Movimento Black Lives Matter dá sinais de fissura e de cansaço

Ativistas criticam evangélicos negros, que, para eles, viraram coniventes com racismo

Mulher negra aparece de boca aberta com brinco redondo rosa na orelha com a expressão "Black Lives Matter"; rosto dela aparece até a altura do nariz
Mulher usa brinco com o lema do movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam, em português) durante protesto em Sacramento, na Califórnia - Justin Sullivan - 28.mar.18/Getty Images/AFP
Silas Martí
Montgomery (Alabama)

Quando soube da morte de Greg Gunn, um jovem negro baleado por um policial branco, Karen Jones correu até a cena do crime e fotografou tudo, até os garis que limpavam manchas de sangue frescas no asfalto.

"Não há imagens oficiais do carro da polícia nem da câmera do uniforme do policial. Eles não gravaram nada", conta a líder do Black Lives Matter em Montgomery, capital do sulista Alabama e marco zero do movimento por direitos civis.

Foi nessa cidade que Rosa Parks, uma mulher negra, resistiu e se recusou a ceder seu assento para um branco num ônibus em 1955, detonando um boicote ao transporte público local. Orquestrado por Martin Luther King, o ato se estendeu por mais de um ano e terminou com o fim da segregação racial nos coletivos.

Mas cinco décadas depois da morte de King, Jones, que ainda argumenta que a polícia escondeu provas do que ela vê como o assassinato covarde de um negro há dois anos, diz que a segregação sobrevive de outras formas.

"Este é o lugar onde nasceu a luta por direitos civis, mas o brasão da cidade também diz que é o berço da Confederação", ela observa, lembrando que Montgomery foi a capital dos estados escravagistas que lutaram pela secessão dos EUA na Guerra Civil.

"O racismo continua, e políticos ainda tentam agradar aqueles que querem a volta da segregação. É o sul imundo, onde ser negro pode levar a tentarem te matar."

Jones, como outros jovens do Black Lives Matter, é uma das vozes pela igualdade racial que apontam uma fissura no movimento, defendendo atos independentes da igreja evangélica negra, que teria se tornado conivente com o novo levante racista.

"O prefeito usa os pastores negros, que são a voz de suas comunidades", diz Jones. "E os pastores dançam ao som da música do dólar."

Em seu escritório com vista para monumentos da Confederação no centro de Montgomery, Cromwell Handy, o pastor hoje no comando da Dexter Avenue Memorial, um templo onde King pregou na década de 1950, nega que a igreja seja manipulada. Mas diz que o racismo sobrevive.

"Há sinais de segregação em todo o país, e agora vemos um retrocesso", afirma. "Isso está em casos constantes de homens negros desarmados, baleados e mortos, e também em vestígios da segregação. Há monumentos a generais confederados junto de monumentos à luta pelos direitos civis."

Um desses monumentos à cruzada pela igualdade racial, o museu dedicado à memória das marchas de King e seus seguidores também virou lembrança involuntária da fragilidade dos negros no marco zero da briga.

Quem pretende visitar as galerias com retratos dos líderes do movimento precisa passar por revistas e detectores de metal. O esquema de segurança foi instalado depois que extremistas tentaram incendiar o prédio.

Noutro museu, que relembra a vida de Rosa Parks, a diretora Felicia Bell instalou sua sala num mezanino com vista para a porta principal e observa o movimento.

"O racismo atravessa toda a história americana. É tão presente hoje quanto nos anos 1950 e 1960", diz. "Mas ainda podemos nos inspirar no que fizeram King e Parks. Eles usaram a não violência como tática, e podemos usar essas táticas para combater a supremacia branca."

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