Trump troca relatório escrito de inteligência por briefing oral

Quebrando a tradição, americano prefere receber informações em sessões verbais

Washington

Durante a maior parte do ano, o presidente Donald  Trump não quis participar de uma prática seguida pelos últimos sete presidentes: ele raramente ou nunca lê o "President's  Daily  Brief" (relatório diário ao presidente), documento que resume as informações mais importantes coletadas pelas agências de inteligência dos EUA sobre "pontos quentes" em todo o mundo.

Trump prefere contar com um relatório verbal sobre temas de inteligência selecionados no Salão Oval, em vez de receber o documento completo, por escrito, entregue para revisão separadamente todos os dias, segundo três pessoas que conhecem os costumes da Casa Branca.

Ler o livro de inteligência, geralmente denso, não é o "estilo de informação" preferido de Trump, segundo uma pessoa que conhece a situação.

O presidente Donald Trump, no Salão Oval da Casa Branca - Evan Vucci/AP

O esquema salienta a impaciência de Trump com documentos sigilosos exaustivos enviados ao comandante-em-chefe --material que, segundo ele, prefere receber condensado, sempre que possível. Ao não ler o relatório diário, porém, o presidente pode reduzir sua capacidade de reagir a crises da maneira mais eficaz, segundo especialistas em inteligência.

Logo depois de Trump assumir o cargo, analistas tentaram moldar suas sessões de informações a um presidente conhecido pelos curtos períodos de atenção, que é famoso por obter grande parte de suas informações no canal conservador Fox News. Os relatórios verbais foram incrementados com fotos, vídeos e gráficos.

Depois de vários meses, Trump deixou claro que não estava interessado em rever uma cópia pessoal do relatório de inteligência por escrito, conhecido como PDB, um resumo altamente sigiloso preparado antes do amanhecer para dar ao presidente a melhor atualização dos acontecimentos mundiais, segundo pessoas que conhecem a situação.

Membros do governo defenderam a confiança de Trump nas sessões verbais e disseram que ele recebe relatórios completos da inteligência, notando que os presidentes historicamente tentaram receber informação de maneiras diferentes.

Michael Anton, um porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, disse que Trump "é um ávido consumidor de informações, aprecia o trabalho duro de seus informadores e de toda a comunidade de inteligência e aguarda com expectativa cada dia para receber seus relatórios de inteligência".

Daniel Coats, diretor da inteligência nacional, disse em um comunicado que "qualquer ideia de que o presidente Trump não esteja totalmente envolvido com o PDB ou não leia os materiais do relatório é pura ficção e claramente não se baseia em conhecimento do processo em primeira mão".

Ele acrescentou que as sessões habituais de Trump com altos assessores de inteligência "demonstram seu interesse e apreço pelo valor da informação fornecida. Na verdade, o presidente Trump se envolve durante períodos significativamente maiores do que muitos presidentes fizeram, segundo entendo".

O PDB, que foi descrito como um jornal com a menor circulação do mundo, é extraído de material fornecido por espiões, satélites e tecnologia de vigilância dos EUA, assim como fontes noticiosas e agências de inteligência estrangeiras.

Vários especialistas em inteligência disseram que a aversão do presidente por mergulhar mais fundo em detalhes de inteligência por escrito --a "lição de casa" que os antigos presidentes fizeram para se familiarizar com a política externa e a segurança nacional-- tornam ele e o país mais vulneráveis.

Leon Panetta, um ex-diretor da CIA e secretário da Defesa do presidente Barack Obama, disse que Trump poderia perder contextos e nuances importantes se contar somente com informações verbais. O arranjo também aumenta a pressão sobre a equipe de segurança nacional do presidente, que não pode substituir totalmente um comandante-em-chefe bem informado, segundo ele.

"Vai faltar alguma coisa", disse Panetta. "Se por algum motivo seus instintos sobre o que deve ser feito não forem apoiados pela inteligência porque ele não achou tempo para ler aquela informação, aumenta o risco de que ele cometa um erro."

"Você pode ter as pessoas mais inteligentes ao seu redor --afinal tudo se resume na decisão dele", acrescentou.

