Brasília recebe chanceler do Irã a três dias de Temer encontrar Trump

Após acerto de cúpula com Kim Jong-un, país islâmico se tornou principal inimigo dos EUA

Mohammad Javad Zarif aparece de terno sem gravata, sorri e gesticula com as mãos enquanto fala em um evento; à frente da foto, uma bandeira do Irã ao lado de uma bandeira paquistanesa, ambas em imagem desfocada
O ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif, fala durante evento no Paquistão; chanceler chega ao Brasil nesta terça - Aamir Qureshi - 12.mar.18/AFP
Clóvis Rossi

O governo brasileiro hospeda nesta terça-feira (10) em Brasília Mohammad Javad Zarif, o chanceler do Irã, o país que pode ser considerado hoje como o demônio preferido de Donald Trump.

Até recentemente, o ditador norte-coreano, Kim Jong-un, era o mais detestado, mas depois de ter acertado (provisoriamente) um encontro com Trump, é natural considerar o Irã o inimigo público número 1 dos EUA.

Basta reproduzir duas ou três frases de autoridades americanas sobre o Irã para consolidar essa impressão. De Trump: "O Irã é o Estado-líder no patrocínio do terrorismo". Ainda de Trump: O Irã "tem uma sinistra visão do futuro". De James Mattis, secretário de Defesa: "O Irã é a mais importante e duradoura ameaça à estabilidade e à paz no Oriente Médio".

Nada disso dissuadiu o Itamaraty de receber Javad Zarif de braços abertos, para "analisar as relações bilaterais, inclusive em matéria de comércio e investimentos", como diz nota oficial da Chancelaria brasileira.

O Irã também está de braços abertos para o Brasil, conforme o próprio chanceler disse à Folha há dois anos, no encontro anual do Fórum de Davos: "O Irã está aberto para o Brasil. Aberto para a cooperação econômica e a industrial."

A abertura para o Brasil de um regime em geral fechado para o mundo deu-se no último ano do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, 2010. O brasileiro, acompanhado de seu colega turco, Recep Tayyip Erdogan, assinou documento com o presidente de então do Irã que, em tese, afastava a possibilidade de o país dos aiatolás chegar à bomba atômica.

O acordo foi torpedeado pelos EUA, mas, cinco anos depois, as grandes potências (os EUA de Barack Obama inclusive) chegaram a um entendimento não muito diferente com o Irã.

É esse acordo que, agora, Trump ameaça denunciar.

A diplomacia brasileira continua a defender o acordo, que "representa importante vitória da diplomacia sobre o uso da força na solução de controvérsias internacionais e consagra princípios defendidos pelo Brasil desde 2010, quando o país articulou iniciativa conjunta com Turquia e Irã para a solução da questão nuclear iraniana", diz o Itamaraty.

A corrente bilateral de comércio mais que duplicou de 2002 para 2009, chegando a US$ 1,24 bilhão. A visita de Javad Zarif é uma óbvia oportunidade de ampliá-la ainda mais, do que dá prova o fato de que o iraniano estará acompanhado de importante delegação empresarial.

Detalhe nada menor: serão assinados acordos na área da cooperação jurídica internacional.

É mera coincidência, mas a visita do chanceler iraniano acontece três dias antes da Cúpula das Américas, que marcará a primeira visita de Trump à América Latina.

O americano que não tem sido propriamente carinhoso com os países latino-americanos ganha mais motivo para ser cáustico, agora com o Brasil, se houver encontro com Michel Temer em Lima.

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