Descrição de chapéu França

Um ano depois, Macron faz reformas e ainda é popular, diz cientista político

Para Pascal Perrineau, presidente francês quebrou a esquerda e a direita do país

Guilherme Magalhães
São Paulo

O jovem político que implodiu a paisagem política da França em 2017 não parou por ali.

Um ano após tomar posse, o presidente Emmanuel Macron, 40, “está conseguindo vencer o desafio de ser simultaneamente um reformador e popular”, diz Pascal Perrineau, 67, cientista político do Sciences Po de Paris.

Macron discursa para estudantes universitários em visita a Aachen, na Alemanha
Macron discursa para estudantes universitários em visita a Aachen, na Alemanha - Ludovic Marin - 10.mai.2018/AFP

Aprovado por 66% dos franceses quando assumiu a Presidência, Macron experimentou dias difíceis no fim do ano passado, chegando a 45%. Hoje, sua popularidade voltou à casa dos 50%, bem acima da de seus dois antecessores no mesmo período do mandato.

Perrineau, que acompanha eleições na França desde 1974, afirma que, após “quebrar a esquerda” no pleito de 2017, quando o então governista Partido Socialista obteve 6% dos votos, Macron agora “quebra a direita” com suas reformas, notadamente a flexibilização das leis trabalhistas, mudanças na aposentadoria e nos subsídios ao setor ferroviário.

Em São Paulo para uma palestra na Fundação FHC na quinta-feira (10), Perrineau conversou com a Folha.

 

Um ano depois, qual o balanço do governo Macron?

Por enquanto, e diferentemente dos dois antecessores, Nicolas Sarkozy e François Hollande, o saldo é positivo. O presidente perdeu muito menos em popularidade em um ano e, desde que colocou em prática a série de reformas, em setembro, sua popularidade se estabilizou e até melhorou um pouco. Ele está conseguindo vencer o desafio de ser simultaneamente um presidente reformador e popular. O que não quer dizer que não haja contestação social, porque a França não estava acostumada com tantas reformas em tão pouco tempo.

Macron ainda é uma força de centro?

A principal força de Macron no início foi a de ter ocupado o centro que existia entre, de um lado, uma esquerda enfraquecida, e de outro, uma direita dividida. Num primeiro momento, ele quebrou o eleitorado da esquerda. E aos eleitores de centro ele conseguiu acrescentar os eleitores da esquerda moderada. Desde as reformas ele está quebrando o eleitorado da direita e acrescentando ao seu espectro os eleitores da direita moderada. Então, como ele diz, ele realmente é de direita e de esquerda.

A polarização esquerda/direita ainda se aplica ao mundo de hoje?

Essa divisão muito antiga que surgiu na Revolução Francesa está em crise profunda. Claro que muitos franceses continuam a se sentir de direita ou esquerda, mas esses mesmos franceses compreendem que ela não é mais eficaz para compreender as grandes questões do mundo hoje: globalização, construção europeia, ambiente, questões culturais como bioética e fim da vida. Para essas questões, a sociedade francesa compreende que a clivagem não é mais esquerda/direita, mas uma entre, como eu chamo, sociedade aberta e recentralização nacional. Essa clivagem foi observada na eleição, sendo Marine Le Pen a candidata da recentralização nacional e Macron o da sociedade aberta.

Macron será bem-sucedido em seu desejo de ‘refundar a Europa’?

A vontade de Macron é de retransformar a Europa em sonho, em um projeto. Ele considera que se o euroceticismo continua a crescer, é reflexo do fato de a Europa ter se transformado numa questão puramente técnica. Mas para refundar a Europa ele precisa da Alemanha, que tem um modelo de liderança menos inovador e mais cansado que o francês. Portanto a ambição de ter essa Europa como o projeto de Macron encontra dificuldades.

Como o sr. explica a surpreendente química entre Macron e Trump?

No plano diplomático Macron também é um homem do “ao mesmo tempo”. Ele sabe que os EUA são uma grande potência e que sempre teve relações amigáveis e difíceis com a França. Então ele envia sinais de reconhecimento por meio de Trump aos EUA. Mas ao mesmo tempo mantém um discurso severo com relação às posições protecionistas de Trump. Ele faz o mesmo com Vladimir Putin. Ele o recebe no Palácio de Versalhes, mas diz que é escandalosa a atitude da Rússia em matéria de fake news.

O sr. faz paralelos entre o cenário político francês e o brasileiro, em especial a desilusão com os políticos e a indefinição que marca a eleição presidencial. Quem seria o Macron brasileiro?

São os brasileiros que devem responder a essa pergunta. É preciso, entretanto, que seja uma pessoa relativamente jovem, que não pertença ao velho sistema de alianças partidárias, acima de qualquer suspeita de corrupção e que carregue em si uma inovação política e ideológica. Se existe no Brasil uma pessoa com essas quatro qualidades, ela deve ter chance.

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