Vítimas de adoções forçadas buscam respostas na Alemanha

Parlamento fará audiência pública sobre lista de petições entregue por associação

Vestida de preto, mãe está com livro na mão direita; as crianças estão de casaco, sendo Katrin sentada e o irmão em pé; imagem em preto e branco
Katrin Behr (esq), com sua mãe (centro) e o irmão, pouco antes da separação da família em 1972 em Leipzig (então Alemanha Oriental - Arquivo pessoal
Carolina Vila-Nova
Berlim

Katrin Behr tinha quatro anos de idade quando homens levaram sua mãe de casa. Eles vestiam roupas civis, e ninguém podia dizer ao certo se eram policiais ou agentes da Stasi, a polícia secreta da Alemanha Oriental (RDA).

"Dava para saber pelo tom das vozes que algo muito ruim estava acontecendo, mas, como criança, não tinha real consciência do que estava errado", contou à Folha.

Com a mãe presa, ela e o irmão foram adotados por famílias diferentes. "Minha família biológica simplesmente não era um assunto. Lembro-me de que, quando tinha 11 anos, perguntei sobre o que tinha acontecido com eles. Mas era um tema muito incômodo e, depois disso, nunca mais perguntei."

Foram 19 anos até Behr reencontrar a mãe e o irmão, em 1991 —dois anos após a queda do Muro de Berlim e um após a reunificação alemã.

"De repente eu não era mais criança, e minha mãe estava severamente doente. Foi muito louco, porque a criança dentro de mim gritava 'minha mãe, minha mãe', mas a Katrin adulta dizia 'oh Deus, essa mulher é uma completa estranha'. Foi muito caloroso, mas também muito estranho."

A história de Katrin Behr, 50, ilustra uma faceta pouco conhecida do regime comunista da antiga Alemanha Oriental: as adoções forçadas ou ilegais.

Dimensionar o fenômeno é arriscado: as estimativas variam de 1.000 famílias a 75 mil adoções. Este último número é da Associação para Crianças Roubadas na RDA.

"Nossa avaliação é que entre 10% e 15% [das adoções] ocorreram em casos em que a prioridade não era o bem-estar da criança, e sim o reforço da imagem de uma sociedade socialista", explicou o porta-voz da associação, Frank Schumman.

Em fevereiro, um estudo oficial preliminar definiu assim as adoções forçadas por motivos políticos: "A medida estatal de remover uma ou mais crianças de uma família e sua reintegração a uma outra família contra o desejo explícito dos pais biológicos, como a punição de um comportamento dos pais que não colocava em perigo o bem-estar da criança em questão e que era o motivo central dessa medida". O estudo recomendou a ampliação da investigação.

Os relatos —de pais que foram presos e perderam os filhos de vista, de mães informadas na maternidade de que seus filhos haviam morrido— lembram, em escala menor, os coletados durante a ditadura da Argentina (1976-1983). Lá, as Avós da Praça de Maio ajudaram a restituir até agora a identidade de 125 descendentes de desaparecidos políticos, adotados ilegalmente.

A associação de Schumann coletou 162 casos de mortes não explicadas ou misteriosas de bebês (supostamente dados em adoção).

Sua mulher, a quem conheceu em 2001, é uma das vítimas. A filha dela tinha 3 anos quando foi declarada morta após um acidente. "No entanto, no funeral, viram que o caixão estava vazio", contou.

O grupo sustenta a possibilidade de que muitas crianças adotadas por famílias ligadas ao regime tenham sido levadas para a América do Sul no período imediatamente após a queda do muro e hoje vivam sob falsas identidades.

Schumann lembra que muitos nazistas —como Josef Mengele e Adolf Eichmann— usaram a chamada "Linha dos Ratos" para se refugiar na América do Sul sob nova identidade. Ex-membros da RDA usaram rotas de fuga semelhantes, especialmente para o Chile.

O historiador Thomas Lindenberger, da Universidade Técnica de Dresden, rejeita a noção de que a maioria das adoções forçadas da RDA tenha sido ilegal ou política.

"A maioria das medidas de serviço social ao lidarem com crianças vulneráveis na Alemanha Oriental era necessária e justificada pelos padrões ocidentais", disse ele.

Os "raros" casos de adoções forçadas com motivação política aconteciam, segundo Lindenberger, quando "os pais eram penalizados por causa de sua atitude negativa em relação ao Estado [comunista], manifestada, por exemplo, em tentativas de fuga".

"Eram pais com baixo capital social, vivendo nas margens da sociedade, estigmatizados por seu estilo de vida 'não socialista', frequentemente chamados de 'associais'", explicou.

Para o historiador, tampouco se tratava de uma política de Estado coordenada ou sistemática de repressão.

"Mas assumimos que existiam estruturas dentro da fábrica das agências estatais da RDA (incluindo o sistema legal, a administração da infância, a espionagem pelo serviço secreto e os serviços médicos) que tornavam possível manipular os procedimentos de adoção em casos individuais de modo a sancionar comportamentos e atitudes politicamente negativos."

Retrato de Katrin Behr
A alemã Katrin Behr, 50, foi separada da mãe quando tinha 4 anos de idade. Crédito: Katrin Behr / Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal

Parece ser o caso de Behr. Ela conta que a mãe sempre quis "ir para o Ocidente", onde moravam as irmãs.

"Ela não era politicamente ativa nem nada, só uma jovem que dizia que estava aborrecida e que queria ir embora", diz Behr. "Ela foi interrogada diversas vezes pela Stasi. Em algum momento, decidiram prendê-la e nos separar."

Em 2007, Behr obteve os arquivos sobre sua adoção e a prisão da mãe.

"Minha mãe escrevia às instituições prisionais, questionava, fazia barulho, queria reclamar para Erich Honecker", conta, em referência ao líder da RDA no período de 1971 a 1989.

"Ela achava que havia sido injustiçada. E o fato é que pensavam que, pelos padrões da Alemanha Oriental, ela não era considerada capaz de educar os filhos de maneira socialista, já que queria ir para o Ocidente com suas irmãs."

A mãe perdeu o poder parental logo após a prisão. "Nos documentos, ela aparece negando veementemente nossa liberação para adoção. Mas depois consta que o consentimento da mãe foi dispensado."

"Foi assim com muitas adoções forçadas. Nem toda adoção foi uma escolha, mas nem todas foram politicamente motivadas. É preciso olhar caso a caso", alerta.

Em abril, o grupo de Schumann apresentou ao Parlamento alemão um documento em que são requisitadas a investigação dos casos denunciados, a extensão do período de retenção obrigatória de documentos relevantes, a criação de centros regionais de aconselhamento para os afetados e o estabelecimento de um fundo para financiar as pesquisas.

O documento também pede mudanças na lei para que toda criança seja informada, ao completar 16 anos, de que foi adotada, e a revogação das adoções ilegais quando houver consentimento mútuo dos membros da família biológica.

Em 25 de junho, o Parlamento deve realizar uma audiência pública a fim de discutir medidas para implementar da petição.

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