Aliada da Coreia do Norte, China vira espectadora em conversa entre Trump e Kim

Pequim tinha papel de fiador da ditadura norte-coreana e era pressionada pelos EUA

O presidente dos EUA, Donald Trump, é recebido pelo líder chinês, Xi Jinping, durante reunião no Grande Salão do Povo, em Pequim
O presidente dos EUA, Donald Trump, é recebido pelo líder chinês, Xi Jinping, durante reunião no Grande Salão do Povo, em Pequim - Nicolas Asfouri - 10.mar.2018/AFP
Igor Gielow
São Paulo

Levou 36 horas após o anúncio de que se reuniria com Kim Jong-un, mas Donald Trump telefonou neste sábado (10) ao líder chinês, Xi Jinping, para falar "em profundidade sobre o encontro com Kim Jong-un", conforme relato do presidente dos EUA.

"O presidente Xi me disse que aprova que os Estados Unidos trabalhem para resolver o problema diplomaticamente", afirmou Trump. "A China continua prestativa!"

A demora para procurar Xi faz da afirmação de Trump uma ironia involuntária ou uma tentativa de mitigar uma dúvida que tem perturbado especialistas no tema: a China foi ignorada no processo?

"Eles devem estar se sentido deixados de fora", afirmou à Folha o diretor-executivo do escritório americano do Instituto Internacional para Estudos Estratégicos, Mark Fitzpatrick, que analisa sistemas de defesa de mísseis e acompanhou o recrudescimento na península Coreana.

Pequim assumiu o papel de Estado fiador da ditadura norte-coreana após o fim da União Soviética, em 1991.

Fornece quase todo o petróleo consumido pelo regime e busca barrar retaliações contra Kim no Conselho de Segurança da ONUnão só por também ser uma ditadura comunista, mas porque não quer ver uma península Coreana toda capitalista e com 30 mil soldados americanos em sua fronteira sul.

A Rússia de Vladimir Putin segue o script, a fim de evitar o reforço da posição dos EUA junto a seu vasto e desabitado território do oriente.

Desde que assumiu Trump pressiona a China para forçar Kim a negociar. A resposta veio num avanço impressionante do programa de mísseis norte-coreanos e a explosão de uma bomba de hidrogênio, gerando troca de ameaças e ações dos EUA na área.

"É notável que Kim se encontre com Trump antes de Xi", afirma Fitzpatrick. "E a Coreia do Norte não insistiu num congelamento de exercícios militares entre os EUA e o Sul em troca da suspensão de seus testes de mísseis e bombas, o que era defendido pela China e pela Rússia por motivos próprios."

Como há camadas de segredo ainda a aferir, é possível que haja interferência chinesa no episódio. Na teoria, Pequim ganha com a posição de maior força que Kim obteve ao ser reconhecido como alguém com quem conversar.

Fitzpatrick é moderadamente otimista com o avanço, "que pode dar muito errado" mas é "uma oportunidade a não se desperdiçar".

Ele alinha os problemas conhecidos: o temperamento dos dois líderes, a aparente alienação da diplomacia americana, a incógnita sobre o que Kim está disposto a fazer —assim como Trump.

Até aqui, Pequim fez apenas declarações protocolares de aprovação às conversas, que foram mediadas pela Coreia do Sul, país com grande interesse em não ter sua capital destruída numa hipotética guerra. O Japão, outro parceiro dos EUA na mira norte-coreana, por ora observa.

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