Descrição de chapéu The New York Times

Atriz de 'Sex and the City' quer fugir de personagem em campanha a governo de NY

Cynthia Nixon, a Miranda Hobbes, se diz subestimada e tenta vencer imagem de inexperiente

Matt Flegenheimer
Nova York | The New York Times

Quase uma década antes de querer se candidatar a governadora de Nova York, a atriz Cynthia Nixon estava em uma reunião fazendo lobby pelo casamento gay, em 2009, quando um senador estadual republicano leu uma citação atribuída a ela na internet: “Pessoas casadas são o inimigo”. 

Nixon o interrompeu. Ela havia dito isso, mas como Miranda Hobbes, sua personagem na série “Sex and the City” (1998-2004).

“Ele pôs o papel de lado”, lembra ela em sua cozinha em Manhattan, onde um cartão de aniversário dos sogros mostra o governador Andrew Cuomo recebendo um soco de um punho dourado. “Tanta gente acha que me conhece. Eles conhecem uma parte de mim, e essa parte é sobretudo uma personagem fictícia.”

Há meses a atriz e ativista de 52 anos vem se esforçando para apresentar novas partes de si mesma, desafiando Cuomo na eleição primária do Partido Democrata com uma plataforma bastante progressista, de desprezo pelo centrismo amorfo e aumento de impostos para os ricos. 

Nova-iorquina da gema, ela tenta transmitir autenticidade. Mas é, também, alguém sem experiência de governo que pede aos eleitores que a transformem na principal força do Executivo em Nova York.

E se o objetivo de Nixon parece mais plausível na era Trump —um astro de reality show eleito presidente—, ele também é mais complicado.

Muitos democratas consideram um desastre um governo federal encabeçado por uma celebridade, obrigando Nixon a vender a um grande público liberal seu papel mais difícil até hoje: a estrela que pode fazer a coisa certa.

“Acho que estou sendo subestimada”, diz ela. “Acho que a campanha toda está.” 

A avaliação diz tanto sobre o clima na base democrata, com apetite por candidatos não tradicionais e populismo fervilhante, quanto sobre ela. 

Pesquisas de intenção de voto mostram Nixon atrás de Cuomo por mais de 30 pontos percentuais, e ele leva larga vantagem em arrecadação. 

A atriz diz crer que os eleitores recompensarão a energia insurgente —algo sustentado pelos erros de mais de dez pontos com Alexandria Ocasio-Cortez, novata democrata que derrotou um veterano nas primárias para o Congresso e virou uma estrela do partido.

Simpatizantes veem nela uma mensageira liberal que combina com o momento, com uma biografia única e instinto para se distinguir do bando. 

Ela chama a Polícia de Imigração e Alfândega de “organização terrorista” e defende a legalização da maconha distribuindo cachimbos.

Propõe aumentar impostos para os mais ricos em uma jurisdição que inclui a capital financeira do país e diz que entende a ameaça ao direito ao aborto porque sua mãe fez um aborto quando era ilegal —para ilustrar, ela levou um cabide de arame a um comício.

“A mídia e o establishment democrata não estão entendendo o momento em que estamos”, diz, “e como as pessoas estão famintas por mudança”.

A equipe de Cuomo alterna entre mostrar descontração com o desafio e projetá-la como artista sem noção. “Está claro que os eleitores não acreditam que ela tenha capacidade”, diz Lis Smith, porta-voz de campanha do governador.

As perguntas sobre sua experiência são justas, diz Nixon, mas ligadas a gênero. “Se eu fosse um homem exatamente com o mesmo currículo, não estaria recebendo essa pergunta como estou”, alega. 

Ela admite que sua campanha, com algumas dúzias de contratados, é a maior entidade que já dirigiu. Instada a descrever seu estilo de gestão, riu antes de responder “colaborativa” e “de opiniões fortes”. 

