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Sangue de porco e maquiagem ajudaram a forjar assassinato, diz jornalista

Governo ucraniano e repórter dissidente defendem operação

Foto do jornalista Arkadi Babtchenko é pendurada por ativistas na cerca da Embaixada da Rússia em Kiev, na Ucrânia - Serguei Supinsky/AFP
Bruxelas e Kiev (Ucrânia) | Reuters e AFP

Arkadi Babtchenko, jornalista russo que encenou a própria morte para escapar do suposto esquema das autoridades de seu país para assassiná-lo, disse nesta quinta-feira (31) que foi convencido pelos serviços de inteligência da Ucrânia a fazer a armação.

Correspondente de guerra e crítico do líder russo, Vladimir Putin, Babtchenko começou a farsa na noite de terça (29) ao aparecer deitado com marcas de sangue na escadaria de sua casa em Kiev.

Antes, afirmou nesta quinta, ele recebeu um maquiador contratado pelos agentes de inteligência que montou os buracos de bala e colocou sangue de porco na pele e na boca. Para completar a fantasia, usou uma camiseta com marcas de tiros provocadas.

Na sequência, começou a encenação para a imprensa e o público. Sua mulher, que sabia da operação, chamou os paramédicos, também a par da farsa, e as forças especiais da polícia. “Dou meus parabéns, verificaram de imediato os quartos, a segurança das escadas, como em um filme. Eles não sabiam da operação.”

Segundo o jornalista, ele chegou a ser enviado a um hospital, que determinou sua suposta morte, e transferido para um necrotério. O processo todo durou quatro horas.

“Aí ressuscitei”, disse Babtchenko, que ainda ficou horas no local antes de ser levado a um local seguro.

Após dormir por algumas horas, reapareceu na tarde de quarta-feira (30), na entrevista coletiva que surpreendeu seus colegas e levou a críticas a ele e ao governo ucraniano.

Nesta quinta, ele disse ter sido avisado pelos serviços de inteligência há dois meses que era perseguido por matadores a mando das autoridades russas. No mês passado, os espiões sugeriram a armação para evitar a morte de verdade. 

O jornalista afirmou ter ficado desconfiado com a proposta. “Minha primeira reação foi: vão pro inferno, vou arrumar minhas coisas e desaparecer no Polo Norte. Mas depois eu percebi e pensei: onde poderia me esconder? Skripal também tentou se esconder.”

Ele fazia alusão ao ex-espião russo Serguei Skripal, envenenado na Inglaterra em março junto com a filha. O Reino Unido e outros países ocidentais acusaram a Rússia de estar envolvida na ação, que afirmam ter sido premeditada.

Babtchenko rebateu as críticas. “A todo mundo que disse que isso mina a confiança nos jornalistas: o que vocês fariam no meu lugar?”

A condenação ao episódio continuou nesta quinta. A Federação Internacional dos Jornalistas qualificou nesta quinta-feira (31) de “intolerável” e “inadmissível” a encenação. 

“Ao espalhar falsamente a notícia de seu assassinato, as autoridades ucranianas prejudicaram gravemente a credibilidade da informação e seu estilo de comunicação corre o risco de ser visto como uma operação de propaganda”, afirmou Philippe Leruth, presidente da FIJ.

O incidente já havia sido criticado pela ONG Repórteres sem Fronteiras e por Mark Urban. O ministro do Interior ucraniano, Arsen Avakov, defendeu o governo. “O que vocês queriam? Que Babtchenko estivesse morto?”

Nesta quinta, a Justiça ucraniana concedeu o pedido da Promotoria de prisão preventiva por dois meses de Boris Herman, sócio de uma fabricante de armamentos e que, segundo o governo, é o suposto contratador do homem que mataria o jornalista.

Na versão dos promotores, Herman confessou ter sido chamado pelo Kremlin para o serviço e ter pago US$ 15 mil (R$ 55 mil) a outra pessoa para matar o jornalista com a intenção de desestabilizar a relação de Moscou com Kiev.

No tribunal, ele negou ter a intenção de matar Babtchenko e disse que atuou a favor dos interesses da Ucrânia. A defesa vai recorrer da prisão.

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