Descrição de chapéu Governo Trump

EUA alegam hipocrisia e deixam Conselho de Direitos Humanos da ONU

Decisão coincide com críticas ao governo Trump por separar famílias de imigrantes

A embaixadora dos Estados Unidos na ONU, Nikki Haley, fala em Washington
A embaixadora dos Estados Unidos na ONU, Nikki Haley, fala em Washington - Andrew Caballero-Reynolds/AFP
Patrícia Campos Mello
São Paulo

Os Estados Unidos se retiraram do conselho de direitos humanos das Nações Unidas nesta terça-feira (19), acusando o órgão de ser “hipócrita” e ter um “viés anti-Israel”. A embaixadora dos Estados Unidos na ONU, Nikki Haley, afirmou que o conselho “não é digno do seu nome”.

É a primeira vez que um país deixa de forma voluntária o conselho. Os EUA se juntam agora a Irã, Coreia do Norte e Eritreia, os únicos países que se recusam a participar das sessões e deliberações do Conselho.

“Neste ano, como nos anteriores, o conselho de direitos humanos aprovou cinco resoluções contra Israel —mais do que as aprovadas contra Coreia do Norte, Irã e Síria juntos”, disse Haley.

“Esse foco desproporcional e hostilidade contra Israel é a prova clara de que a motivação do conselho é política , e não relacionada a direitos humanos. Se o conselho vai atacar países que protegem direitos humanos, e proteger países que os violam, então os EUA não deveriam dar a ele nenhuma credibilidade.”

Os EUA há tempos criticavam o conselho por ser “seletivo”, por aprovar um número desproporcionalmente grande de resoluções contra Israel e abrigar notórios violadores de direitos humanos como Venezuela e Líbia.

Entre 2009 (quando o país ingressou no órgão) e 2018, o conselho aprovou 53 resoluções contra Israel, 21 contra a Síria e dez contra a Coreia do Norte, mas nenhuma contra Venezuela ou China.

O conselho é composto por 47 membros que têm mandatos de três anos e se reúnem três vezes por ano. Os EUA estavam no meio de seu mandato.

Haley disse que os EUA tentaram reformar o conselho baseado em Genebra, sem sucesso. Segundo ela, países aliados não tiveram a “coragem de desafiar o status quo”. Além disso, ela afirmou que Rússia, China, Cuba e Irã tentaram minar as tentativas de reformas.

Ela disse ainda que gostaria de "deixar bem claro" que a medida não significa um recuo dos EUA em seus compromissos com os direitos humanos.

O ministro das Relações Exteriores do Reino Unido, Boris Johnson, afirmou que a decisão de sair do conselho é "lamentável".

Entidades de defesa dos direitos humanos também criticaram. Para Juana Kweitel, diretora-executiva da Conectas Direitos Humanos, o anúncio não surpreende. “É lamentável, mas coerente com a gestão Trump”, disse.

Segundo ela, os EUA conseguiriam lutar por mudanças na chamada seletividade do conselho se permanecessem dentro dele, e não fora.

“Esse governo só se importa em defender Israel no conselho”, disse ao New York Times John Sifton, diretor da Human Rights Watch.

Os EUA também queriam mudar o chamado item 7, que determinou, desde a criação do conselho, que as supostas violações cometidas por Israel nos territórios palestinos seriam examinadas em todas as sessões, algo que não ocorre com nenhuma outra questão.

Em maio, o órgão votou a favor da investigação das mortes de militantes palestinos, no começo daquele mês, pelo  Exército de Israel, o qual acusou de uso excessivo da força.

A decisão coincide com as críticas aos Estados Unidos pela opção de separar famílias que tentam entrar em território americano pela fronteira com o México. Na segunda (18), o alto comissário da ONU para direitos humanos, Zeid Ra'ad al-Hussein, pediu que Washington interrompesse sua política "inadmissível".

Nesta terça-feira, após o anúncio, al-Hussein afirmou que a saída era uma "decepção, embora não fosse surpresa." Segundo ele, "dado o estado dos direitos humanos no mundo hoje, os Estados Unidos deveriam se envolver mais, e não se afastar". 
 
Não é a primeira que os EUA ficam de fora do conselho. Quando foi criado em 2006, para substituir a comissão de direitos humanos da ONU, cuja credibilidade tinha sido arranhada pela participação de países como Zimbábue e Sudão, o governo George W. Bush não quis participar.

Os EUA passaram a integrá-lo só em 2009, sob Barack Obama.

Na época, o atual conselheiro de segurança nacional dos EUA, John Bolton, criticou a decisão de Obama: “É como subir a bordo do Titanic depois que ele bateu no iceberg”, disse. “Legitima uma coisa que não merece legitimidade.”

Bolton é um crítico contumaz às Nações Unidas, e já chegou a dizer que, caso destruíssem os dez últimos andares do prédio da ONU em Nova York, “não faria a menor diferença”.

A saída do conselho de direitos humanos da ONU é apenas a mais recente rejeição do governo Trump a órgãos e acordos multilaterais.

Desde que Trump assumiu, em 2017, os EUA deixaram a Parceria Transpacífico, o acordo do clima de Paris, a Unesco, o acordo nuclear com o Irã.  

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