Após acordo de migração, líderes europeus criticam negociação do 'brexit'

Conselho Europeu disse estar insatisfeito com as conversas com o Reino Unido

Diogo Bercito
Madri

Em mais uma dura crítica ao Reino Unido, o Conselho Europeu publicou nesta sexta-feira (29) um comunicado conjunto dizendo que ainda não houve progresso o suficiente nas negociações do “brexit”, o nome dado à saída britânica da União Europeia programada para março de 2019.

A nota foi emitida no segundo e último dia da cúpula europeia em Bruxelas, sem a participação do Reino Unido. Na véspera, os países haviam discutido a crise migratória.

O Conselho Europeu —órgão que define as políticas do bloco econômico— indicou estar especialmente insatisfeito com a questão irlandesa. Ainda não se sabe, afinal, como será resolvida a fronteira entre as vizinhas Irlanda do Norte (um território britânico) e Irlanda (um país-membro da União Europeia) depois do “brexit”.

O responsável da União Europeia pelas negociações do 'brexit', Michel Barnier, conversa com jornalistas durante a cúpula em Bruxelas
O responsável da União Europeia pelas negociações do 'brexit', Michel Barnier, conversa com jornalistas durante a cúpula em Bruxelas - Ludovic Marin/AFP

Quando o Reino Unido já não estiver no bloco , precisará decidir como controlar a passagem de pessoas e bens entre essas duas regiões, localizadas em uma mesma ilha. A opção de construir uma fronteira rígida é improvável, já que a liberdade de movimento está na base dos acordos de paz feitos nos anos 1990.

O comunicado de sexta-feira repete os argumentos já expostos últimos meses, sem trazer novas informações, mas serve de lembrete de que a menos de um ano do “brexit” ainda há temas urgentes sem solução. Isso põe ainda mais peso em cima da já pressionada primeira-ministra britânica, a conservadora Theresa May.

“Tivemos um enorme progresso no ‘brexit’, mas ainda há sérias divergências, em especial quanto à Irlanda e à Irlanda do Norte”, disse Michel Barnier, o negociador-chefe da União Europeia. “Agora estamos aguardando os planos britânicos, e eu espero que tragam propostas realistas e factíveis. Mas o tempo é curto”, afirmou.

Ao encerrar a cúpula, o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, disse que estava fazendo “uma última chamada para colocar todas as cartas sobre a mesa”. “Ainda há bastante trabalho adiante, e as tarefas mais difíceis seguem sem solução.”

A grande novidade desta cúpula em Bruxelas, no entanto, não é o "brexit" e sim o acordo migratório alcançado entre os líderes europeus.

Na madrugada de sexta-feira, quando ainda era noite em Brasília, o bloco decidiu abrir centros de acolhida e processamento de pedidos de asilo, a serem instalados de maneira voluntária pelos países-membros. Essa estratégia pode desafogar a Itália, onde chega a maior parte dos refugiados saídos do norte da África com rumo à Europa.

Essa saída beneficia imediatamente o governo nacionalista de direita italiano, liderado pelo populista Liga. A Itália ameaçava boicotar qualquer acordo sobre a migração que não atendesse a ao menos parte de suas exigências --seus diplomatas marcaram, portanto, um importante ponto durante a cúpula.

Na sexta-feira, o ministro italiano do Interior, Matteo Salvini, disse estar “satisfeito e orgulhoso” dos resultados de seu governo em Bruxelas. “Finalmente a Europa foi forçada a discutir uma proposta italiana e finalmente a Itália já não está mais isolada”, ele afirmou.

A Alemanha também se beneficia, em parte, do tratado migratório. A chanceler alemã, a conservadora Angela Merkel, vinha sendo pressionada por seus parceiros de coalizão, que ameaçavam derrubar o recém- criado governo caso ela não voltasse para casa com uma solução satisfatória à crise dos refugiados.

Ao fim da cúpula, Merkel disse —aparentando cansaço, após a maratona de negociações— que “o que conseguimos foi talvez mais do que eu esperava”. “Não estamos ainda no fim da estrada. Mas quanto mais entrarmos em acordo entre nós, mais perto chegamos de uma solução europeia. Estou convencida disso.”

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