesar da queda do preço do petróleo desde 2015, o PIB cresceu 36,2% em dez anos

Ascensão Social Bolsas e economia levaram pobreza a cair de 53% para 29% e a engrossar a classe média

Gasto Social Forte aumento de verba destinada pelo governo levou à expansão da saúde e da educação

Estabilidade Política Foi o primeiro a cumprir mandato desde 1996, no maior período democrático desde 1984

PONTOS NEGATIVOS

Autoritarismo Centralizou indicação e atividades de governos regionais e mudou lei para reeleição indefinida

Censura Por meio da Justiça e de estatais, perseguia jornalistas e limitava meios de comunicação

Endividamento Com a desaceleração a partir de 2013, governo não diminuiu gastos e aumentou dívida

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