Secretários de Trump são investigados por gastos excessivos  

Uso de aviões fretados e gastos com família e decoração são alvos de investigações federais

Juliet Eilperin Brady Dennis
Washington | Washington Post

Durante uma reunião de seu gabinete na Casa Branca em outubro passado, o presidente Donald Trump elogiou os homens e mulheres que o cercavam.

“Uma grande responsabilidade foi confiada a cada membro de nosso gabinete”, ele declarou. “Temos aqui um gabinete que há quem diga dizendo que é um dos melhores grupos de pessoas já reunidas ... como um gabinete. E eu concordo.”

Menos de cinco meses mais tarde, Trump preside um gabinete em que vários de seus integrantes estão sendo acusados de viver luxuosamente às custas dos contribuintes —em muitos casos por aproveitarem ao máximo as mordomias de seus altos cargos governamentais.

Pelo menos seis antigos e atuais membros do gabinete de Trump são alvos de investigações federais por várias razões, desde viagens de luxo e gastos com artigos como uma cabine telefônica à prova de som até o papel de seus familiares interferindo em assuntos oficiais. Na quarta-feira (14), documentos que acabam de vir à tona revelaram novos detalhes sobre escândalos de gastos excessivos na Agência de Proteção Ambiental (EPA) e no Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano (HUD).

O presidente americano Donald Trump fala durante um encontro de seu gabinete na Casa Branca
O presidente americano Donald Trump fala durante um encontro de seu gabinete na Casa Branca - Mandel Ngan - 8.mar.2018/AFP

“Se quisermos que o governo seja administrado com eficiência, ele terá que fazer uma faxina e acabar com muito do descontrole que vem acontecendo nessas agências, e, para ser franco, substituir muita gente”, disse Shermichael Singleton, ex-assessor do secretário de Habitação, Ben Carson, que deixou o cargo depois de suas críticas a Trump terem vindo à tona durante o processo de sabatina.

As controvérsias em torno de membros do gabinete de Trump vêm provocando turbulência na administração, levando funcionários da Casa Branca a lançarem um esforço urgente para evitar consequências políticas adicionais e convocar os diretores de agências para reuniões cara a cara para discutir ética.

Revelações sobre o uso repetido de aviões fretados levaram à renúncia forçada do secretário de Saúde e Serviços Humanos, Tom Price, em setembro. Mais recentemente, o secretário de Assuntos dos Veteranos, David Shulkin, continua a enfrentar as consequências da notícia de que os contribuintes americanos pagaram as despesas de sua esposa durante uma viagem de dez dias à Europa no ano passado –e, mais recentemente, que seu chefe de gabinete adulterou um email e deu declarações falsas para tentar justificar os pagamentos.

O administrador da EPA, Scott Pruitt, enfrenta críticas públicas e uma investigação governamental devido às suas próprias viagens frequentes em primeira classe e outros gastos que ele custeou com verbas públicas. O Washington Post divulgou na quarta-feira que uma cabine telefônica à prova de som instalada na sala de trabalho de Pruitt custou US$ 43 mil (R$ 141 mil) –US$ 18 (R$ 59 mil) mil acima do valor previamente informado.

No Departamento do Interior, o secretário Ryan Zinke está tendo suas práticas de viagem questionadas, e no outono passado um fiscal da agência escreveu que, desde que chegou ao cargo, Zinke não tem documentado suas viagens corretamente.

No Departamento de Habitação, registros públicos divulgados esta semana revelam como a esposa de Carson participou do trabalho de reforma e nova decoração do escritório dele no órgão, incluindo a compra de um conjunto de móveis para uma sala de jantar no valor de US$ 31.561 (R$ 103.545,33)

Barry Bennett, que dirigiu a campanha presidencial de Ben Carson e foi assessor informal da campanha de Trump em 2016, escreveu em email que, em muitos casos, os membros do gabinete não têm consciência dos custos reais decorrentes de suas ações. Ele disse que Carson se queixou muitas vezes de hospedar-se em hotéis de luxo durante a campanha, porque os quartos não continham tábua e ferro de passar roupa, que ele estava acostumado a usar para passar suas próprias roupas.

Mesmo assim, disse Bennett, “esses são erros não forçados” aos quais a Casa Branca precisa colocar um ponto final.

“Os funcionários precisam melhorar, e os políticos precisam ficar mais espertos e tentar saber quanto custam as coisas”, ele disse. “Esse pessoal todo é novato em Washington, e suas equipes, também. No nível de poder que eles exercem, tudo é possível.”

