Descrição de chapéu Rússia

Crise escala e Rússia se recusa a dar explicações sobre ataque a ex-espião

Moscou chama embaixador britânico, nega culpa, exige examinar agente neurotóxico e vê armação

Caixa eletrônico usado pelo ex-espião Serguei Sprikal é isolado e protegido pela polícia em Salisbury, na Inglaterra - Henry Nicholls/Reuters
Igor Gielow
São Paulo e Moscou

A crise diplomática entre Reino Unido e Rússia devido ao envenenamento de um ex-espião russo em solo britânico escalou nesta terça (13). O Kremlin se recusou a responder às explicações exigidas pela premiê Theresa May e chamou o embaixador de Londres em Moscou para pedir esclarecimentos.

O presidente dos EUA, Donald Trump, disse a May ao telefone nesta terça (13) que concordava que a Rússia deveria oferecer "respostas sem ambiguidade" sobre como um agente neurotóxico chegou a ser usado contra um ex-espião no Reino Unido. "Os dois líderes concordaram que é preciso haver consequências para aqueles que usam essas armas horrendas em flagrante violação das normas internacionais", disse a Casa Branca em comunicado.

A confusão pega Trump, sempre na defensiva pela acusação de que Moscou interferiu a seu favor na eleição de 2016, no momento em que ele troca o chefe de sua diplomacia pelo diretor da CIA (serviço secreto americano).

Na segunda-feira, a primeira-ministra britânica, Theresa May, havia dito que é altamente provável que a Rússia seja responsável pelo envenenamento do russo Serguei Skripal e sua filha, Iulia, em Salisbury, na Inglaterra, no dia 4. 

Já o chanceler russo, Serguei Lavrov, disse que as acusações contra a Rússia não fazem sentido e que o país demanda examinar amostras do veneno que Londres diz ter atingido os dois. 

Trata-se do agente neurotóxico Novitchok (novato, em russo), um dos mais letais de sua categoria, que foi desenvolvido pela antiga União Soviética nos anos 1970.

A polícia britânica reconstituiu nesta terça o caminho de Skripal e sua filha, que estão internados em estado grave, para tentar estabelecer riscos de contaminação por onde passaram até serem achados em um banco de praça em Salisbury.

Lavrov disse que o governo britânico tem obrigação de dar acesso à substância para autoridades russas porque ambos os países são signatários da Convenção sobre Armas Químicas. 

"Falando sobre boas maneiras, deve-se lembrar que a era de colonialismo é uma coisa do passado há um bom tempo", afirmou Lavrov, comentando o ultimato de May de que Moscou explique o uso do Novitchok até o fim desta terça-feira. 

Lavrov afirmou ainda que as ameaças britânicas não deixarão de ser respondidas. 

"Quaisquer ameaças de adotar sanções contra a Rússia não vão ser deixadas sem uma resposta", afirmou Lavrov. "Os britânicos têm de entender isso." 

Skripal era um coronel do GRU (serviço secreto militar) e, durante nove anos, entregou nomes de agentes russos ao MI-6 (serviço secreto estrangeiro britânico). Foi pego e condenado a 13 anos de cadeia, mas acabou perdoado pelo governo e enviado numa troca de espiões para o Reino Unido em 2010.

Desde então, diferentemente de outro espião russo envenenado na Inglaterra, Alexander Litvinenko , ele vivia teoricamente afastado de atividades de inteligência.

O caso de Litvinenko, que morreu em 2006 após contaminação pelo isótopo radioativo polônio-210, é lembrado pelos britânicos atualmente no intuito de estabelecer um padrão —embora haja diferenças entre ambos os incidentes, já que o de 2006 envolvia alguém que operava contra o Kremlin (que, claro, nega tê-lo matado).

Na Rússia, o caso Skripal vem sendo tratado com um misto de desdém e preocupação pelas autoridades.

Enquanto o site da Embaixada da Rússia em Londres fez gracinha no Twitter, dizendo que o seu país também era culpado pela neve que atingiu as Ilhas Britânicas semana passada, em Moscou Lavrov tomava suas medidas.

Houve outros reforços. Nos principais canais estatais russos, a palavra de ordem é armação para desestabilizar a certa reeleição de Vladimir Putin como presidente no próximo domingo.

Em redes sociais locais, o questionamento também é feito, dado que parece pouco lógico que a Rússia mandaria matar um alvo tão visível num momento politicamente tão delicado.

Um blogueiro, contudo, levantou a hipótese maquiavélica de ser justamente isso, para facilitar a defesa da área de inteligência da acusação de ter cometido o crime —e, de quebra, para forçar o Reino Unido a impor sanções aos diversos oligarcas russos que fugiram para lá para sair da alça de mira do Kremlin.

O jornal The New York Times mostrou, em reportagem, como esses bilionários seguem sua rotina em Londres, em contato com antigos integrantes de serviços secretos de seu país.

Além disso, nesta terça um influente senador egresso do mundo da antiga KGB, Igor Morozin, afirmou que o Novitchok não só parou de ser produzido com o fim da Guerra Fria em 1991, mas também que seus estoques foram destruídos sob supervisão da Organização pela Proibição das Armas Químicas. 

“A destruição de todos os agentes neurotóxicos, inclusive o Novitchok, foi feita de acordo com os acordos internacionais sob o controle de observadores”, disse ele à agência Sputnik, que é controlada pelo Kremlin.

Por fim, a crise encontrou eco na Síria, onde forças russas apoiam desde 2015 o governo do ditador aliado Bashar al-Assad em sua guerra civil contra rebeldes e o Estado Islâmico.

O Estado-Maior das Forças Armadas da Rússia apontou a existência de uma trama para a realização de um ataque químico na região de Ghouta, base de rebeldes ligados à rede terrorista Al Qaeda, que seria então imputado a Assad.

Como ocorreu em um episódio no ano passado, isso daria margem a um ataque com mísseis dos Estados Unidos contra alvos supostamente ligados a tal ação, provavelmente em distritos de Damasco controlados por Assad. 

“Haverá resposta” caso soldados russos sejam atingidos no hipotético bombardeio, afirmou o general Vasili Gerasimov, adicionando temperatura à cada vez mais intrincada crise internacional.
 

Reuters
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