Votação sobre aborto na Argentina é avanço sem volta, diz escritora

Claudia Piñeiro diz que a aprovação pode não vir agora, mas em até dois anos será realidade

Sylvia Colombo
Bogotá

A campanha pelo aborto teve a adesão de vários escritores, artistas e intelectuais.

Uma das primeiras defensoras da causa foi a escritora Claudia Piñeiro. Em um programa de televisão, ela indagou a vice-presidente Gabriela Michetti, que é católica e contra o aborto, sobre a questão. Michetti, rodeada de mulheres pró-aborto, afirmou que não via problema em que se começasse uma discussão parlamentar.

“Não tinha ideia do que viria depois, mas achei positivo o posicionamento dos dois (Macri e Michetti), pois acabaram lançando um debate que pode sair de suas mãos e levar a uma definição que vai contra seus princípios. Mas isso é democracia, é saudável para o país”; diz Piñeiro em entrevista à Folha.

Mãe de três filhos, Piñeiro, 58, autora de “Las Viudas de los Jueves” e “Las Grietas de Jara”, que foram levados ao cinema, crê que a votação do próximo dia 13 “pode até perder por poucos votos, mas já conseguimos um avanço que não terá volta".

“Em vários países foi assim, no próprio Uruguai houve derrotas parlamentares a princípio, mas, uma vez que o assunto se transforma em pauta da sociedade, pode demorar mais um ou dois anos, que acabará passando”, disse.

 
Piñeiro diz que se impressiona com a quantidade de mulheres jovens nas marchas. “Elas de fato fazem a diferença, porque são as mulheres do futuro e que querem decidir por si mesmas.”

Quanto aos argumentos contra, e as ações de alguns militantes contrários ao aborto, Piñeiro os crê despreparados. “Sou capaz de entender e respeitar as restrições religiosas, mas isso não significa que precise ser uma política pública aplicável a todas nós”, afirma.

“Depois, a quantidade argumentos descabidos que se têm ouvido mostra que a maioria das pessoas não tem informação necessária”, diz.

Alguns deles até viraram meme nas redes sociais. Por exemplo, o do senador Esteban Bullrich, que disse que “cada feto é um argentino com direitos”. Ou um grupo de deputadas que sugeriu que os fetos indesejados fossem retirados das mães logo após a concepção para serem criados em incubadoras e entregues em adoção.

“Como responder a uma ignorância dessas? É uma aberração e não é viável. Creio que o debate está sendo muito desigual. Estamos levando cifras e dados sobre o dano que causa a nossas mulheres a proibição do aborto, e o que temos como resposta são declarações como essas."

Os que são contra o aborto alegam que a lei que permite abortar quem é vítima de estupro é suficiente.

"Mas eles defendem um paradoxo. Se garantem que a vida começa na concepção e que os fetos têm direitos, porque permitem que o feto gerado de um estupro seja abortado?”, defende.

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