Ao mesmo tempo em que novas revelações vêm à tona, em parte graças a vários pedidos de informações feitos no contexto da Lei de Liberdade de Informações, os subordinados de Trump rejeitam acusações de uso inapropriado de dinheiro dos contribuintes.

Numa audiência no Capitólio na terça-feira (13), Zinke defendeu seu uso de aviões fretados em várias viagens, entre elas a Montana, ao Alasca e às Ilhas Virgens americanas. Ele descreveu o questionamento de suas viagens como “insinuações” e disse que seu predecessor no departamento também fez viagens pagas pelos contribuintes.

“Rejeito seus insultos e o fato de que são enganosos”, disse Zinke à senadora democrata Maria Cantwell, de Washington, que lhe perguntou sobre um voo que Zinke fretou ao custo de US$ 12.375 (R$ 40.599,90) de Las Vegas para perto de sua casa, em Montana. Ex-Seal da Marinha, Zinke acrescentou mais tarde: “Já atiraram em mim antes, fico muito à vontade com isso. Faça o que é certo, não tema a homem algum, faça o melhor que você puder.”

Carson usou sua conta pessoal no Twitter para defender a integridade de sua família, também depois de o Washington Post ter informado que advogados do HUD lhe terem avisado que ele corria o risco de infringir regras federais de ética ao deixar que seu filho e nora ajudassem a organizar uma turnê de contato com o público em Baltimore no verão passado.

Aludindo a uma queixa feita ao HUD sobre a reforma de seu escritório, Carson tuitou em 28 de fevereiro: “Desconfiamos, com base em tentativas passadas, que eles vão continuar a investigar e fazer mais acusações mesmo sem provas. Vamos continuar a pedir a orientação de Deus para fazer o que é certo.”

No mês passado, pelo menos quatro membros do gabinete –Carson, Pruitt, Shulkin e Zinke— tiveram reuniões separadas com o secretário de gabinete da Casa Branca, William McGinley, para discutir práticas éticas corretas. A informação é de vários funcionários da administração informados sobre as sessões, que exigiram anonimato para falar das reuniões reservadas.

As reuniões, cuja realização foi divulgada inicialmente pela CNN, incluíram a distribuição de diretrizes de ética e uma discussão sobre como não violar leis federais em viagens para fazer campanha para candidatos políticos.

Os conselhos oferecidos incluíram: “Você mesmo é o melhor guardião de sua reputação. Suas práticas de manter registros devem ser pensadas para comprovar sua inocência na fase das queixas ou para a imprensa”. “Mesmo que algo seja legal, isso não quer dizer que você deva fazê-lo. Sempre pense na impressão que isso vai passar para o público.”

O clima das reuniões “não foi de confronto, não foi adversativo”, disse um funcionário da Casa Branca.

“Estamos no processo de fazer reuniões com todos os membros do gabinete para discussões”, disse o funcionário, “para que eles entendam que o nível de acompanhamento público de suas ações é tão alto que eles precisam não apenas pautar-se pela ética e a lei, mas ter consciência da impressão que passam.”

Em alguns momentos, funcionários da Casa Branca têm deixado claro a pessoas de fora que estão acompanhando de perto a ação dos membros do gabinete. Duas semanas atrás o chefe de gabinete, John Kelly, se reuniu com organizações de militares veteranos para discutir a turbulência atual no Departamento de Assuntos de Veteranos.

Vários representantes lhe disseram que Shulkin está sendo solapado no departamento por uma insurreição de figuras de alto nível nomeadas pela Casa Branca e que discordam de muitas de suas políticas.

Eles esperavam que Kelly se solidarizasse com suas queixas. Mas Kelly disse aos representantes que, para ele, suas observações dão bons argumentos para propor que Shulkin seja demitido por não ter conseguido manter suas tropas sob controle.

Singleton, comentarista político conservador que atua como diretor de comunicações da Howard Stirk Holdings, disse que alguns dos conservadores com quem ele passa tempo reduziram suas expectativas em relação a Trump após a onda recente de escândalos, “porque o presidente prometeu que não faria as coisas do mesmo modo como foram feitas no passado”.

“Existe certa decepção com o governo”, ele disse. “Mas essas pessoas permanecem especialmente leais a Trump.”

Tradução de Clara Allain

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