Síria recomeça do zero e cria serviço de refeições árabes

Legislação brasileira facilita concessão de vistos, mas faltam políticas de integração

Patrícia Campos Mello
São Paulo

A síria Rabia Kafouzi, 33, em sua casa, no bairro Sapopemba, em São Paulo
A síria Rabia Kafouzi, 33, em sua casa, no bairro Sapopemba, em São Paulo - Bruno Santos/Folhapress

Sem opção para fugir do conflito na Síria, Rabia Kafozi, 33, veio com o marido e o filho, então com 1 ano de idade, para o Brasil.

Formada em letras, mas sem possibilidade de exercer a profissão em São Paulo, ela abriu um serviço de alimentação e serve refeições árabes.

 

Nova lei brasileira, hoje em fase de regulamentação, facilitou a entrada e a regularização de estrangeiros (veja detalhes mais abaixo). Mas especialistas criticam a falta de políticas que os integrem à sociedade e à economia de maneira eficiente e produtiva.

 

“A política pública brasileira de imigração até agora foi cartorial, de vistos, dar documentos, ou no máximo a primeira acolhida. Toda a dimensão de inserção na sociedade, de preparar as escolas, a visão intercultural ainda não existiu.”
Padre Paolo Parise, da Missão Paz (Pastoral do Imigrante) 

A síria Rabia Kafouzi, 33, em sua casa, em Sapopemba, SP
A síria Rabia Kafouzi, 33, em sua casa, em Sapopemba, SP; formada em literatura, ela criou um serviço de refeições árabes chamado Liwan - Bruno Santos/Folhapress

RABIA KAFOUZI, 33, síria, formada em literatura

"Viemos para o Brasil porque não tínhamos opção. Só o Brasil dava visto para os sírios.

Pensamos em ir para Europa, mas era muito perigoso. Eu não vou para o mar com meu filho, não consigo fazer isso.

Cheguei em São Paulo há três anos e meio, com meu filho, Ryan, que hoje tem 5 anos, e meu marido. Wessam.  

Eu não sabia nada sobre o Brasil, não tinha parentes, nem amigos aqui. Mas quando estávamos na Jordânia, um amigo nos disse: “Agora o Brasil abraça todos os imigrantes da Síria”.  Decidimos vir para cá.

Foi muito fácil tirar o visto, levou só uma semana.

Antes de chegar, só sabia alguma coisa sobre futebol e Carnaval. Eu nem sabia que língua falavam no Brasil, achava que era espanhol ou inglês.

Mas, agora, sei muitas coisas sobre o Brasil. Gosto muito do povo brasileiro, são carinhosos, têm coração grande. Eles têm curiosidade de conhecer outras culturas, gostam de conversar com a gente sobre a nossa vida na Síria.

Nós vivíamos em Damasco. Eu me formei em Literatura Inglesa na faculdade, e trabalhava como gerente administrativa em uma empresa. Meu marido é engenheiro eletrônico.

Na Síria, eu tinha tudo: família, amigos, minha vida feliz, minha casa, meu carro.

Mas a guerra piorou, era muito perigoso continuar morando lá. Nós perdemos muitos parentes na Síria.

Primeiro fomos para o Egito com o resto da minha família. Ficamos lá seis meses, depois fomos para a Jordânia, onde meu filho nasceu.

Depois de um ano, decidimos vir para o Brasil, porque estava muito difícil conseguir trabalho na Jordânia, já tinha muitos sírios lá.

Quando chegamos, ficamos quatro meses morando em hotéis, porque não conseguíamos alugar uma casa. Precisávamos arrumar os documentos, achar um fiador ou ter carteira de trabalho. 

O começo foi muito difícil, a gente não conseguia resolver as coisas. A língua foi o pior. Eu comecei a fazer aulas de português, mas aí a gente se mudou, a escola ficou longe, e eu parei. Agora eu aprendo conversando com amigos, e usando aplicativos. 

Meu marido trabalha em uma escola de inglês.

Eu tentei arrumar emprego na minha área, mas não consegui. Eu precisava de mais tempo para cuidar do meu filho, meu foco na vida é Ryan. Ele me deu fé para continuar, ele é um presente na minha vida.

Dois dias por semana, nós falamos inglês em casa. Ele fala português na escola e quando a gente sai. E todos os dias falamos árabe, para ele não se esquecer. Eu estou ensinando Ryan a escrever em árabe. 

Demorou muito tempo para eu me adaptar aqui. 

Você não imagina como é difícil perder tudo e começar a vida de novo, do zero.

Mas não penso em voltar para a Síria, pelo menos não agora. 

Tenho meu próprio negócio. Faço comida síria, atendo pelo WhatsApp. Charuto de uva, esfiha, doces.

Minha empresa se chama Liwan. Sabe o que significa essa palavra? Em Damasco, as casas antigas têm um salão grande, onde toda família se reúne na hora da refeição, para conversar e comer.  É o liwan.

Sinto muita falta de juntar minha família e meus amigos para comermos todos juntos.


"O tripé do acolhimento é a documentação, a língua e o emprego. Com essas três coisas, o imigrante segue sozinho. Na política brasileira, não há uma linha sobre língua e emprego.
Sem política, não há ações nem recursos definidos, e a questão migratória vira uma crise.
Floriano Pesaro, que até esta quinta (5) era secretário de Desenvolvimento Social do estado de São Paulo; o governo instituiu parcerias para o ensino de português e a contratação de imigrantes


O que diz a nova lei e a regulamentação

  •  Protege os apátridas
  •  Cria visto humanitário —mas…. regulamentação dificultou definição das condições necessárias, segundo especialistas
  •  Anistiava os irregulares  —mas… Temer vetou a anistia
  •  Impede prisão por razões migratórias —mas… regulamentação fala em prisão
  • Regulamentação dificulta visto de trabalho
  • Regulamentação dificulta reunião familiar
  • Regulamentação permite expulsão do imigrante sem fazer ressalva para refugiados

Há 5 órgãos diferentes cuidados de imigração:

Polícia Federal
Departamento de Imigração do Ministério da Justiça
Ministério das Relações Exteriores
Ministério do Trabalho
Comitê Nacional para Refugiados (do ministério da justiça)

Para a Organização Internacional para as Migrações (OIM) , da ONU seria preciso  criar uma autoridade migratória civil centralizada, dar autoridade de coordenação para um dos atores já existentes ou estabelecer um fórum de coordenação para a atuação dos diferentes atores, como ocorre com combate a corrupção e lavagem de dinheiro

Procurado, o autor da nova Lei de Migração e  o ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes, não quis comentar as críticas,


Atlas inédito detalha, cidade por cidade, a imigração deste século para o estado de São Paulo.

PRINCIPAIS TENDÊNCIAS

1) Novas origens: mais de 260 países foram citados por imigrantes que chegaram ao país entre 2000 e 2015

2) Novas mulherescresce o número de mulheres que deixam sozinhas seus países, para fugir de estupros ou de violência na família

3) Novas qualificaçõesimigrantes com diploma universitário são fatia crescente, principalmente entre latino-americanos

4) Nova interiorizaçãoleis facilitam obtenção de documentos de trabalho, e imigrantes não precisam mais ficar presos a trabalhos clandestinos na capital paulista

5) Nova legislação: Brasil aprova lei que facilita entrada de estrangeiros, mas faltam políticas que permitam integração eficiente e produtiva

6) Novas chances: filhos de imigrantes viram ponte entre seus pais e a língua e os costumes do novo país

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