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Aos olhos de El Salvador, ex-primeira-dama passou de vítima a cúmplice

Brasileira Vanda Pignatto foi presa acusada de usar US$ 165 mil do erário para despesas pessoais

De vestido branco, Vanda acena com a mão esquerda, enquanto apoia a direita nas costas de Funes, que usa terno e a faixa presidencial de El Salvador. Os dois são cercados por seguranças.
Vanda Pignato acena para o público ao lado do então presidente e marido, Mauricio Funes, após discurso ao Congresso de El Salvador em 2011 - Luis Romero - 1º.jun.11/Associated Press
KAREN MOLINA
San Salvador (El Salvador)

Pouco se sabia sobre Vanda Pignato antes que ela se lançasse no meio político pela mão de seu então marido, Mauricio Funes. Mas sua vida política em El Salvador começou muito antes da de seu ex-marido.

Ainda lembro da primeira foto dela que vi. Usava shorts, camiseta branca e o cabelo revolto. Posava ao lado de dirigentes do Exército Revolucionário do Povo (ERP), grupo com o qual teve contato desde a década de 1990, quando seu ex-marido Ernesto Zelayandía foi representante no Brasil.

Foi na campanha presidencial de Funes que todos os salvadorenhos soubemos dela. E, assim como Funes conseguiu conquistar todos os salvadorenhos com sua lábia, Vanda o fez com seu carisma.

Pela primeira vez em muitos anos, a população de El Salvador viu uma primeira-dama que tinha opinião própria sobre a política e a realidade nacional. Não era mais um acessório da Presidência nem uma primeira-dama dedicada aos eventos beneficentes, como costuma ocorrer.

Em vez da imagem de dama refinada que participava dos coquetéis presidenciais, passou a liderar o Cidade Mulher, um dos projetos emblemáticos do governo Funes, que não só lhe deu presença na mídia como também um novo perfil da mulher salvadorenha.

Suas palavras para empoderar o setor feminino tiveram eco na população, o que rapidamente a transformou em heroína. Sua imagem de decidida, que falava abertamente sobre os problemas que acometem as mulheres, atraiu elogios e reconhecimento públicos.

E a admiração cresceu quando, ao terminar o governo Funes, Vanda teve de viver dois dos problemas com que as mulheres mais se identificam: a infidelidade do marido e o câncer. "Confiei nele, eu o amava", foi a frase que a projetou como vítima de uma trama de mentiras que girava em torno de Funes e uma mulher mais jovem que ela.

Mas agora que está detida e acusada pela Promotoria de ter-se beneficiado de dinheiro público, rebobinei a fita dessa telenovela e tratei de me perguntar se ela é realmente heroína ou se foi uma vilã, se foi vítima ou se foi cúmplice.

Lembrei de sua viagem à Disneylândia com Funes e toda a família. Terá passado despercebido que esse jato em que voava e os luxos que tinham provinham de mais que o salário do marido? É esse mesmo jato no qual mandavam embalar seu filho para que dormisse mais depressa?

E que dizer das cirurgias que modelaram seu corpo à perfeição e lhe deram nádegas bem marcadas? Ainda lembro dela chegando à missa de beatificação de monsenhor Oscar Romero, há um ano, com um vestido branco que alvoroçou até os mais religiosos.

Pode uma mulher com tanta determinação afirmar que não sabia nada do que seu marido fazia? Pode afirmar que desconhecia por que seu marido se encheu de tanto luxo e com tal rapidez? E se não tivesse sido assim? Foi submetida por seu marido, enganada vilmente ou chantageada para preservar os benefícios econômicos para seu filho? É uma verdadeira novela.

Agora que penso melhor, creio que é necessário que os salvadorenhos, especialmente as mulheres, tiremos o bom exemplo que sua figura pôde nos dar.

Mas depois disso devemos lembrar que Vanda também é uma mulher inteligente, que dificilmente poderia ignorar o que acontecia em sua casa. E se soube disso por que se calou? A novela continua.

Karen Molina é editora de economia de El Diario de Hoy, em El Salvador

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