O relatório de informações altamente secretas, que data em sua forma atual do governo Lyndon Johnson, é feito de "artigos" individuais escritos por analistas profissionais, na maioria da CIA. O PDB é rigidamente controlado, e as autoridades de inteligência mantêm um registro de quando os informadores fornecem uma cópia do documento a um diretor e quando eles a recuperam, segundo várias autoridades.

Mark Lowenthal, um oficial de inteligência de carreira que serviu como diretor-assistente da CIA de 2002 a 2005, disse que Trump não precisa ler o PDB se ele receber um extenso relatório verbal. Mas advertiu que um relatório curto sobre alguns itens selecionados deixaria o presidente mal equipado para tomar grandes decisões em longo prazo.

"Então ele realmente não está recebendo um relatório completo da inteligência", disse Lowenthal. "Você precisa imergir em uma história, sobre todo o seu trajeto. Você não pode apenas saltar em uma questão e chegar apressado aos atores e às implicações. Há grande probabilidade de que algo surja mais tarde para o qual ele não tem base de inteligência para ajudá-lo a solucionar."

O documento, embora tradicionalmente longo e denso, contém ideias chaves que podem criar um corpo de conhecimento cumulativo --e prever ameaças iminentes, segundo profissionais de inteligência.

O presidente George W. Bush enfrentou uma tempestade política sobre o quanto seu governo estava prestando atenção no PDB depois que se descobriu que um mês antes do 11 de Setembro seu relatório incluía uma advertência de que Osama  bin Laden estava "determinado" a atacar alvos dos EUA usando aviões.

No governo atual, versões do relatório por escrito são fornecidas a pelo menos uma dúzia de autoridades, incluindo o assessor de segurança nacional, H.R. McMaster, o secretário da Defesa, Jim Mattis, e o secretário de Estado, Rex Tillerson, segundo pessoas que conhecem o assunto.

Assessores disseram que Trump recebe seu relatório de inteligência pessoal quase todos os dias, embora suas agendas divulgadas publicamente indiquem que as sessões vêm ocorrendo a cada dois ou três dias em média nos últimos meses, geralmente às 11h.

Uma autoridade graduada da Casa Branca descreveu a sessão de informações no Salão Oval como uma versão destilada das sessões que autoridades graduadas recebem mais cedo a cada dia. O diretor da CIA, Mike Pompeo, geralmente participa da sessão, assim como Coats.

Durante o relatório feito a Trump, um oficial veterano da inteligência geralmente descreve os destaques das informações contidas em uma versão resumida do PDB. Trump raramente ou nunca pediu que o documento seja deixado para que o leia, segundo pessoas que conhecem a situação.

Pompeo disse que o presidente é informado sobre acontecimentos atuais, assim como futuros --como visitas de líderes estrangeiros-- e questões estratégicas de prazo mais longo.

"O presidente faz perguntas difíceis", disse ele em comentários públicos no mês passado. "Ele é profundamente envolvido. Fazemos um pingue-pongue movimentado, destinado a garantir que estamos lhe entregando a verdade no melhor sentido possível."

Os admiradores de Trump dizem que ele tem uma capacidade única de cortar a sabedoria política convencional e fazer perguntas que outros há muito consideram fato consumado. "Por que estamos na Somália?" ou "Por que não posso sair do Afeganistão?", ele pode perguntar, segundo autoridades.

O presidente pergunta coisas "delicadas", disse uma autoridade graduada, querendo dizer que ele pressiona sua equipe a questionar antigas suposições sobre os interesses dos EUA no mundo.

Outra pessoa que conhece o processo de briefing disse que às vezes Trump trata seus informadores com desconfiança. Ele balança a cabeça, franze a testa e se queixa de que os informadores o estão "enganando", segundo essa pessoa.

Trump às vezes demonstrou uma profunda desconfiança da comunidade de inteligência. Ele acusou os chefes da inteligência da era Obama de tramar contra sua eleição e exagerar a interferência russa na eleição presidencial de 2016 em um esforço para deslegitimar sua Presidência.

O jornal "The Washington Post" relatou no ano passado que autoridades da inteligência em alguns casos incluíram informações relacionadas à Rússia só na avaliação por escrito do presidente, evitando-as no relatório verbal para não irritar Trump.