As quatro protagonistas da série Sex and the City caminham por rua de Nova York no outono
A atriz Cynthia Nixon (à esq., de casaco vermelho), em cena do último episódio da série "Sex and the City" (HBO, 1998-2004), na qual interpretou a advogada workaholic Miranda Hobbes; ao seu lado, Sarah Jessica Parker (a colunista de comportamento Carrie Bradshaw), Kristin Davis (a galerista e socialite Charlotte York) e Kim Catrall (a relações públicas Samantha Jones) - Divulgação

Filha única de uma atriz e um jornalista de rádio que se separaram quando ela tinha 6 anos, Nixon foi criada pela mãe, Anne, em um apartamento em um prédio sem elevador em Manhattan. Começou a atuar para juntar dinheiro para a faculdade e, adolescente, corria entre teatros toda noite para estrelar duas produções simultâneas.

Sua sala hoje inclui a figura dela mesma em tamanho natural, recortada do cartaz de um show, e um piano sobre o qual repousam seus dois prêmios Tony (o Oscar do teatro). Em um canto, há um retrato de seu pai, Walter, escutando Thelonious Monk; em outro, uma pintura dela mesma com a mãe (ambos já morreram).

“Ela realmente instilou em Cynthia ‘não se leve tão a sério’”, disse Beth Sufian, amiga próxima desde a faculdade, quando Nixon, estudante de graduação em Barnard, trabalhou separando correspondência durante um semestre.

Depois de dez anos de sucesso no palco e nas telas, Nixon encontrou uma personagem definitiva em Miranda Hobbes, a advogada de “Sex and the City”, obtendo reconhecimento e uma plataforma que ela passou a valorizar.

Ela teve problemas com alguns aspectos de consumo do programa, mas não manifesta arrependimento sobre um notável coadjuvante na segunda temporada: Donald Trump: “Ele era uma figura icônica de Nova York”. 

Como candidata, Nixon achou um objetivo político para Miranda, ao adotar a hipercompetência da personagem e a preocupação com mulheres. 

O ator e dramaturgo Wallace Shawn, seu amigo, sugere que a capacidade de empatia de Nixon pode ser transferida a um governo eficaz. “Os bons atores sabem se por na pele de outras pessoas”, alega ele. 

Ronald Reagan, que foi ator, certa vez se perguntou como alguém poderia ocupar um cargo público sem ser ator. Nixon vê certo mérito nisso: “Os atores são na verdade comunicadores, certo?”

Seu interesse pelo ativismo político começou no auge de “Sex and the City”, quando seu filho mais velho entrou no jardim de infância. Nixon foi presa em 2002 por protestar contra cortes de orçamento na prefeitura e se tornou uma porta-voz da Aliança pela Educação de Qualidade. 

Ela escolheu a educação como bandeira, mas, embora seus simpatizantes apontem o ativismo como seu trunfo, autoridades locais dizem que sua proeminência nessas conquistas tem sido exagerada.

Foi o ativismo, contudo, que apresentou Nixon a duas pessoas cruciais em sua vida. 

Uma é Christine Marinoni, ativista veterana com quem Nixon se casou e teve um filho (ela tem dois do primeiro casamento, com Danny Mozes).

Outra é o atual prefeito, Bill de Blasio, para quem fez campanha em 2013 e por quem foi reconhecida como uma das arquitetas de sua vitória —segundo ela, os dois não se falam desde que ela se lançou.

Os assessores de Nixon insistem que ela tem muito a oferecer aos moradores do interior do estado, mas é nos metrôs lotados de sua cidade que ela aposta boa parte de sua candidatura. “Cynthia Nixon anda de metrô todos os dias”, leem os passageiros em panfletos distribuídos no trem.

Nixon busca se mostrar fluente em política e evitar grandes gafes com os repórteres. Alguns que a entrevistaram a descrevem como novata, mas admitem que a curva de aprendizado foi acentuada.

Quando pressionada para desenvolver um assunto, ela pode ser vaga —algo que também ocorre com veteranos. 

Seu maior obstáculo em setembro, entretanto, não serão os eleitores que adoram Cuomo, mas os democratas que o acham tolerável e se concentram em obter maioria no Congresso em novembro. 

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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