Migração de cidadãos da União Europeia ao Reino Unido cai 45% com 'brexit'

Queda no fluxo de estrangeiros afeta setores da economia; chegada de brasileiros também diminui

Ônibus da campanha anti-'brexit' "Vale a Pena?" estampa, em Londres, suposto prejuízo semanal causado pela saída da UE
Ônibus da campanha anti-'brexit' "Vale a Pena?" estampa, em Londres, suposto prejuízo semanal causado pela saída da UE - Peter Nicholls/Reuters
Daniel Buarque
Londres

Antes mesmo que haja alguma definição nas longas negociações entre o Reino Unido e a União Europeia sobre cidadania e migração, o "brexit" já afeta a imigração. No primeiro ano desde a decisão britânica de deixar a UE, a proporção de europeus fixando residência nas ilhas britânicas caiu quase pela metade.

O saldo de chegadas e partidas foi de 90 mil novos europeus no Reino Unido no período de 12 meses encerrado em setembro de 2017. É a primeira vez desde 2013 que a diferença fica em menos de 100 mil. No mesmo intervalo, o total de europeus que deixaram o território foi o mais alto em uma década --130 mil.

Numa demonstração da queda do interesse de europeus, o saldo de migrantes registrado no ano fechado em setembro de 2017 é 45% menor do que no período imediatamente anterior.

A informação faz parte do Relatório Trimestral de Estatísticas de Migração, divulgado nesta quinta (22) pelo Escritório Nacional de Estatísticas britânico. Os dados dizem respeito à imigração ocorrida até setembro de 2017, pouco mais de um ano depois do plebiscito que aprovou o "brexit", em junho de 2016.

Segundo o estudo, a queda ocorreu especialmente entre migrantes que chegavam para procurar emprego.

Para Jonathan Portes, professor de política pública e econômica no King's College London, a relação entre o "brexit" e a queda na migração de europeus é clara: "O Reino Unido tornou-se significativamente menos atraente, por razões tanto econômicas quanto psicológicas".

Segundo ele, a queda na instalação de europeus já afeta negativamente setores da economia britânica, como o sistema de saúde pública, em que faltam profissionais. "A mudança causará estragos."

Apesar disso, o saldo geral de imigração para o Reino Unido não se alterou. No total, a diferença entre chegadas e despedidas de estrangeiros foi de 244 mil.

O relatório explica que um aumento no número de migrantes de outras partes do mundo compensou a redução no fluxo de europeus.

"Não há motivos para o 'brexit' afetar a imigração de pessoas de outras partes do mundo", disse Portes.

BRASILEIROS

Segundo o pesquisador Daniel Rolbins, da Universidade de St Andrews (Escócia), não é possível indicar por ora se o "brexit" vai afetar a imigração de brasileiros ao Reino Unido. O relatório não traz dados recentes por nacionalidade.

"O total de chegada de brasileiros caiu entre 2015 e 2016. Mesmo que em 2017 a queda continue, é difícil dizer o papel que o 'brexit' teve, já que a redução pode ser causada também pelos problemas econômicos no Brasil", afirmou Rolbins, que estuda a comunidade brasileira no país.

Para ele, o "brexit" pode gerar efeitos diferentes para brasileiros. Por um lado, pessoas que têm ascendência europeia e conseguem passaportes para viver na UE podem ter menos interesse em entrar no Reino Unido.

Por outro, a redução de mão de obra barata de imigrantes europeus, de países como a Polônia, pode abrir espaço para o contingente de brasileiros que vive ilegalmente na Inglaterra.

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