Erdogan vence eleições na Turquia

Com 52,5% dos votos, presidente foi poupado de segundo turno

Diogo Bercito
Istambul

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, foi declarado vencedor das eleições deste domingo (24) e terá um novo mandato de cinco anos e a maioria no Parlamento.

Sua vitória foi declarada pelo diretor do Alto Comitê Eleitoral, Sadi Güven, quando a apuração chegou a 97,7% dos votos. Com 99% das urnas apuradas, Erdogan chegou aos 52,5% dos votos para a Presidência.

Com isso, ele recebeu mais de metade dos votos e foi poupado, portanto, de ir ao segundo turno. Ele se consolidou, assim, no poder de um dos países mais influentes do Oriente Médio —ele foi primeiro-ministro de 2003 a 2014 e é presidente desde então.

“O público turco me entregou o mandato de presidente”, Erdogan disse no final da jornada eleitoral, prometendo megaprojetos de construção para revitalizar a economia em vias de desaceleração. “Espero que ninguém prejudique a democracia ao lançar sombras sobre esta eleição e seus resultados para esconder o seu fracasso.”

Seu principal rival, o social-democrata Muharrem Ince, recebeu apenas 30,7%. Havia bastante expectativa da oposição de que Ince pudesse ir para o segundo turno, dadas as massas que ele conseguiu reunir na véspera: ao menos um milhão no comício de Istambul. 

Já no Parlamento, Erdogan e seu AKP (Partido Justiça e Desenvolvimento) tiveram 53,6% dos votos em parceria com o aliado MHP (Partido de Ação Nacionalista). As eleições legislativas só têm uma etapa.

O bloco de oposição —que inclui a sigla de Ince, o CHP (Partido Republicano do Povo)— somou 34,1% de apoio na Casa.

O presidente votou em Istambul, a principal cidade do país. Ali, disse a jornalistas que o processo eleitoral “mostra quão avançada é a democracia turca”. “A Turquia está vivendo uma revolução”, afirmou.

Na escola religiosa de Eyüp, em Istambul, o fluxo de eleitores era constante —votavam entre inscrições do Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos, e uma ilustração do conquistador islâmico Saladino (século 12).

“Erdogan é o melhor. Forte, justo. Os outros candidatos apoiam o terrorismo”, disse à Folha o administrador Mehmet Kankiliç, 26. “Os opositores são mentirosos e não respeitam o nosso líder.”

Conservador Recep Tayyip Erdogan declara vitória nas eleições turcas
Conservador Recep Tayyip Erdogan declara vitória nas eleições turcas - Lefteris Pitarakis/Associated Press

Em outros locais de votação, imagens circuladas pela mídia mostravam eleitores indo às urnas de cadeira de rodas ou com tanques de oxigênio —tamanha era a ansiedade por participar. O comparecimento às urnas foi de 87%, segundo o governo. O voto é em tese obrigatório, mas os ausentes não costumam ser multados.

Estas eleições estavam a princípio programadas para novembro de 2019. Em abril passado o presidente decidiu antecipar a data. Segundo analistas, ele temia que a crise econômica latente pudesse prejudicar a sua reeleição e o futuro do partido dentro do Parlamento.

Os resultados têm grande impacto na Turquia, um poderoso membro da Otan (aliança militar ocidental) que faz fronteira com Síria e Iraque.

Erdogan governou o país nos últimos 15 anos com uma mão cada vez mais pesada, cerceando a imprensa e seus opositores. Depois de uma tentativa frustrada de golpe em julho de 2016, ele promoveu um extenso expurgo em que mais de 140 mil pessoas foram detidas.

Exatamente devido a esse cenário autoritário a oposição decidiu se aliar em um mesmo bloco neste ano, com a intenção de retirar ao menos a maioria parlamentar de Erdogan. A aliança inclui o social-democrata CHP, o conservador IYI e o islamita Saadet —siglas que Erdogan não esperava ver unidas.

​Mais de 50 milhões de turcos, em uma população de 80 milhões, estavam aptos a votar. As urnas foram fechadas às 17h locais (às 11h em Brasília).

Em meio aos receios de atividade terrorista ou violência partidária, o governo empregou 38 mil policiais em Istambul. Apesar dessa preocupação, a jornada eleitoral não teve incidentes de violência. No entanto, algumas organizações de oposição denunciaram fraudes eleitorais, já antecipadas.
 

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