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Deutsche Welle

Um ano de Macron: entre salvador e vilão

Presidente leva adiante suas reformas, mas não se sabe por quanto tempo manterá o apoio popular

Barbara Wesel
DW

Quando Emmanuel Macron festejou sua vitória em frente ao Museu do Louvre, em 7 de maio de 2017, ele e seus apoiadores apreciaram por um instante a leveza de um momento sem precedentes. Era quase inacreditável que ele tivesse conseguido estilhaçar o sistema político-partidário francês – com a promessa de, sobre os seus escombros, construir uma França moderna.

Em seguida, Macron montou um gabinete com ministros conservadores, socialistas e sem partido, numa mistura de políticos iniciantes e experientes, todos fiéis à visão e liderança do jovem presidente de 39 anos. Trata-se de um sistema feito sob medida para Macron, no qual ele mantém as rédeas firmes em sua mãos, com a ajuda de algumas poucas pessoas de confiança.

O presidente francês Emmanuel Macron durante discurso em Paris
O presidente francês Emmanuel Macron durante discurso em Paris; ele foi eleito em maio de 2017 - Charles Platiau - 23.nov.2017/Reuters

Em tempos em que políticos antieuropeus ganham eleições na Europa, como no recente caso de Viktor Orbán, Macron venceu com uma clara mensagem pró-europeia e até mesmo ousou falar em mais integração. No fim de 2017, ele expôs suas ideias na Sorbonne, em Paris, quando propôs reformas audaciosas para a União Europeia, prometeu um futuro mais solidário e o reavivamento da estreita parceria com a Alemanha.

Se as reformas econômicas do presidente costumam ser criticadas como "de direita", quando o assunto é a União Europeia ele costuma apresentar seu lado "de esquerda". Mas o caminho desde a visão até a implementação parece ser mais longo e áspero do que o esperado. As longas negociações para uma formação de governo na Alemanha e a coalizão resultante, com um perfil pouco europeu, murcharam os sonhos do presidente francês.

Relação com a Alemanha

Um dos pontos fortes de Macron parece ser sua capacidade de conquistar líderes que já estão há muito mais tempo do que ele no cenário internacional. Ele lançou o seu charme sobre a chanceler federal alemã, Angela Merkel, e os resultados iniciais pareciam promissores. O presidente investiu energia e pessoal para colocar o famoso motor franco-alemão novamente em marcha. No ano passado, os relatos na imprensa sobre a revigorada parceria entre as duas maiores economias da União Europeia eram predominantemente positivos.

Nesse meio tempo, porém, a lua de mel parece já ter acabado. Merkel começou seu quarto mandato enfraquecida, e o novo ministro alemão das Finanças, que é social-democrata, bloqueia as reformas da zona do euro tanto quanto o seu antecessor, que era conservador. O entusiasmo inicial do francês foi arrefecido pela cautela e hesitação alemãs. Merkel está ciente de que é responsável pelo sucesso futuro de Macron, mas continua incerto se ela tem o campo de ação necessário para ajudá-lo, dentro do próprio governo.

Um pacote de reformas

Macron está determinado a conduzir os franceses ao século 21, mesmo que eles esperneiem e se debatam. A formulação dos seus planos pode até ser diplomática, mas o objetivo é radical. E o presidente sabe que deve implementar logo suas reformas, antes que a oposição se forme e se fortaleça.

Assim, ele já implementou alívios fiscais para empresas e pessoas de alta renda, além de uma reforma trabalhista parcial, com um abrandamento da rígida estabilidade no emprego e novas regras para negociações salariais. Os críticos afirmam que as propostas são ações típicas de um neoliberal. Já os defensores as consideram uma flexibilização necessária para a asfixiada economia francesa. E a polêmica se repete nas reformas da educação e do Judiciário. E tudo a toque de caixa.

Os primeiros resultados positivos já apareceram: pela primeira vez em uma década, o endividamento ficou abaixo do teto de 3% definido pela União Europeia. Depois de uma longa estagnação, a economia teve um crescimento de quase 2%, e a perspectiva é positiva, assim como o ambiente de negócios. Porém, o desemprego recuou apenas levemente e continua em torno dos 9%. Macron sabe que, neste ponto, são necessárias reformas mais amplas e profundas e também mudanças de mentalidade. O sucesso no mercado de trabalho será, no fim das contas, o critério pelo qual ele será medido no fim de seu mandato.

O presidente enfrentou até mesmo o temido sindicato ferroviário CGT. Ele quer retirar privilégios dos funcionários da empresa estatal, que é deficitária, e prepará-la para enfrentar concorrência. Diante dos planos do presidente, os sindicalistas convocaram à resistência, e uma onda de greves e protestos se espalhou pela França. Porém, as manifestações não conseguiram paralisar todos os serviços e, depois de algumas semanas, elas perderam força. Uma maioria apertada dos franceses continua do lado de Macron quando o assunto é reformas, e, ao menos até agora, ele foi poupado da temida voz das ruas.

Circo internacional

Na política externa, os franceses estão saboreando a aura de estadista do seu jovem presidente. Em pouco meses, ele conduziu o país de volta para o cenário internacional, depois de anos de ostracismo e de um sentimento de segunda classe. Macron luta com afinco pela influência da França nas antigas colônias na África, ele se engaja na guerra civil na Síria, não descarta ações militares nem iniciativas de paz, enfrenta o presidente russo, Vladimir Putin, e está na primeira fileira em todas as crises internacionais.

Viagens e visitas oficiais são encenadas por ele com toda a pompa. E por isso os franceses também lhe perdoam seu "bromance" com o por eles odiado presidente americano, Donald Trump. Macron considera que é melhor falar com Trump do que ignorá-lo, e sua inteligência o capacita a sair ileso de um confronto com o macho alfa americano, como a recente viagem do francês a Washington e seu discurso perante o Congresso comprovaram. Sua política externa serve exclusivamente à imagem da França, com o que ele acaricia o ego nacional.

O mais difícil ainda está por vir

Macron sabe que o mais difícil, para ele e seus apoiadores, ainda está por vir. Este ano ele ainda tem diante de si a reforma do sistema de aposentadoria, hoje insustentável, e que pode gerar mais protestos. E também as reduções de cargos no serviço público e novos cortes nos gastos públicos podem gerar forte oposição. Tudo o que o presidente ainda quiser implementar nos próximos anos carrega consigo um potencial de risco por causa do ceticismo com que muitos franceses veem o curso de modernização adotado por ele. Além de trabalho e um programa eficaz, Macron também vai precisar de muita sorte.

Já os concorrentes políticos do presidente ainda estão tentando entender a derrota nas urnas, mesmo um ano depois. O ponto fraco de Macron pode vir a ser o seu próprio movimento En Marche, que o ajudou a vencer a eleição, mas que ainda não conseguiu se transformar num partido político estável. E o presidente ainda precisa conquistar a confiança dos franceses de fora do setor liberal-burguês. Uma aprovação de 50% entre os eleitores, um ano depois da eleição, não é nada ruim. Mas mesmo no boletim de um aluno exemplar como Macron consta que ainda dá para melhorar.

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