Estrangeiros buscando refúgio no Brasil mais que dobraram em um ano

ONU diz que há 149 mil refugiados reconhecidos, que esperam decisão ou que têm outra proteção

Venezuelano pede trabalho em Boa Vista, Roraima
Venezuelano pede trabalho em Boa Vista, Roraima - Eraldo Peres - 11.mar.2018/Associated Press
Patrícia Campos Mello
São Paulo

Em um ano, mais que dobrou o número de estrangeiros que têm ou buscam refúgio ou proteção no Brasil, segundo relatório divulgado pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) nesta terça (19).

Somando-se os refugiados reconhecidos no Brasil, que são 10.264, mais os que entraram com pedido de refúgio e aguardam decisão (85.746) e os estrangeiros que receberam outro tipo de proteção (no caso do Brasil, permissão temporária de residência), o número chegou a 148.645 em 2017, uma alta de 118% em relação ao ano anterior. 

O aumento é um reflexo do êxodo maciço de cidadãos da Venezuela por causa da crise econômica e humanitária que tomou conta do país nos últimos anos e levou 1,5 milhão de pessoas a deixarem-no.

No mundo, o número de pessoas forçadas a deixar suas casas por causa de conflitos, perseguição ou violência bateu mais um recorde em 2017, chegando a 68,5 milhões, segundo o relatório “Tendências Globais 2017”, do Acnur. 

O aumento —de 2,9 milhões de pessoas em relação ao ano anterior— foi o maior registrado na história e deve-se principalmente à limpeza étnica da minoria rohingya em Mianmar, que levou 655,5 mil a se refugiarem em Bangladesh, e a conflitos no Sudão do Sul e na República Democrática do Congo, que resultaram em centenas de milhares de refugiados e deslocados internos (dentro do próprio país).

“Isso acontece por causa de conflitos que perduram, pressão sobre civis vivendo em países em guerra e crises novas ou que se agravaram como os rohingya [de Mianmar], venezuelanos e a República Democrática do Congo”, disse o alto comissário da ONU para refugiados, Filippo Grandi.

O maior contingente de deslocados continua a ser de sírios: 12,6 milhões no fim de 2017, sendo 6,3 milhões de refugiados, 146,7 mil aguardando processo de refúgio e 6,2 milhões de deslocados internos.
Afeganistão (2,6 milhões), Sudão do Sul (2,4 milhões), Mianmar (1,2 milhão) e Somália (986.400) vêm a seguir. 

O Acnur passou a contabilizar crianças e menores desacompanhados e relata que  45.500 entraram com pedido de refúgio em 2017, embora o órgão afirme que o número está muito provavelmente subestimado. 

Apesar das constantes reclamações de países ricos sobre o custo de acolher imigrantes, são países em desenvolvimento que recebem 85% dos refugiados. 

A Turquia, por exemplo, é lar para 3,5 milhões deles, a grande maioria formada por sírios que fogem da guerra iniciada em 2011, que já matou mais de 500 mil. 

Entre os países ricos, só a Alemanha está entre os dez países que mais receberam refugiados. 

“Países pobres ou de renda média recebem 85% desses 68 milhões, um fato muito significativo para derrubar essa ideia de que a crise dos refugiados é do mundo rico. Não é, é uma crise do mundo pobre”, disse Grandi.
 

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