Ministro da Comunicação do Vaticano é demitido por manipulação de carta

Dario Viganò omitiu trechos em que Bento 16 se recusava a escrever prólogo para livro de Francisco

O monsenhor Dario Viganò, que renunciou ao cargo de ministro da Comunicação do Vaticano - Gabriel Bouys - 29.abr.2018/AFP
Vaticano | AFP

O "ministro da Comunicação" do Vaticano, monsenhor Dario Viganò, renunciou ao cargo nesta quarta-feira (21), após ser acusado pela imprensa de manipular uma carta de Bento 16 sobre o papa Francisco, um escândalo que debilita a boa relação entre os papas e revela indisposições internas. Informações de bastidores davam conta de que o papa pediu a Viganò que renunciasse.

"Depois de ter refletido e ponderado com atenção os motivos que indica (...), respeito sua decisão e aceito com certa dificuldade sua renúncia", escreveu o papa Francisco a Viganò, em uma mensagem divulgada pelo Vaticano.

A controvérsia explodiu na semana passada, depois da divulgação de uma carta de Bento 16. Nela, ele se recusava a escrever um prólogo para uma série de livretos teológicos e didáticos de Francisco publicados pelo Vaticano por ocasião do quinto aniversário de seu pontificado.

Os primeiros parágrafos da carta, na qual Bento 16 defende a formação teológica do papa argentino, foram divulgados há quatro dias pelo Vaticano por meio de uma foto digital.

No entanto, os meios de comunicação observaram que vários parágrafos haviam sido omitidos, entre eles um em que o pontífice emérito se nega por razões de "saúde e de tempo" a escrever um prólogo.

Poucos dias depois, surgiu outro parágrafo importante, no qual Bento 16 explica que não aceita escrever a apresentação devido ao fato de que, entre os autores dos 11 livretos, figuram teólogos alemães —em particular, Peter Hünermann, que foi um crítico implacável de João Paulo 2º e de Joseph Ratzinger como teólogo e como papa.

MANIPULAÇÃO

A renúncia de Viganò havia sido pedida pelo site conservador Infovaticana, um dos meios de comunicação mais críticos de Francisco, que acusou o diretor de comunicação da Santa Sé de "mentiroso e manipulador".

O departamento de imprensa do Vaticano reconheceu a omissão de alguns parágrafos, que justificou como um gesto de "discrição e não de censura".

Apesar disso, foi gerado um confronto público entre os conservadores que defendem as posições doutrinais de Bento 16 e os simpatizantes de Francisco e suas aberturas.

O religioso, de 55 anos, especialista em cinema, à frente do "ministério" criado por Francisco em 2015 para a modernização midiática da Santa Sé, encarregado de todos os meios de comunicação vaticanos, que emprega cerca de 650 pessoas, gerava resistências e medo.

"A subida e a queda de Viganó foram muito rápidas. Não só pelo erro que cometeu mas também pela guerra interna que foi desencadeada por sua personalidade tão impetuosa e pela guerra e descontentamentos pela reforma da Rádio Vaticano e do sistema de comunicações", comentou à AFP o vaticanista Marco Politi.

Para Greg Erlandson, diretor da agência Catholic News Service, se tratou "de falta de bom senso e não tanto de manipulação".

Na carta enviada ao papa Francisco, Viganó admite que "houve muitas controvérsias" sobre seu trabalho "que, para além das intenções, desestabiliza o complexo e grande trabalho de reforma" dos meios vaticanos.

Por isso, pede ao papa que lhe permita "dar um passo atrás", pois sua presença "poderia atrasar, danificar ou inclusive deter" as reformas na comunicação vaticana.

A Secretaria para a Comunicação ficará a cargo, por enquanto, do argentino Lucio Adrián Ruiz.

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