Venezuela abre túmulos coletivos para receber detentos mortos em incêndio

Parentes ainda buscam informações sobre as causas do acidente que matou 68 pessoas em Valencia

Parentes conduzem o caixão com os restos mortais de Jose Manuel Perez, 28, no cemitério no cemitério de Valencia, onde covas coletivas foram abertas para receber vítimas do incêndio que matou 68 pessoas em uma cadeia
Parentes conduzem o caixão com os restos mortais de Jose Manuel Perez, 28, no cemitério no cemitério de Valencia, onde covas coletivas foram abertas para receber vítimas do incêndio que matou 68 pessoas em uma cadeia - Ariana Cubillos/Associated Press
São Paulo e Valencia (Venezuela) | Associated Press

Eles morreram lado a lado quando as chamas atingiram a carceragem superlotada da sede do comando policial do estado de Carabobo, em Valencia, no noroeste da Venezuela. Agora, muitos deles também estão sendo enterrados lado a lado.

Uma das cenas mais marcantes desta sexta-feira (30) foi a chegada de parentes emocionados ao cemitério central de Valencia, uma cidade industrial. Eles carregavam os caixões de algumas das 68 vítimas (66 homens e 2 mulheres) do incêndio, que seriam colocados em tumbas recém-cavadas.

Dois dias depois do incêndio, iniciado na madrugada de quarta-feira, os funcionários do cemitério afirmaram que estavam preparados para enterrar pelo menos 32 pessoas. A elas foram reservados três túmulos coletivos, com covas profundas, separadas por uma camada de blocos de concreto. Cruzes brancas com nomes das vítimas manuscritos, datas de nascimento e data de morte foram colocadas no túmulo.

"Como vou esquecer de ver meu marido queimado?", indagou Wilca Gonzalez, 36, cujo ente querido foi o primeiro a ser colocado no chão. "Como você pode esquecer isso?"

Os enterros ocorrem no momento em que parentes, defensores dos direitos humanos e líderes internacionais pressionam as autoridades venezuelanas para que forneçam um relato completo do que aconteceu na carceragem e, principalmente, apontem os responsáveis. 

As autoridades têm permanecido em silêncio. Limitaram-se a confirmar o número de mortos no Twitter.  As primeiras notícias sobre a tragédia foram dadas de manhã no incêndio pelas entidades Observatório Venezuelano de Prisões e Janela para a Liberdade, que monitoram o sistema carcerário do país. 

Parentes retiram caixão no cemitério de Valencia, onde três túmulos coletivos foram abertos para receber 32 das 68 vítimas do incêndio em cadeia
Parentes retiram caixão no cemitério de Valencia, onde três túmulos coletivos foram abertos para receber 32 das 68 vítimas do incêndio em cadeia - Ariana Cubillos/Associated Press

Versões dos momentos tensos que levaram ao incêndio devastador circulam entre parentes, com alguns relatos sugerindo que os próprios detentos iniciaram o fogo na tentativa de escapar. Pelo menos um familiar das vítimas afirma que seu parente ligou e afirmou que os guardas estavam derramando gasolina no bloco de celas, antes de as chamas se espalharem.

"Quero saber quem é o responsável", disse Wilca Gonzalez, que reconhece ter poucas esperanças de justiça.

O promotor Tarek William Saab, aliado do ditador Nicolás Maduro, disse que quatro promotores foram designados para investigar a tragédia. Eles prometem uma "investigação completa para imediatamente lançar luz sobre os dolorosos eventos que colocaram dezenas de famílias venezuelanas em luto".

Em nota da Chancelaria, o regime de Nicolás Maduro informou que as famílias dos mortos deverão ser reparadas, mas não diz de que forma isso será feito.

"Foi determinada a outorga de medidas de reparação conforme o estabelecido pela Constituição. Serão ativados os protocolos necessários para a proteção integral a cada uma das famílias afetadas, assim como a assistência às pessoas que ficaram feridas."

CONDIÇÕES PRECÁRIAS

Enquanto a Venezuela luta contra uma crise econômica sem precedentes, com muitos fugindo do país, os prisioneiros enfrentam condições especialmente terríveis, passando fome em celas cada vez mais lotadas. Os presos também frequentemente obtêm armas e drogas com a ajuda de guardas corruptos. Grupos fortemente armados controlam blocos das cadeias.

A ONU afirmou nesta quinta-feira que está "chocada com as mortes horríveis" e pediu que a Venezuela resolva rapidamente a questão, assim como os atrasos judiciais, o uso excessivo de detenções pré julgamento e celas superlotadas que possam levar a tumultos e violência.

O incidente é um dos piores eventos de baixas em massa nas prisões e prisões venezuelanas, mas não é o primeiro. Um incêndio em uma prisão no estado de Zulia, no oeste do país, matou mais de cem presos em 1994. Em 2013, 61 pessoas morreram e mais de cem ficaram feridas, a maioria por ferimentos de bala, durante uma rebelião em Barquisimeto.

Estima-se que 32 mil detentos estão sendo mantidos em delegacias de polícia venezuelanas, que estão lotadas há muito além da capacidade, de acordo com a  Janela para a Liberdade. A carceragem da delegacia em Valencia poderia abrigar 35 detidos, mas no dia do incêndio tinha cerca de 200 detentos.

Apesar das leis venezuelanas que determinam que os detentos sejam mantidos por um período máximo de quatro dias após uma prisão inicial, parentes afirmam que muitos dos prisioneiros de Valencia foram presos por muito mais tempo, esperando para serem transferidos para instalações maiores. Muitos tinham sido presos por suspeita de crimes relativamente pequenos e ainda não tinham ido a um juiz.

A família de  Erickson Zapata, 23, marido de Wilca Gonzalez, disse que ele foi preso injustamente com  outros detidos por suspeita de roubar um celular. De acordo com familiares, ele deveria ter ficado detido por no máximo 10 dias, mas, em vez disso, esteve preso por 10 meses. Ele foi mantido na maior parte do tempo em celas com cerca de 60 pessoas, que ficavam amontoadas e dormindo em redes improvisadas de lençóis.

Gonzalez disse que a última vez que seu marido a chamou de dentro da prisão, ele estava implorando por ajuda. "Eu não posso respirar", ele chorou. "Estou sufocando."

Ela diz ter identificado o corpo pelo seu dedo anelar esquerdo e os dentes da frente unicamente grandes do marido.

Jesus Zapata chora sobre o caixão com os restos mortais de seu filho, Erickson Zapata, 23, uma das 68 vítimas do incêndio na carceragem de Valencia
Jesus Zapata chora sobre o caixão com os restos mortais de seu filho, Erickson Zapata, 23, uma das 68 vítimas do incêndio na carceragem de Valencia - Ariana Cubillos/Associated Press

Nesta sexta-feira, pai da vítima, Jesus Zapata, 42 anos, estava ao lado do caixão de seu filho. Com outros três homens, ele ajudou a baixar o caixão no chão.

Seu soluço silencioso se transformou em choro aberto quando trabalhadores cobriram o caixão com tábuas, preparando o túmulo para o próximo preso ser colocado em cima.

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