Afinal, ninguém ficou mais surpreso que Rex Tillerson com sua demissão

Ex-secretário de Estado saiu justamente quando parecia ter alcançado seu ritmo diplomático

Rex Tillerson deixa o púlpito onde fez seu discurso após ser demitido pelo presidente Donald Trump do cargo de secretário de Estado
Rex Tillerson deixa o púlpito onde fez seu discurso após ser demitido pelo presidente Donald Trump do cargo de secretário de Estado - Andrew Harnik/Associated Press
Anne Gearan Carol Morello
Washington

Rex Wayne Tillerson passou um ano tumultuado no leme do Departamento de Estado, frequentemente sabotado pelo presidente de quem ele discordava sobre importantes questões de política externa e menosprezado por muitos de seus funcionários, que o acusavam de marginalizar o papel deles e a própria diplomacia.

Depois de meses negando que pretendia renunciar, Tillerson foi deposto na terça-feira (13), justamente quando parecia estar alcançando seu ritmo diplomático. Nas últimas semanas, ele se tornou mais franco ao criticar a Rússia, mais confiante em que sua paciente pressão sobre a Coreia do Norte estava dando frutos e aparentemente mais tranquilo de que duraria mais que seus muitos críticos na Ala Oeste.

Afinal, ninguém ficou mais surpreso com a demissão que o próprio Tillerson. Ainda na segunda-feira à noite, na volta de uma viagem de uma semana à África, um assessor graduado disse que ele manteria a posição.

Em uma declaração de um assessor graduado cerca de cinco horas depois que seu avião pousou, às 4h, o secretário deixou claro que o abismo entre o ex-CEO metódico e o presidente instável continuava grande como sempre. 

“O secretário tinha toda a intenção de ficar por causa do progresso crítico feito em segurança nacional e outras áreas”, disse Steve Goldstein, subsecretário de diplomacia pública para o Departamento de Estado. “Ele não falou com o presidente e desconhece o motivo.”

A saída de Tillerson ocorre meses depois de desavenças com a Casa Branca sobre questões de pessoal e administrativas no Departamento de Estado, que tem um grande número de cargos desocupados. Mas o que pode ter acabado com ele foi uma desconexão fatal sobre o que Trump considerava uma abordagem convencional de Tillerson a questões políticas.

O preisdente disse a associados que queria um secretário de Estado que parecesse caber no papel, e gostava da imagem fotogênica de Tillerson e seu austero sotaque do Texas, verdadeiro como arame farpado, de um homem que foi batizado em homenagem a dois astros do faroeste dos anos 1950, Rex Allen e John Wayne. Ele também gostava de seu currículo na petroleira ExxonMobil

Mas os dois, que não se conheciam antes da eleição de Trump, nunca deram certo. Para Tillerson, apesar dos almoços semanais e telefonemas frequentes, Trump continuava imprevisível e às vezes inescrutável. Para Trump, Tillerson se tornou a personificação dos críticos do “establishment”.

O então secretário de Estado Rex Tillerson observa o presidente Donald Trump falando em uma reunião de gabinete na Casa Branca em outubro
O então secretário de Estado Rex Tillerson observa o presidente Donald Trump falando em uma reunião de gabinete na Casa Branca em outubro - Saul Loeb - 16.out.2017/AFP

CONQUISTAS

O ex-secretário não tem a seu favor uma causa ou conquista singular em política externa, mas trabalhou para abrir a porta para as negociações com a Coreia do Norte. 

Embora Trump tenha dito pejorativamente no ano passado que Tillerson estava desperdiçando seu tempo tentando conversar com o “pequeno homem-foguete, a cúpula que o presidente aceitou na semana passada nasceu em parte dos esforços do ex-secretário. 

Uma parte de seu legado está na reação às políticas de Trump que Tillerson considerava impróprias e discutia, batalha que não venceu com frequência. Em reuniões privadas, ele lhe disse que pensava achar que os EUA deveriam continuar no acordo do clima de Paris e não romper o acordo nuclear com o Irã.

Tillerson também se opôs à decisão unilateral de reconhecer Jerusalém como capital de Israel e mudar a embaixada para lá. Apesar de ter assinado documentos na semana passada autorizando a renovação de um consulado existente —um passo relativamente modesto que teoricamente poderá ser revertido no futuro—, ele deixou claro que a segurança, e não a política, é sua principal preocupação. 

