Formado nos EUA, guatemalteco vê vantagens profissionais no Brasil

Maioria dos imigrantes de países latino-americanos têm ensino superior

Érica Fraga
São Paulo
O guatemalteco Mario Lara, que é formado pela Michigan State University, University of Illinois e Harvard Business School, e foi promovido rapidamente dentro da empresa em que trabalha
O guatemalteco Mario Lara, que é formado pela Michigan State University, University of Illinois e Harvard Business School, e foi promovido rapidamente dentro da empresa em que trabalha - Bruno Santos/Folhapress

Formado em universidades de ponta nos Estados Unidos, o guatemalteco Mario Lara faz parte de um grupo crescente de imigrantes latino-americanos que encontram no Brasil oportunidades profissionais melhores que em seus países natais.

Mais da metade dos colombianos, argentinos ou venezuelanos que vêm ao Brasil, por exemplo, tem ao menos curso superior completo.

Apesar da recessão que abateu a economia brasileira nos últimos anos, o país ainda é visto como o principal motor da região, e concentra as sedes latino-americanas de empresas multinacionais como a agência de publicidade MullenLowe, da qual Lara é  CFO (principal executivo financeiro).


 

50%

Dos 100 alunos de doutorado do IMPA (Instituto de Matemática Pura e Aplicada) são latino-americanos; metade deles fica no Brasil após o curso

“Em pesquisa é fundamental ter renovação, fluxo de cérebros, e essa entrada de latino-americanos é muito bem-vinda
Marcelo Viana, diretor-geral do IMPA


R$ 20 mil

Pode ser o custo final de um processo de revalidação de diploma, incluindo tradução juramentada; lei paulista aprovada neste mês isenta refugiados do pagamento

"A nova lei facilita caminhos para que os imigrantes cheguem ao Brasil de forma regular. O imigrante irregular se torna vulnerável a criminosos, a coiotes, à exploração. E, quanto menos formalizado, menos informação o estado tem para gerenciar o fluxo migratório.
Mas a mobilidade humana ocorre independentemente do planejamento. É preciso ter mecanismos humanitários para que os migrantes sejam recebidos e, ao mesmo tempo, estratégias de atração de talentos. Trabalhadores altamente qualificados hoje têm dificuldade de inserção no mercado de trabalho, de validação de diplomas, de equivalência profissional
Marcelo Torelly, coordenador de Projeto da Organização Internacional para as Migrações – OIM Brasil


O guatemalteco Mario Lara, que é formado pela Michigan State University, tem mestrado pela Universidade de Illinois e MBA pela Harvard Business School, em seu escritório em SP
O guatemalteco Mario Lara, que é formado pela Michigan State University, tem mestrado pela Universidade de Illinois e MBA pela Harvard Business School, em seu escritório em SP - Bruno Santos/Folhapress

MARIO LARA, 40, guatemalteco, CFO para América Latina da  MullenLowe

"Passei os primeiros 18 anos da minha vida na Guatemala. Depois, fui aos Estados Unidos fazer faculdade de contabilidade e morei lá outros 18 anos. Fiz dois mestrados e trabalhei lá.

Nos últimos três anos moro no Brasil. Tem sido uma experiência interessante porque a Guatemala é um país muito diferente dos EUA. A Guatemala é muito coletivista, lá fazemos tudo em família. Os EUA são muito individualistas. O Brasil está no meio dos dois. 

Eu tive o privilégio de viajar por muitas partes do mundo fazendo projetos e, depois de vários anos, reparei que minha paixão era a América Latina. Quero criar minha família e continuar minha carreira aqui. O maior mercado, onde faz sentido fazer isso, é aqui no Brasil. Daqui eu cuido da parte financeira da agência em toda a América Latina. 

Cheguei aqui em plena recessão, com visto de trabalho permanente. No aeroporto em Guarulhos, o atendente me disse: “Nossa, faz tempo que não vejo um desses vistos com alguém entrando, só com gente saindo. O que você está fazendo aqui?’

Pensei muito no que meus colegas e amigos dos EUA e da Guatemala me disseram, que era um momento péssimo para vir para o Brasil, mas eu só enxergava as oportunidades e foi assim. Vi grandes oportunidades de transformar a indústria de publicidade e a empresa onde trabalho. Estamos crescendo bastante e estou feliz.

Lembro que escutei o ditado que “o Brasil não é para amadores”. Eu sempre pensava que, se eu fizesse um bom trabalho no Brasil, poderia fazer um bom trabalho em qualquer lugar do mundo. Na minha empresa, por exemplo, temos processos trabalhistas, processos comerciais, problemas tributários. Nos EUA, é muito mais fácil. Então, enxergo a experiência aqui como uma grande preparação para minha carreira no futuro.

Antes, as empresas achavam que poderiam fazer negócios na América Latina desde Miami. Depois começaram a ver que tinham cidades latinas que ofereciam infraestrutura, talento, como a Cidade do Panamá e São Paulo. 

Para os profissionais latinos, nem sempre há oportunidades em seus países como as que existem aqui. Existem multinacionais com base aqui em São Paulo cuja receita excede o PIB [Produto Interno Bruto] da Guatemala.

Se depender só da minha escolha, gostaria de ficar no Brasil mais um tempo, por causa das oportunidades para mim e minha família. Nem tudo é dinheiro, mas para manter nosso padrão de vida de São Paulo em Nova York, eu teria que ganhar pelo menos o dobro. 

Em relação à Guatemala, o Brasil é um país maravilhoso em termos de segurança. Eu sei que é difícil acreditar. Na Guatemala, você não consegue sair na rua falando num celular em bairro nenhum. Aqui no Brasil, pelo menos onde a gente trabalha, vive, vai para a escola com as filhas, tem bolhas onde você se sente seguro; pelo menos em São Paulo.

Isso me incomoda bastante, especialmente por que sou de um país bastante pobre, eu não venho de uma família rica e quero ter contato com pessoas mais humildes.

Nos EUA, você até consegue, aqui é mais difícil, está muito segregado. Mas eu faço minha parte, comecei a fazer muito voluntariado. Sou mentor de adolescentes em uma escola pública de baixa renda. Convivo muito com as famílias deles, ajudo a procurar emprego, a ir melhor na escola.

Sinto que faço minha parte e isso dá muito significado à minha vida.

Eu sou um otimista com o Brasil. Acho que o país tem tudo para dar certo. 


Atlas inédito detalha, cidade por cidade, a imigração deste século para o estado de São Paulo.

PRINCIPAIS TENDÊNCIAS

1) Novas origens: mais de 260 países foram citados por imigrantes que chegaram ao país entre 2000 e 2015

2) Novas mulherescresce o número de mulheres que deixam sozinhas seus países, para fugir de estupros ou de violência na família

3) Novas qualificaçõesimigrantes com diploma universitário são fatia crescente, principalmente entre latino-americanos

4) Nova interiorizaçãoleis facilitam obtenção de documentos de trabalho, e imigrantes não precisam mais ficar presos a trabalhos clandestinos na capital paulista

5) Nova legislação: Brasil aprova lei que facilita entrada de estrangeiros, mas faltam políticas que permitam integração eficiente e produtiva

6) Novas chances: filhos de imigrantes viram ponte entre seus pais e a língua e os costumes do novo país

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