No interior paulista, Bady Bassitt vira pólo de atração de bolivianos

Possibilidade de trabalhar legalmente permite que imigrantes saiam da capital paulista

Marcelo Toledo
Bady Bassitt (SP)
A costureira boliviana Maria Gutierrez, 36, que tem três filhos, todos nascidos no Brasil
A costureira boliviana Maria Gutierrez, 36, que tem três filhos, todos nascidos no Brasil - Marcelo Toledo/Folhapress

A pequena cidade interiorana surgiu inicialmente como local de turismo para o boliviano Juan Carlos Lujan Quiñonez, 29. Natural de La Paz, sempre ouvia seus familiares elogiando Bady Bassitt, município de 16.843 habitantes, vizinho a São José do Rio Preto.

De tanto visitar a cidade, resolveu mudar de país e se aventurar no setor de confecções, atividade que exerce há nove anos e o faz não querer voltar a viver em seu país de origem.

Como Quiñonez, ao menos outros 365 bolivianos vivem em Bady Bassitt, conforme dados do Sincre (Sistema Nacional de Cadastro e Registro de Estrangeiros), da PF (Polícia Federal). Mas, para o boliviano, o total é muito maior.

“Já somos pelo menos mil pessoas, certamente. É um lugar muito bom para morar e onde me casei”, disse ele à Folha, na escola municipal em que seu filho mais velho, John, 9, estuda.

Líder comunitário, ele organiza eventos como jogos de futebol para bolivianos, além de convidar a comunidade para frequentar uma igreja em que eles se reúnem aos finais de semana.

O boliviano Juan Carlos Lujan Quiñonez, 29, que trabalha em confecção, e seu filho John, em Bady Bassit
O boliviano Juan Carlos Lujan Quiñonez, 29, que trabalha em confecção, e seu filho John, em Bady Bassit - Marcelo Toledo/Folhapress

Casado com uma boliviana, tem também uma filha de dois anos nascida no Brasil e hoje, atuando na fabricação de roupas femininas, tem renda mensal entre R$ 4.000 e R$ 5.000.

Mas nem tudo foi perfeito na inserção boliviana no interior paulista. Dos 365 registrados, 117 chegaram em 2012 à cidade, ano em que uma operação da PF flagrou condições de trabalho consideradas desumanas envolvendo os imigrantes em confecções. O município integra um polo do setor em São Paulo.

Sem registro em carteira, eles trabalhavam até 14 horas por dia, também sem direito a férias ou décimo terceiro e recebiam menos que um salário mínimo do país à época.

“A gente percebe que, depois dessa operação, para cada 10 que foram embora, chegaram 20. Antes eles vinham direto de La Paz e eram despejados aqui, mas agora você já percebe que eles têm raízes na cidade”, afirmou o prefeito da Bady Bassitt, Luiz Tobardini (PPS).

Na cidade, é fácil encontrar bolivianos, seja em frente às escolas, nos postos de saúde ou nos supermercados. A reportagem também encontrou uma bandeira boliviana num imóvel utilizado por costureiras estrangeiras.

Eles afirmam que os problemas registrados há seis anos hoje não fazem mais parte do dia a dia e que a união entre os bolivianos reduz a saudade do país natal.

“Nunca tinha trabalhado com confecção. Aprendi aqui, sou terceirizado e feliz com a vida que levo. Ganho mais e consegui manter meus laços culturais”, disse Quiñonez.

Também costureira, Maria Gutierrez, 36, deixou La Paz para tentar a vida em São Paulo. Da capital, mudou-se para Bady Bassitt, onde está há quatro anos. Tem três filhos –de 12, 11 e 7 anos–, todos nascidos no Brasil.

“Há mais comodidade e ganho mais aqui. A gente só quer melhorar de vida”, disse.


“O estrangeiro que deixa seu país tem disposição à mobilidade, a encontrar brechas no trabalho. São Paulo era um burgo de estudantes até 1870. O peso da imigração na construção da cidade de São Paulo e do interior do estado é extraordinário”
Boris Fausto,  historiador, é professor aposentado do departamento de ciência política da USP, autor de "História do Brasil" e “Imigração e Política em São Paulo”, entre outros


“Quando o imigrante não conseguia se regularizar, a concentração nas capitais era muito maior. A documentação permitiu que os imigrantes se integrassem nas cadeias produtivas do interior paulista. A imigração fortalece a economia do interior, mas não existem políticas de acolhimento. Existe investimento de capital nessas cidades, mas despreparo nas políticas de hospitalidade, direitos humanos e combate à xenofobia”
Rosana Baeninger, professora de demografia da Universidade Estadual de Campinas, pesquisadora do Núcleo de Estudos de População e coordenadora do Observatório das Migrações em São Paulo


Atlas inédito detalha, cidade por cidade, a imigração deste século para o estado de São Paulo.

PRINCIPAIS TENDÊNCIAS

1) Novas origens: mais de 260 países foram citados por imigrantes que chegaram ao país entre 2000 e 2015

2) Novas mulherescresce o número de mulheres que deixam sozinhas seus países, para fugir de estupros ou de violência na família

3) Novas qualificaçõesimigrantes com diploma universitário são fatia crescente, principalmente entre latino-americanos

4) Nova interiorizaçãoleis facilitam obtenção de documentos de trabalho, e imigrantes não precisam mais ficar presos a trabalhos clandestinos na capital paulista

5) Nova legislação: Brasil aprova lei que facilita entrada de estrangeiros, mas faltam políticas que permitam integração eficiente e produtiva

6) Novas chances: filhos de imigrantes viram ponte entre seus pais e a língua e os costumes do novo país

Erramos: o texto foi alterado

O título da reportagem referia-se incorretamente a colombianos; o certo é bolivianos. O título foi corrigido.

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