Saída de Zuma ameaça domínio do CNA na África do Sul

Após lutar contra o apartheid, ex-presidente deixa o poder acusado de corrupção

Joseph Cotteril
Johannesburgo | Financial Times

Jacob Zuma, que renunciou à Presidência da África do Sul na quarta-feira (14), se filiou ao Congresso Nacional Africano na adolescência, quando era pastor de rebanhos, e dedicou sua vida à luta contra o apartheid, passando anos no exílio e na prisão antes de chegar ao cargo máximo no país.

Agora, após quase nove anos no poder, ele deixa um partido esvaziado por corrupção e divisões internas e correndo o risco de perder o domínio que exerce sobre o poder há 24 anos.

Jacob durante seu discurso de renúncia em Pretória, na África do Sul
Jacob durante seu discurso de renúncia em Pretória, na África do Sul - Siphiwe Sibeko/Reuters

Cyril Ramaphosa, o líder do CNA e o escolhido pelo partido para suceder a Zuma na Presidência, terá que reconstruir instituições enfraquecidas por anos de impunidade para os aliados de Zuma, enquanto eles teriam saqueado o Estado. Embora o CNA tenha vencido duas eleições com Zuma como seu líder e ainda conserve sua maioria, Ramaphosa terá um trabalho árduo pela frente para conservar o controle do partido nas eleições programadas para 2019.

Há quem acredite que, depois da era de Zuma, o CNA nunca mais consiga recuperar sua legitimidade. De maneira apropriada, em se tratando de um homem acusado de destruir o lugar do CNA como movimento de libertação reverenciado, coube à fundação que preserva o legado de Nelson Mandela traçar um resumo do governo de Jacob Zuma, este mês.

"A rapinagem sistemática cometida por redes clientelistas ligadas ao presidente Zuma traiu o país com o qual Nelson Mandela sonhou quando deu seus primeiros passos em liberdade, 28 anos atrás", disse a fundação. Instamos o Estado a responsabilizá-lo por seus atos. Algumas coisas não podem ser perdoadas.

Zuma tornou-se presidente em 2009, depois de tomar o lugar de Thabo Mbeki como líder do CNA, numa disputa que trouxe à tona as divisões crescentes no interior do partido.

Sua ascensão foi improvável. Já em 2005 parecia que sua carreira política estaria acabada, quando Mbeki o afastou da vice-presidência depois de vir à tona o envolvimento de Zuma em corrupção alegada relacionada a um negócio de armas no valor de bilhões de dólares. Investigadores anticorrupção armados de metralhadoras invadiram a casa de Zuma em Johannesburgo.

Em 2006 Zuma foi absolvido da acusação de estupro da filha de um velho amigo da família. Fezekile Kuzwayo era portadora de HIV, e a declaração de Zuma durante o julgamento de que ele teria tomado banho depois de fazer sexo com ela sem camisinha, para proteger-se contra a possibilidade de infecção, foi ridicularizada.

Porém, em vez de virar uma nota de rodapé na política sul-africana do pós-apartheid, Zuma aproveitou seu charme pessoal inegável e suas origens humildes numa região rural pobre do país para angariar a simpatia dos eleitores que não apreciavam o estilo distante e impessoal de Mbeki. A ala esquerda do CNA o apoiou, acreditando que ele aceleraria medidas para reduzir o controle de brancos sobre a economia.

Com o tempo, o outro lado de Zuma, o de um operador político implacável, passou a dominar o cenário, assim como seus problemas passados com a Justiça, incluindo acusações criminais em um escândalo de corrupção ligada à transação de armas nos anos 1990, além de novos escândalos, incluindo o fato de ele não ter reembolsado dinheiro dos contribuintes que usou para reformar sua casa.

Um dos elementos marcantes da Presidência de Zuma foi sua tendência a constantemente contratar e demitir ministros, funcionários da polícia, procuradores e promotores, para evitar que qualquer ameaça a ele ganhasse contornos sólidos. A corrupção não demorou a se espalhar para ministérios e estatais, com acusações de que a família empresarial Gupta teria usado sua amizade com o presidente para influenciar a nomeação de políticos para cargos e para vencer licitações públicas de obras para o Estado.

Zuma negou qualquer delito e, em um clima de paranoia crescente, atribuiu seus problemas a espiões ocidentais e adversários dentro do CNA. Disse que as acusações crescentes de corrupção do Estado feitas nos últimos anos não passavam de propaganda política.

Esse desrespeito pelas instituições formais e seu histórico escuso como agente de inteligência do CNA durante a luta contra o apartheid lhe valeram comparações frequentes com líderes ditatoriais como Vladimir Putin e Recep Tayyip Erdogan. Mas algumas pessoas acreditavam que Zuma queria se manter na Presidência apenas para evitar ser levado à Justiça.

"Putin é um personagem como Zuma, mas Putin tinha um plano. Já Zuma só queria chegar ao poder e continuar vivo", diz William Gumede, presidente executivo da ONG Democracy Works.

Ele não pensa em termos de sistemas. Em vez disso, mantém relações pessoais com centenas de pessoas", concorda outro observador que se relaciona com Zuma desde os anos de exílio do CNA. "Ele foi um plebeu que se comportou como se fosse da realeza."

O custo disso tudo para a credibilidade institucional e financeira da África do Sul é enorme. A classificação de crédito "junk" (lixo, ou risco de calote) provocada pelo hábito custoso de Zuma de demitir seus ministros das Finanças repentinamente, supostamente a pedido dos Gupta vai aumentar a dificuldade do Estado sul-africano em recuperar o tempo perdido e transformar sua economia.

Mas o Judiciário e as instituições fiscalizadoras continuam resilientes. Enquanto o CNA tem estado paralisado, a sociedade civil permanece forte. Os partidos oposicionistas estão mais fortes que nunca e agora, depois de eleições locais no ano passado que foram desastrosas para o CNA, estão no comando de cidades importantes.

Gumede diz que, ironicamente, essa talvez seja a parte mais importante do legado de Zuma. "Ele energizou a resistência ao mesmo tempo em que destruiu a liderança moral do CNA, que pode levar muito tempo para se recuperar, se é que isso será possível".

Pela primeira vez, hoje existe uma compreensão ampla de como funciona a democracia e como ela pode ser posta em risco. As instituições foram trabalhadas e ficaram mais sólidas. Temos marcadores que antes não tínhamos. Isso é importante para a democracia."

Jacob Zuma

1942

Nasce em Nkandla, KwaZulu-Natal

1958

Ingressa no Congresso Nacional Africano

1963

É sentenciado a dez anos de prisão em Robben Island por sua participação na luta contra o apartheid

1973

É libertado da prisão em Robben Island

1999

Torna-se vice-presidente da África do Sul, com Thabo Mbeki como presidente

2005

Acusado de corrupção, é afastado da vice-presidência

2006

É absolvido da acusação de estupro

2007

É eleito presidente do CNA após uma disputa amarga com Mbeki pela liderança

2009

As acusações de corrupção são arquivadas. Zuma se torna presidente da África do Sul

2013

É acusado de usar dinheiro público para reformar sua casa

2017

O tribunal supremo de recursos da África do Sul confirma a decisão de que 783 acusações de corrupção e fraude contra Zuma devem ser reinstauradas

Dezembro de 2017

Cyril Ramaphosa é eleito líder do CNA, derrotando o candidato preferido por Zuma

14 de fevereiro de 2018

Zuma renuncia à Presidência

Tradução de CLARA ALLAIN

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