Guerra sem jornalista por perto é pior, diz José Hamilton Ribeiro

Mutilado por mina terrestre ao cobrir Guerra do Vietnã, ele diz que repórteres inibem violência

Com manchas de sangue na cabeça, o jornalista José Hamilton Ribeiro é confortado pelo soldado Henry, que coloca a mão em seu peito, após pisar em mina no Vietnã
José Hamilton Ribeiro é confortado pelo soldado Henry após pisar em mina no Vietnã - K. Shimamoto - 20.mar.1968/Reprodução
Patrícia Campos Mello
São Paulo

Faz 50 anos, a se completarem na terça (20), que o jornalista José Hamilton Ribeiro ouviu uma explosão, olhou para o soldado americano Henry e viu o rosto dele transfigurar-se em horror. Ribeiro acabara de pisar em uma mina quando cobria a Guerra do Vietnã (1954-1975).

O jornalista ainda consegue sentir o gosto amargo que sentiu naquele 20 de março, enquanto olhava para sua perna esquerda, onde só havia tiras de pele ensanguentadas.

"Sentia um gosto ruim, como se tivesse engolido um punhado de terra, pólvora e sangue. Hoje eu sei, era o gosto da guerra", diz Ribeiro no livro "O Gosto da Guerra", cuja versão original é de 1969.

Ribeiro, 82, foi enviado em 1968 pela revista Realidade para cobrir a guerra. Após 19 dias, preparava-se para voltar para Saigon (hoje Ho Chi Mihn) quando seu parceiro de reportagem, o fotógrafo japonês Kei Shimamoto, pediu que ficassem outro dia no front. "Shima" ainda não tinha uma foto para a capa.

Foi durante essa última patrulha com tropas americanas, na Estrada sem Alegria em Quang Tri, norte do Vietnã, que o jornalista perdeu parte da perna esquerda.

Ribeiro reagiu de forma bem-humorada à amputação.

Ao acordar da cirurgia no hospital de campanha, disse: "Este meu pé esquerdo sempre me deu problemas. Quando criança, tive nele uma tuberculose óssea. Não me fará muita falta. Pensando bem, tive sorte. No mesmo local em que fui e pisei a mina, pouco antes dois soldados morreram e um terceiro perdeu ambas as pernas e um braço".

Shimamoto, sentindo-se culpado, ficou ao lado de Ribeiro nos dias passados em hospitais de guerra no Vietnã. De lá, o repórter brasileiro foi para os EUA.

"Guerra sem jornalista por perto é pior, porque os jornalistas têm um efeito antibrutalidade nos conflitos", diz.

Segundo ele, a presença de repórteres na guerra inibe a violência e o abuso de força.

"Fiquei 20 dias no front junto a uma companhia do Exército americano. Fardado como eles, comia junto, fumava em rodinha, dormia perto. Pois não vi nesses 20 dias e 20 noites nenhuma atitude desonrosa ou indigna de oficiais ou soldados."

A poucos quilômetros de onde estava Ribeiro, outra companhia do Exército perpetrou o massacre de mais de 500 pessoas da aldeia de My Lai, o maior da história das Forças Armadas dos EUA.

Mulheres e crianças mortos em uma estrada perto da aldeia de My Lai, no Vietnã, onde mais de 500 pessoas morreram em um ataque dos EUA
Mulheres e crianças mortos em uma estrada perto da aldeia de My Lai, no Vietnã, onde mais de 500 pessoas morreram em um ataque dos EUA - Ronald S. Haeberle - 16.mar.1968/Life Images Collection/Getty Images

"A população, depois de cercada por uma corda, foi fuzilada. Até um bebê teve a cabeçada perfurada por bala. Não havia nenhum jornalista presente", afirma Ribeiro.

O brasileiro voltou ao Vietnã em 1995 para fazer uma reportagem sobre a paz para um programa da TV Globo. "Essa segunda viagem doeu mais que a primeira", conta.

"Fiquei triste de ver o bravo povo vietnamita submetido a um regime policial-militar, uma ditadura medíocre de pseudorrevolucionários fazendo irmãos de escravos. É um país lindo, mas só volto quando houver liberdade."

Ribeiro escreveu 16 livros, recebeu sete prêmios Esso e o Maria Moors Cabot, da Universidade Columbia (EUA), um dos mais importantes do mundo. Repórter especial da TV Globo, é o jornalista mais premiado do Brasil.

Kei Shimamoto conseguiu sua foto —uma imagem de José Hamilton Ribeiro ferido, logo após pisar na mina.

Mas o fotógrafo morreria pouco mais de dois anos depois, no Vietnã. O helicóptero em que estava explodiu, alvo de um foguete. Ele vinha para o Brasil trabalhar na Realidade. Não deu tempo.

Quando voltou ao Vietnã, em 1995, Ribeiro procurou uma comissão que busca vestígios de mortos e desaparecidos na guerra. "Nenhuma notícia do Shima."

Algum tempo depois, conta, encontraram parte do colete de fotógrafo do colega.

"Só então a família no Japão teve alguma coisa para enterrar. Comigo, só ficou a saudade que não morre."

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