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Trump manda recado a Putin, mas tem o cuidado de evitar perdas russas

Dado central agora é comportamento do Kremlin, que prometera retaliar ofensivas

Igor Gielow
São Paulo

Após uma semana de idas e vindas, Donald Trump buscou uma solução intermediária ao atacar alvos da ditadura de Bashar al-Assad na Síria.

As informações iniciais eram limitadas para estabelecer o real alcance do bombardeio e a provável reação que interessa ao mundo —a da Rússia, potência que, com o Irã, serve de fiadora do regime de Assad.

 

Mas quando o Pentágono confirma que usou as linhas de comunicação usuais com os russos antes do ataque e o secretário de Defesa, Jim Mattis, afirma que foram evitados danos “civis e estrangeiros”, a senha está dada.

Houve preocupação em evitar perdas russas. Recapitulando: o Kremlin avisava havia um mês que um ataque químico seria arquitetado por rebeldes anti-Assad para justificar uma retaliação dos EUA.

Míssil lançado sobre Damasco pela aliança entre EUA, França e Reino Unido, na madrugada de sábado (14)
Míssil lançado sobre Damasco pela aliança entre EUA, França e Reino Unido, na madrugada de sábado (14) - Hassan Ammar/Associated Press

Verdade ou mentira, tudo aconteceu. O dado central agora é o comportamento de Vladimir Putin.

Seu governo havia dito que retaliaria quaisquer ataques que ameaçassem algum de seus homens baseados desde 2015 na Síria —entre 3.000 e 5.000 soldados centrados no aeródromo de Hmeimim, em Latakia, a base do grupo de Assad.

A Rússia ordenou que sua frota de 15 navios baseados na Síria fosse ao mar para fugir de uma posição de alvo; ao anunciar um exercício de tiro real na região, ameaçou o Ocidente com eventuais contra-ataques.

Ao mesmo tempo, ao utilizar aviões americanos, britânicos e franceses, além de mísseis de cruzeiro disparados de barcos dos EUA no Mediterrâneo oriental, a ofensiva supera o ataque retaliatório determinado por Trump no ano passado.

Naquela ocasião, os EUA buscaram punir a base de onde teriam decolado os aviões usados num outro suposto ataque químico de Assad.

O resultado foi um desperdício de 59 mísseis de cruzeiro Tomahawak (US$ 1,87 milhão cada, ou R$ 6,3 milhões, em sua mais recente versão), já que nada mudou do ponto de vista tático ou estratégico.

PASSO MAIOR

Agora, caso seja verdade a variedade de alvos ligados às supostas capacidades químicas de Assad, Trump e seus aliados deram um passo maior e com riscos inerentes a ele.

O relato de explosões em Damasco merece atenção: se teve algo a ver com infraestrutura política do regime, o teste para Moscou será ainda maior.

Até aqui, aparentemente nenhum dos avançados sistemas antiaéreos russos (S-300 e S-400, versões terrestres ou navais) foi usado contra a ofensiva.

Já as defesas de Assad, que estavam bastante prejudicadas por uma série recente de bombardeios israelenses, foram usadas ao menos na região da capital com eficiência ainda a definir —Damasco falou em 13 Tomahawks derrubados.

Ao fim, Trump buscou dar um recado mais duro a Putin e seus aliados do Oriente Médio.

Do ponto de vista militar, pode ter sido apenas isso, já que as supostas capacidades químicas do regime de Assad são irrelevantes para seu objetivo praticamente conquistado de vencer a guerra civil que arrasa o país desde 2011.

Politicamente, contudo, a ação diz a russos que talvez seja hora de negociar uma saída de Assad do poder. Se será ouvida e se não haverá escaladas imprevisíveis, é algo ainda a ser respondido.

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