Sob pressão, líderes europeus se reúnem para debater imigração

Itália quer mudança na política da União Europeia; tema ameaça governo Merkel na Alemanha

Diogo Bercito
Madri

Líderes europeus se reúnem em Bruxelas a partir desta quinta-feira (28) para uma cúpula de dois dias que terá como principal assunto a imigração ao bloco. O encontro acontece em um momento no qual cresce o atrito entre os países-membros sobre como lidar com a chegada de refugiados aos seus portos.

A Itália, em especial, tem pedido uma revisão da política migratória europeia. O país recebeu 650 mil migrantes desde 2014 e é um dos principais pontos de entrada para os refugiados que cruzam o mar Mediterrâneo, vindos de países como a Líbia.

O governo populista italiano, liderado pela Liga e pelo Movimento 5 Estrelas, pede que a União Europeia reveja o consenso que hoje permite a devolução de migrantes aos países por onde chegaram —algo que a Itália acredita ser injusto, pois ela constitui uma das principais portas de entrada dos refugiados. 

A chanceler alemã Angela Merkel (de costas) e o presidente francês Emmanuel Macron se cumprimentam durante o encontro em Bruxelas
A chanceler alemã Angela Merkel (de costas) e o presidente francês Emmanuel Macron se cumprimentam durante o encontro em Bruxelas - John Thys/AFP

A Espanha, por sua vez, com seu recém-inaugurado governo socialista, tem pedido mais solidariedade ao bloco. O premiê espanhol, Pedro Sánchez, criticou a postura italiana em uma entrevista ao jornal britânico Guardian. “O governo italiano tem de repensar se o unilateralismo é uma resposta efetiva a um desafio global como a migração”, disse. Madri recentemente se ofereceu para receber um navio de refugiados que a Itália recusou.

Já a chanceler alemã, Angela Merkel, ofereceu uma mensagem semelhante a seu Parlamento nacional antes de viajar a Bruxelas, criticando também o unilateralismo. Ela disse que o futuro da Europa depende de sua capacidade de lidar com a atual crise migratória. Caso os líderes europeus fracassem, afirmou a chanceler conservadora, correm o risco de que “ninguém acredite no sistema de valores que nos fez tão fortes”.

A posição da Alemanha é bastante frágil, porém. Merkel governa em uma coalizão, e seu parceiro CSU (União Cristã-Social) tem exigido medidas mais duras, como recusar a entrada de migrantes na fronteira alemã —algo que contraria o princípio de livre circulação no bloco.

Caso a chanceler não volte de Bruxelas com uma solução julgada razoável pela legenda que a apoia, sua coalizão pode ruir —vem daí parte da tensão em torno desta cúpula.

A crise migratória teve o seu ápice em 2015, quando a Alemanha sozinha recebeu quase 1 milhão de pessoas.

O fluxo de refugiados, no entanto, tem arrefecido: o número de pedidos de asilo no bloco caiu 44% entre 2016 e 2017, segundo o EASO (Escritório Europeu de Apoio ao Asilo). Em 2017, 728 mil pedidos foram feitos.

Apesar da redução em seu número, os migrantes se tornaram um dos temas eleitorais mais urgentes na União Europeia. Essa crise fomentou o crescimento da sigla nacionalista Alternativa para a Alemanha, por exemplo, e deu um governo populista para a Itália. França e Áustria também viram a migração chegar às urnas.

Além da migração, os líderes europeus devem discutir em Bruxelas temas como o orçamento de defesa e a retirada britânica do bloco, conhecida como "brexit".

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