Operação mira família ligada ao presidente Zuma na África do Sul

Gupta são suspeitos de pagar propina para autoridades; três pessoas foram presas

Johannesburgo
Polícia fecha rua na frente da casa da família Gupta, em Johanesburgo
Polícia fecha rua na frente da casa da família Gupta, em Johanesburgo - James Oatway/Reuters

A polícia da África do Sul fez uma operação nesta quarta-feira (14) na casa em Johannesburgo onde vive a família Gupta, um dos grupos mais influentes do país, suspeita de pagar propinas para as autoridades em troca de contratos com o governo. 

A ligação do presidente Jacob Zuma com a família é uma das principais razões para a atual pressão para que ele renuncie ao cargo —um de seus filhos mantém negócios com o grupo. 

Segundo a Hawks, a unidade especial da polícia responsável pela ação, três pessoas foram detidas, mas as identidades não foram reveladas. A agência de notícias Reuters afirmou que outras prisões são esperadas em breve. 

A operação acontece enquanto o comando do partido governista Congresso Nacional Africano (CNA) espera uma resposta de Zuma após exigir sua renúncia. Um pronunciamento do presidente era esperado para às 10h desta quarta (6h no horário de Brasília), mas não ocorreu.

Os líderes da sigla anunciaram que, caso o presidente não renuncie até o fim desta quarta, o Parlamento irá antecipar para esta quinta (15) um voto de desconfiança para o tirar do cargo ---a sessão estava inicialmente marcada para o dia 22. 

Na sequência, a ideia é confirmar o atual vice-presidente Cyril Ramaphosa no comando do país até o fim do atual mandato, em 2019. 

Aliados do presidente disseram que a população e a imprensa devem aguardar uma manifestação oficial do presidente, mas não especificaram quando isso vai ocorrer. 

Eleito em 2009 e reeleito cinco anos depois, Zuma vem perdendo poder desde o início dos escândalos de corrupção e vive uma queda de braço com Ramaphosa, que o substituiu no comando do CNA em dezembro.

As principais denúncias contra o presidente envolvem uma série de reformas feitas em sua casa e pagas com dinheiro público e sua ligação com os Gupta, que são também acusados de subornar diversas autoridades sul-africanas.

Tanto Zuma quanto os Gupta negam as acusações.

Parte da cúpula do CNA teme que a derrocada da popularidade do atual presidente prejudique o partido nas próximas eleições, abrindo espaço para a oposição, e por isso quer que ele deixe o cargo.

A sigla, que tem como maior símbolo o ex-presidente Nelson Mandela (1918-2013), comanda o país desde o ocaso do regime de segregação racial, em 1994.

Em 2016, o presidente Zuma chegou a enfrentar uma votação de impeachment, mas obteve vitória e permaneceu no cargo.

GUPTA

De origem indiana, os três irmãos que comandam o grupo familiar se mudaram para a África do Sul em 1993, em meio ao fim do regime segregacionista do apartheid. Ajay, Atul e Rajesh vieram de Uttar Pradesh, Estado localizado no norte da Índia.

Um porta-voz dos Gupta disse à rede britânica BBC que o patriarca da família decidiu enviar os filhos para a África do Sul porque acreditava que o país se transformaria na "América do mundo", uma terra de oportunidades.

O primeiro negócio da família foi a empresa de computadores Sahara. Hoje, além dessa área, os Gupta têm negócios nos setores de energia, tecnologia, mineração, viagens e mídia.

Atul Gupta afirmou que conheceu Zuma há cerca de dez anos, em um evento de uma das empresas do grupo.

A ligação dos Zuma com os Gupta não é nova. Uma das mulheres de Zuma, Bongi Ngema-Zuma, trabalhou no escritório de comunicação da JIC Mining  Services, que atua com mineração.

A filha de Zuma, Duduzile, foi uma das diretoras da Sahara Computers antes de renunciar ao cargo. O filho do presidente, Duduzane, também foi diretor em uma empresa do grupo Gupta, mas renunciou após pressão da opinião pública em 2016.

O crescente poder dos Gupta no governo sul-africano foi exposto em março de 2016, quando vieram o então vice-ministro de Finanças Mcebisi Jonas disse que um membro da família ofereceu a ele o posto de ministro no ano anterior.

Outro caso semelhante envolve uma ex-parlamentar do CNA, Vytjie Mentor, que afirma ter recebido uma proposta dos Gupta para assumir o Departamento de Empresas Públicas.

A oferta teria sido feita na presença do presidente Zuma, em um encontro na mansão da família. Os Gupta negam, e Zuma afirma não ter recordação de tal evento.

Associated Press e Reuters
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