O último presidente que, acredita-se, não revisava regularmente o PDB foi Richard Nixon. O registro histórico não contém referências a ele ler o documento, embora Nixon e seu assessor de segurança nacional, Henry Kissinger, recebessem uma copia diária, segundo David Priess, ex-relator da CIA e autor de "The President's Book of Secrets." [O livro de segredos do presidente].

"Não é inédito que alguém receba só um relatório verbal do PDB", disse Priess. "Mas é mais exceção que a regra. E uma rara exceção."

A comunidade de inteligência se orgulha de elaborar o documento de informações e o relatório verbal no estilo de cada presidente. Obama preferia receber o PDB em um iPad seguro, para revisá-lo antes de responder a perguntas de seus informadores.

Bush geralmente lia o PDB logo de manhã, com seu informador presente para revisar os destaques e responder a perguntas, segundo ex-autoridades que o informavam.

Nem Obama nem Bush revisaram o relatório todos os dias, e às vezes saltavam uma sessão, especialmente em viagens.

O presidente Ronald Reagan lia o PDB todos os dias, mas preferia não ter um relatório de um oficial da CIA, segundo John Pointdexter, que serviu como seu assessor de segurança nacional. Ele muitas vezes discutia o documento de briefing de manhã no Salão Oval em reuniões com seus principais assessores, disse Pointdexter.

Trump indicou desde cedo que tinha pouco interesse por mergulhar em documentos detalhados da inteligência.

"Eu gosto de balas ou gosto o mínimo possível. Você sabe, não preciso de relatórios de 200 páginas sobre algo que pode ser transmitido numa página", disse ele a Axios pouco antes de assumir o cargo.

Durante a transição, a CIA ofereceu dar a Trump o mesmo relatório diário que dava a Obama, uma tradição para o presidente-eleito. Mas Trump não quis um relatório diário, preferindo documentos menos frequentes.

"Você sabe, eu sou tipo uma pessoa inteligente", disse Trump em uma entrevista no "Fox  News  Sunday" em dezembro de 2016. "Não precisam me dizer a mesma coisa e as mesmas palavras todo santo dia nos próximos oito anos. Poderão ser oito anos --mas oito anos, não preciso disso."

Na época, Obama advertiu que não era recomendável evitar ideias de profissionais de inteligência.

"Se você não está entendendo sua perspectiva --sua perspectiva detalhada--, então você está num voo cego", disse ele em uma entrevista no "Daily Show" da Comedy Central.

Durante o primeiro ano de mandato de Trump, o formato de seu relatório de inteligência mudou.

Nos primeiros dias, ele recebia o briefing tradicional por volta das 9h a 10h30, segundo sua agenda divulgada publicamente. Em poucos meses seus assessores de inteligência começaram a ampliar as sessões com mapas, tabelas, fotos e vídeos, assim como "gráficos incríveis", como disse Pompeo na época.

"Esse é o nosso trabalho, certo? Entregar o material de uma maneira que ele possa compreender melhor a informação que estamos tentando comunicar", disse Pompeo ao "Post" em maio.

As primeiras sessões de informações tinham uma qualidade mais livre, segundo autoridades atuais e passadas. Cinco ou mais assessores da Casa Branca podiam se unir a Trump para o relatório, além de seu informador e autoridades de inteligência.

As reuniões eram muitas vezes dominadas por qualquer tema que mais interessasse ao presidente naquele dia. Trump discutia as notícias do dia ou um tuíte que enviasse sobre a Coreia do Norte ou o muro na fronteira --ou qualquer outra coisa que tivesse na cabeça, segundo duas pessoas inteiradas das sessões.

Nesses dias, restavam apenas alguns minutos --e os informadores mal tocavam nos temas que vieram discutir, segundo uma autoridade graduada.

"Ele muitas vezes sai pela tangente durante o relatório e você tem de segurá-lo", disse uma autoridade.

Depois que entrou para o governo, em julho, o chefe de Gabinete, John Kelly, cortou o número de pessoas que participam do relatório de inteligência, na tentativa de exercer mais disciplina sobre como o presidente consome informações, segundo autoridades atuais e passadas.

Washington Post

Tradução: LUIZ ROBERTO MENDES GONÇALVES

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