Houve um elemento de anticlímax na saída. Grande parte de seu mandato foi perturbada por rumores de que ele estava cansado e pronto para sair, ou prestes a ser empurrado para fora. Mas os rumores foram tão persistentes que a possibilidade de Tillerson sair do governo foi apelidada de “rexit”.

Tillerson a negava de modo consistente e até preocupado. Em janeiro, disse à CNN que ainda estaria no governo no final de 2018. Tão recentemente quanto a última segunda (12) à noite, enquanto ele voltava de uma viagem de uma semana à África, um assessor disse que ele ficaria no cargo. O avião pousou na Base Andrews da Força Aérea pouco depois das 4h.

Sua saída deixa o secretário da Defesa, James Mattis, e o assessor de Segurança Nacional, H.R. McMaster, juntamente com Jared Kushner, genro do presidente e seu principal assessor, e o chefe de gabinete, John Kelly, como as vozes mais importantes em política externa, e todos se alinham aproximadamente com Tillerson.

Trump disse na terça-feira que com o diretor da CIA, Mike Pompeo, como secretário de Estado ele estará “chegando perto” do gabinete que quer, e que espera implementar as mudanças antes da cúpula com o ditador norte-coreano, Kim Jong-un

O agora ex-secretário surgiu como uma das vozes mais fortes no governo a criticar a Rússia. Há meses ele tem dito que Moscou claramente interferiu na eleição americana em 2016, mesmo enquanto Trump se esquivava de comentários críticos.

Na segunda, ele disse a repórteres que viajavam com ele que estava “muito, muito preocupado” com a crescente agressão da Rússia. 

O secretário pareceu ressentir a pressão para firmar o rumo sobre questões como as práticas comerciais da China, a guerra no Afeganistão e o acordo nuclear com o Irã, segundo essas pessoas.

MUDANÇAS POLÍTICAS

A demissão pode ser um prenúncio de grandes mudanças políticas à frente. Ela ocorre apenas dois meses antes do prazo final para o acordo nuclear com o Irã, quando Trump deverá decidir se quer reimpor as sanções, como disse estar inclinado, efetivamente se retirando do acordo de 2015. A saída de Tillerson também sugere que o presidente já saiu do acordo, enquanto se prepara para as negociações com Kim

Embora Tillerson tenha apoiado a abordagem à guerra no Afeganistão anunciada por Trump na semana passada, ele não sentiu necessidade de enquadrar os objetivos dos EUA nos mesmos termos do comandante-em-chefe. Em 21 de agosto, quando Trump proclamou que “nossas tropas lutarão para vencer”, Tillerson apresentou uma agenda muito mais modesta.

Acho que o presidente foi claro de que todo esse esforço se destinava a pressionar o Taleban, fazer o Taleban compreender que não terão uma vitória no campo de batalha”, disse Tillerson no ano passado. “Podemos não vencer, mas vocês também não.” 

Apesar de Tillerson ter insistido que tinha um bom relacionamento com o presidente, ele e seu círculo estreito de assessores muitas vezes se viram em oposição a alguns assessores do republicano. 

O secretário tinha lançado uma reforma administrativa no Estado que deverá demorar anos, para incômodo de algumas autoridades graduadas da Casa Branca ávidas para distribuir cargos de apadrinhamento político. 

Tillerson, por sua vez, ficou incomodado com as camadas de burocracia e o que ele considerou um caos constante e meses de inépcia no novo governo, segundo pessoas a par de seu pensamento. 

Ele também se queixou a amigos sobre centros de poder concorrentes e uma cultura de apunhalar pelas costas que é muito diferente da cultura corporativa, de cima para baixo, que ele deixou. 

Essa experiência corporativa deu a Tillerson um histórico nas sensibilidades e exigências de uma grande e diversificada força de trabalho, e pareceu informar seu claro desacordo com Trump sobre as manifestações racistas em Charlottesville.

Tillerson, que muitas vezes disse se considerar um escoteiro vitalício, não se intimidava em se afastar de Trump quando seus valores pareciam se chocar. 

Depois que Trump afirmou que “muitos lados” eram culpados pela violência, Tillerson foi perguntado se estava “se distanciando” dos comentários de Trump. E ele respondeu: “Fiz meus próprios comentários sobre nossos valores”.

“Nós não honramos, nem promovemos ou aceitamos o discurso de ódio sob qualquer forma”, disse ele na época.

Washington Post

Tradução de LUIZ ROBERTO MENDES GONÇALVES

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