Reino Unido ameaça cortar ajuda a ONGs após escândalo da Oxfam

Diretora de organização afirma que abusos no Haiti partiram seu coração

Londres
Fachada da Oxfam, em Londres - Peter Nicholls/Reuters

O Reino Unido vai cortar financiamento de qualquer organização que não cumpra uma nova revisão em obras de caridade no exterior, disse a secretária de Desenvolvimento Internacional do Reino Unido, Penny Mordaunt, neste domingo (11), descrevendo os relatos de exploração sexual no setor como "totalmente desprezíveis".

A Oxfam, uma das maiores instituições de caridade britânica, condenou na sexta-feira (9) o comportamento de alguns ex-funcionários no Haiti depois de uma reportagem ter dito que trabalhadores humanitários pagaram por sexo enquanto estavam em missão para ajudar aqueles afetados por um terremoto de 2010.

Mordaunt disse que escreveria para instituições de caridade britânicas que trabalham no exterior exigindo que declarem quaisquer problemas relacionados com o dever que eles têm para proteger seus funcionários e as pessoas com quem eles trabalham de danos e abusos —a chamada "salvaguarda".

Ela também quer que as instituições de caridade assegurem que todas as preocupações históricas tenham sido adequadamente tratadas e que especifiquem suas políticas para lidar com esses casos. Ela vai se encontrar com o regulador de caridade nesta semana.

"No que diz respeito à Oxfam e a qualquer outra organização que tenha problemas de salvaguarda, esperamos que eles cooperem plenamente com essas autoridades, e deixaremos de financiar qualquer organização que não o fizer", disse Mordaunt em um comunicado. 

Penny Mordaunt, Secretária de Estado para o Desenvolvimento Internacional do Reino Unido, saindo do endereço oficial da primeira-minsitra Theresa May, em Londres - Hannah Mckay - 16.jan.2018/Reuters

Em uma declaração na sexta-feira, a Oxfam não confirmou nem negou a reportagem do jornal "The Times", mas disse que as descobertas de má conduta "se relacionavam com ofensas, incluindo bullying, assédio, intimidação e falha na proteção do pessoal, além de má conduta sexual".

A Reuters não pôde verificar de forma independente as alegações contidas na reportagem do The Times e não conseguiu entrar em contato com nenhuma das equipes da Oxfam que trabalhavam no Haiti.

Respondendo aos comentários de Mordaunt, a presidente do conselho da Oxfam, Caroline Thomson, disse que compartilhava de sua "raiva e vergonha de que um comportamento como esse destacado no Haiti em 2011 aconteceu em nossa organização".

Ela disse que, como resultado direto da reportagem do Times, os membros da equipe levantaram preocupações sobre como os funcionários no Haiti foram avaliados e recrutados.

A instituição de caridade disse que estava apresentando um pacote de medidas para fortalecer sua busca por pessoal, particularmente em emergências, onde precisava recrutar pessoal rapidamente, acrescentando que as melhorias significativas foram feitas desde 2011.

"O abuso sexual é uma praga na sociedade e a Oxfam não é imune", disse Thomson. "Não é suficiente ficar consternado com o comportamento de nossos antigos funcionários —​devemos e vamos aprender com isso e usar como um incentivo para a melhoria". 

'TOLERÂNCIA ZERO'

O governo da Grã-Bretanha precisa fazer mais para que as instituições de caridade fortaleçam os procedimentos de salvaguarda para garantir que o "comportamento horrível" de alguns membros da Oxfam Internacional não seja repetido, disse um porta-voz do primeiro-ministro.

O porta-voz da Theresa May disse a jornalistas que a ministra da ajuda internacional, Penny Mordaunt, estava reunindo os representantes da Oxfam na segunda-feira para considerar quais outros passos precisavam ser levados para um escândalo de má conduta sexual no Haiti.

"O DFID (Departamento para o Desenvolvimento Internacional) tomou medidas nesta área para tentar fortalecer sistemas para reforçar uma abordagem de tolerância zero. Existem várias medidas que tomaram, mas queremos avançar nessa área", disse ele.

RENÚNCIA

A ONG Oxfam informou nesta segunda-feira (12) que a vice-presidente executivo, Penny Lawrence, renunciou, assumindo inteira responsabilidade de como a organização "não atuou adequadamente" ante a preocupações levantadas internamente sobre má conduta sexual por alguns membros da equipe.

"Nos últimos dias, percebemos que surgiram preocupações sobre o comportamento dos funcionários no Chade e no Haiti sobre o qual não conseguimos agir adequadamente", afirmou Lawrence em um comunicado.

"Agora está claro que essas alegações —envolvendo  prostitutas e relacionadas ao diretor no país e de membros de sua equipe no Chade—  foram criadas antes de se mudar para o Haiti".

INVESTIGAÇÕES

A diretora executica da Oxfam Internacional, Winnie Byanyima, declarou neste domingo (11) que ficou com o coração partido com o escândalo de má conduta sexual no Haiti e que levou o governo britânico a ameaçar cortar o financiamento da ajuda a instituições de caridade.

Winnie  Byanyima, que se tornou diretora executiva da Oxfam  International em 2013, disse que ficou triste com o que aconteceu em 2010 e que não poderia ter acontecido sob os sistemas e regras implementadas desde então. 

A diretora executiva da Oxfam Winnie Byanyima, em Nova York, onde concedeu entrevista sobre o escândalo no Haiti envolvendo a ONG - Andrew Kelly/Reuters

"Eu me sinto profundamente, profundamente ferida. O que aconteceu no Haiti foi um número de homens privilegiados que abusavam das mesmas pessoas que deveriam proteger —usando o poder que eles tinham de Oxfam para abusar de mulheres impotentes. Isso parte meu coração", Byanyima disse em entrevista à Reuters TV em Nova York.

"Queremos restaurar a confiança. Queremos construir essa confiança. Estamos nos comprometendo a ser honestos, a ser transparentes e a ser responsáveis em abordar esta questão de má conduta sexual."

Para Byabyima, o momento é de colaborar com as investigações e divulgar os resultados. "Precisamos fazer mais em termos de investigações e compartilhar os resultados para que os infratores não cometem esses atos em outras organizações", disse ela.

Ela afirmou que a Oxfam vai compartilhar com as autoridades todas as informações que têm sobre o incidente de 2010.

Reuters
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