Trump diz apoiar controle de armas e diz que políticos têm medo de lobby

Discurso enfrentando grupo pró-armamento dos EUA surpreende parlamentares e jornalistas

Fuzis, espingardas e escopetas aparecem em estante na loja de armas Dick's Sporting Goods, em Fairfax, na Virgínia
Fuzis, espingardas e escopetas aparecem em estante na loja de armas Dick's Sporting Goods, em Fairfax, na Virgínia - Estelita Hass Carazzai/Folhapress
Estelita Hass Carazzai
Washington

Em um movimento inesperado, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sinalizou em reunião com congressistas nesta quarta (28) que está disposto a apoiar leis que apertem o controle de armas no país, tema que enfrenta oposição histórica de políticos e lobistas americanos.

Entre as sugestões expostas pelo republicano, estão o aumento da idade mínima para comprar armas, o reforço da checagem de antecedentes e até mesmo um sistema de classificação indicativa para videogames com cenas de violência.

“Vocês têm medo da NRA”, afirmou Trump aos congressistas, em referência à Associação Nacional do Rifle, maior lobby pró-armas dos Estados Unidos e tradicional patrocinador de campanhas eleitorais. “Eu não ligo para quem sustenta vocês ou não. Vocês serão mais populares se fizerem alguma coisa.”

A reunião foi acompanhada pela imprensa e transmitida ao vivo por alguns canais de TV. Os congressistas, republicanos e democratas chamados pela Casa Branca a debater o tema, pareciam perplexos e se entreolhavam com frequência.

Trump chegou a afirmar que alguns dos legisladores estão “petrificados” pela NRAque, na semana passada, foi elogiada pelo presidente, que chamou seus diretores de “grandes patriotas”. 

O mandatário repetiu que os membros da associação, que argumentam que o direito ao porte de armas está na Constituição americana, “amam o país”, mas afirmou que “nem sempre é preciso concordar com eles”, como no caso de aumentar a idade mínima dos compradores de armas, de 18 para 21 anos.

O republicano chegou a mencionar seu filho, Barron, 11, como um motivo para que os legisladores façam mais para proteger as crianças dos EUA. Ele também apoiou que se realizem estudos sobre a violência das armas de fogo, e voltou a enfatizar a necessidade de impedir que pessoas com problemas de saúde mental tenham acesso a elas.

O presidente ainda sinalizou que deve assinar em breve uma ordem executiva para proibir a venda de “bump stocks, dispositivos que aceleram o disparo de armas comuns, simulando uma semiautomática. O equipamento foi usado no massacre em Las Vegas, em outubro do ano passado, quando 58 pessoas foram mortas por um atirador posicionado na janela de um quarto de hotel. 

“Vocês não precisam se preocupar com isso [bump stocks]”, afirmou. “Eles já eram.”

Apesar dos comentários, Trump não chegou a apresentar uma medida concreta —mas pediu aos parlamentares que o façam.

BOICOTE

As declarações do presidente ocorrem em meio a uma pressão pública sem precedentes contra empresas e políticos americanos, em favor do maior controle de armas —um movimento que começou com os sobreviventes do massacre em Marjory Stoneman Douglas, escola da Flórida em que 17 pessoas morreram a tiros no mês passado.

Os estudantes vêm pressionando empresas como a FedEx e a Delta Airlines a romperem sua ligação com a NRA, num boicote nacional. Em alguns casos, têm conseguido.

Nesta quarta (28), duas das maiores lojas varejistas do país, o Walmart e a Dick’s Sporting Goods, anunciaram que não irão mais vender armas para menores de 21 anos. A segunda anunciou que não irá mais vender fuzis ou pentes de alta capacidade.

“Quando vimos o que as crianças estão passando, o luto dos parentes e as crianças mortas, sentimos que tínhamos que fazer algo”, disse o presidente da companhia, Ed Stack, à rede de TV ABC. 

A empresa, presente em quase todo o território americano, descobriu que vendeu uma arma no ano passado ao adolescente Nikolas Cruz, 19, autor da chacina na Flórida. O equipamento não foi comprado ilegalmente, nem foi usado no ataque —realizado com um fuzil semiautomático do tipo AR-15

A venda de fuzis nas lojas Dick’s está suspensa desde 2012, quando ocorreu o atentado na escola Sandy Hook, mas o equipamento ainda era oferecido nas outras lojas controladas pela companhia, como a Field & Stream.

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