Presidente comanda 'milagre' na economia e guinada religiosa na Turquia

País cresce até dois dígitos e se torna mais conservador em 15 anos sob chefia de Erdogan

Vestindo terno xadrez verde e azul e camisa azul clara, Erdogan faz o sinal do número quatro com as mãos. Ele aparece do ombro para cima.
O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, saúda o público de seu último comício antes das eleições neste sábado (23) em Istambul - Alkis Konstantinidis/Reuters
Diogo Bercito
Istambul

A Turquia que vota neste domingo (24) é drasticamente diferente daquela que ia às urnas há duas ou três décadas. As mudanças, presentes tanto na economia quanto na sociedade, são em grande parte resultado da ação de um único homem: o atual presidente, Recep Tayyip Erdogan, que concorre à reeleição.

Proveniente de setores conservadores e da militância islamita, Erdogan, 64, serviu como prefeito de Istambul, a principal cidade turca, de 1994 a 1998. Em 2001, fundou o seu AKP (Partido Justiça e Desenvolvimento).

Foi com essa sigla que ele se tornou primeiro-ministro em 2003, e também nessas fileiras conseguiu renovar o mandato em 2007. Em 2014, foi eleito presidente da República, perpetuando-se no poder.

Nesses 15 anos, a Turquia experimentou crescimento econômico quase milagroso, chegando a 11% de expansão em 2011. Já a porcentagem da população na pobreza (que vive com menos de US$ 5,5/dia —ou R$ 622/mês) caiu de 27,3% em 2004 para 9,9% em 2016, segundo o Banco Mundial.

O país também se tornou mais conservador e mais religioso. Nas ruas, é cada vez mais comum ver mulheres que cobrem seus cabelos com o véu islâmico —antes de Erdogan, as turcas eram proibidas de vestir o acessório em universidades ou no Exército. 

​Essa transformação revolucionou o tecido social do território, em que a população religiosa era tradicionalmente associada a pobreza e falta de educação.

O AKP disse a esse segmento que o islã deveria ser sua identidade e não um obstáculo para buscarem riqueza e notoriedade. Foi o suficiente.

Esse fenômeno ainda hoje sustenta o presidente nas áreas rurais. Mesmo nas grandes metrópoles, seu rosto é uma constante entre os cartazes que enfeitam as fachadas. Seu único rival na história moderna da Turquia é Mustafa Kemal Atatürk, o icônico fundador da república.

Mais recentemente, Erdogan arquitetou também uma mudança no sistema político: no plebiscito de 2017, convenceu a população a trocar o sistema parlamentarista pelo presidencialista, medida que entra em vigor nestas eleições.

O presidente, além disso, consolidou seu poder em um molde autoritário, algo que levou a comparações com os antigos sultões de Istambul e a atritos com a União Europeia. O país sonhava em se unir àquele bloco econômico, uma perspectiva hoje bem pouco realista.

Depois de uma tentativa frustrada de golpe em julho de 2016, seu governo endureceu o mando e deteve 140 mil pessoas em um processo descrito pelos críticos como um expurgo, demitindo também dezenas de milhares de funcionários públicos —incluindo juízes e figuras militares de alto escalão— e perseguindo jornalistas.

Diversos repórteres estrangeiros foram forçados a deixar a Turquia nos últimos anos.

Caso a oposição vença estas eleições ou ao menos conquiste posição proeminente no Parlamento, terá de lidar com um Estado crescentemente organizado em torno de uma só pessoa, Erdogan, e com uma burocracia já acostumada com seus mandos e desmandos.

"Vai ser difícil, mas já começou", diz Ali Turksen, 53. "Foi para isso que, depois de passar três anos na prisão, eu decidi entrar na política."

Turksen, aposentado das forças especiais da Marinha, foi acusado de conspirar contra o governo no início dos anos 2000. Para desafiar Erdogan, seu desafeto, fundou em 2017 o partido conservador IYI. Essa sigla tem hoje 10% das intenções de voto.

"O país pode mudar de novo, nós temos vontade suficiente para isso. Mesmo se Erdogan for reeleito no domingo, a contagem regressiva já começou."


A era Erdogan

mar.2003 Recep Tayyip Erdogan assume como primeiro-ministro

jan.2005 Negociações de adesão da Turquia à UE começam oficialmente

abr.2007 Protestos contra Erdogan

ago.2007 Abdullah Gul é eleito presidente; é o 1º islamita a ter esse posto

jun.2011 Erdogan é eleito para 3º mandato como premiê

mai.2013 Governo reprime protestos contra destruição de parque público em Istambul

ago.2014 Erdogan vence as eleições presidenciais

jul.2015 Termina cessar-fogo com curdos

mar.2016 Autoridades tomam o controle do jornal Zaman

jun.2016 Ataque terrorista em aeroporto de Istambul mata 42

jul.2016 Tentativa de golpe chega perto de derrubar o governo; autoridades respondem com mão de ferro

jan.2017 Homem armado mata 39 durante celebração de Ano Novo em Istambul

abr.2017 Erdogan vence um plebiscito para ampliar seus poderes; oposição diz que houve fraude

abr.2018 Erdogan convoca eleições antecipadas para 24 de junho

Erramos: o texto foi alterado

Os protestos contra a destruição de parque público começaram em maio de 2013, e não de 2014.

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