Controle da mídia é desafio em cúpula entre as Coreias

Seul sinaliza estar disposta a agradar Kim Jong-un e deixar imprensa local à distância

Homens carregam cartaz azul dividido ao meio com as fotos de Moon Jae-in (à esquerda) e Kim Jong-un (à direita), separados pelo mapa da península Coreana; outros aparecem atrás com a bandeira da Coreia unificada
Estudantes carregam pôsteres dos mandatários Moon Jae-in (Coreia do Sul) e Kim Jong-un (Coreia do Norte) em protesto pró-unificação em Seul - Reuters
Seul | Associated Press

O ditador Kim Jong-un está em território desconhecido quando cruzar a zona desmilitarizada separando as duas Coreias nesta sexta-feira (27; quinta à noite no Brasil), possivelmente à pé, e cumprimentar o presidente sul-coreano, Moon Jae-in.

Câmeras carregadas por um dos mais agressivos contingentes de mídia no planeta vão capturar imagens ao vivo de um homem acostumado a controlar cada aspecto de sua persona pública e transmiti-las para os celulares de milhares de pessoas ao redor do mundo —não está claro ainda se serão vistas instantaneamente na Coreia do Norte.

Mas nesse desafio Kim pode ter um aliado na figura do presidente sul-coreano.

Apesar do anúncio de que trechos do encontro serão transmitidos ao vivo, e a possibilidade de uma entrevista coletiva conjunta, Moon parece decidido a deixar o líder norte-coreano à vontade e a manter a agressiva mídia local à distância.

Essa postura pode tornar difícil para Moon —disposto a criar um momento que definirá seu legado e que assentará a cúpula de Kim com o presidente dos EUA, Donald Trump, nas próximas semanas— não adotar os controles de mídia exigidos pelos norte-coreanos.

"O governo sul-coreano está tão ansioso e investido em garantir que a cúpula Kim-Trump aconteça, e que não seja um fracasso, que ceder à coreografia midiática é um preço muito pequeno a pagar quando Kim e Moon se encontrarem", disse Vipin Narang, especialista nas Coreias no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts).

"Caso Kim peça, não vejo Seul resistindo muito."

Ainda que Kim possa não conseguir controlar cada aspecto do que vai acontecer no lado sul-coreano da zona desmilitarizada, Seul parece ansioso em garantir que tudo corra suavemente, até mesmo preparando um banquete que inclui pratos da Suíça, onde o ditador estudou na adolescência.

A informação que o mundo vai receber será provavelmente controlada muito de perto.

Exceto por um grupo de repórteres, cujo acesso deve ser extremamente limitado, jornalistas ficarão confinados em um local bem longe do fortemente armado Panmunjom, o vilarejo na fronteira onde o encontro acontecerá.

"Tenho certeza de que parte das regras para o encontro Norte-Sul incluirá controles rígidos sobre a imprensa sul-coreana", disse Ralph Cossa, especialista em Coreia.

"Além disso, Pyongyang terá controle total de como a reunião será divulgada no Norte para que o risco seja mínimo. Kim Jong-un parece transpirar autoconfiança e pode pensar que está preparado para enfrentar a imprensa sul-coreana, mas penso que ele e seus assessores serão muito cuidadosos em relação a isso."

Antes da cúpula, Moon tem enfrentado reportagens de que seu governo teria pressionado desertores proeminentes e analistas conservadores a ficarem de fora da imprensa que vai acompanhar o encontro, presumidamente porque eles poderiam enraivecer o Norte, que acompanha tais temas de perto. Seul negou veementemente tais acusações.

A chanceler sul-coreana, Kang Kyung-hwa, já sinalizou que, apesar da pressão de ativistas, Seul não levantará no encontro o que a ONU diz ser o padrão Kim de matar a população de fome e cometer abusos.

E, no que críticas viram como uma tentativa de abafar visões discordantes, Moon nesta semana pediu "que nossos círculos políticos parem com a guerra política ao menos durante o encontro".

"É compreensível que Seul queria evitar aborrecer Pyongyang antes da cúpula intercoreana. Mas, para que essa política funcione, o governo precisa abrir seus ouvidos para as vozes da Coreia do Norte", afirmou o diário conservador Korea JoongAng Daily.

"O presidente não poderá impulsionar sua política de reaproximação se não obtiver apoio do povo. Muitos conservadores acreditam que o governo está pegando muito leve com Pyongyang."

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