Descrição de chapéu The Washington Post

Casal Obama mantém invisibilidade em sua vida em Washington

Primeiro a ficar na capital dos EUA após fim de mandato desde 1921, ex-presidente tem vida discreta

Obama, de terno preto, camisa cinza e gravata vinho e azul, e Michelle, de vestido cinza escuro, riem. O ex-presidente, que está à direita, aponta com o dedo indicador esquerdo para um local que não está na imagem. Michelle, que está à esquerda, faz um sinal com a mão esquerda. Os dois estão em um local com cortinas azuis escuras no fundo.
O ex-presidente Barack Obama e a ex-primeira-dama Michelle participam do evento em que revelaram seus retratos em fevereiro em Washington - Jim Bourg - 12.fev.18/Reuters
Roxanne Roberts
Washington | Washington Post

Quando Barack e Michelle Obama anunciaram que ficariam em Washington depois de oito anos na Casa Branca, houve um frisson palpável.

A decisão convencional para uma vida pós-presidência é voltar para casa: um retorno às raízes, uma biblioteca presidencial e serviços distinguidos. Nenhum presidente moderno continuou na capital do país depois de deixar o cargo; o último foi o adoentado Woodrow Wilson, em 1921.

Por isso, a ideia de que os vibrantes e glamourosos Obama —duas das pessoas mais famosas do mundo— viveriam aqui foi um assunto muito importante. As expectativas eram elevadas.

Os antigos washingtonianos esperavam que eles se tornassem embaixadores não oficiais da capital da nação, abraçando sua cidade adotiva. Mas eles abraçaram suas novas vidas como cidadãos privados, com ênfase no privados.

Nos últimos 18 meses —além de algumas aparições públicas cuidadosamente agendadas—, eles raramente são vistos pela cidade. O casal ainda gosta de frequentar restaurantes e ir ocasionalmente a uma exposição ou peça de teatro. Mas, com exceção de um círculo rarefeito de amigos próximos, eles voam fora do radar.

“Eu acho que os Obamas provavelmente apreciam o fato de que as pessoas em Washington os deixam viver como cidadãos privados e continuar participando desta comunidade”, disse Stephanie Cutter, que serviu como assessora sênior na Casa Branca de Obama. 

Na capital do país, os Obamas criaram uma bolha protetora que lhes permite máxima flexibilidade e mínima exposição pública. Essa bolha é literal: a rua na frente de sua casa é bloqueada por um carro da polícia, com agentes em serviço 24 horas diariamente, um esquema de segurança padrão para qualquer ex-presidente.

Os visitantes no quarteirão devem se identificar com os policiais antes de seguir para qualquer das casas. Não que alguém fosse deparar com os Obamas: eles raramente passeiam com os cachorros e geralmente entram e saem por uma porta lateral da casa, bem vigiada.

Mas essa bolha também é figurativa: os moradores próximos não falam sobre seus vizinhos ilustres. Eles são silenciosos, dizem eles, discretos e têm direito à privacidade.

Eles sempre foram cuidadosos no controle de sua mensagem, e o código de silêncio se estende a quase todos os aspectos de sua vida social: fale sem autorização e você poderá ser expulso da Obamalândia.

“Por favor, não me cite”, disse uma conhecida local, que então admitiu que raramente vê o casal. “Fico muito honrada que eles estejam indo bem.” 

Por meio de sua porta-voz, o ex-presidente e a ex-primeira-dama não quiseram fazer declarações para esta reportagem. E ninguém em seu círculo íntimo quis falar sobre sua vida pós-presidência em Washington. Suas postagens no Instagram e no Twitter são estritamente pessoais: causas favoritas, aparições em público, votos de aniversários românticos, fotos de férias invejáveis.

É difícil encontrar sinais de que eles vivem aqui. Há uma foto de seus dois cachorros caminhando na calçada que Michelle postou em março de 2017, e um tuíte de Barack quando o time de hóquei de Washington venceu a Copa Stanley, no mês passado. 

“Parabéns aos @Capitals! Este torcedor dos @NHLBlackhawks sabe como é levantar essa taça —e estou feliz por todos os fãs dos Caps que torcem tanto por seu time...”

Esqueça, Washington. Os Obamas podem ter uma casa na capital do país, mas eles nunca serão verdadeiros washingtonianos.

A maioria das pessoas supôs que eles se mudariam de volta para Chicago, onde eles ainda têm uma casa no bairro de Hyde Park. Mas oito meses antes de deixar o cargo o presidente disse que eles ficariam na cidade até que sua filha mais nova, Sasha, se forme na Sidwell Friends, em junho de 2019.

Depois de alugar a casa do ex-porta-voz do governo Clinton, Joe Lockhart, em Kalorama, eles compraram a mansão de oito quartos por US$ 8,1 milhões (R$ 30,8 milhões) no segundo semestre deste ano, dando o primeiro indício de que esta cidade poderá ser sua base doméstica mesmo quando Sasha for para a faculdade. 

No início deste ano, Michelle disse à apresentadora Ellen DeGeneres que a família se instalou em sua nova casa. Barack tem um quarto menor como escritório, explicou; Sasha, uma suíte de dois quartos porque é a única criança que mora na casa; e Malia —que começou em Harvard no fim do ano passado depois de tirar um ano de folga— tem “um quarto em algum lugar do sótão”.

O ex-presidente tem um escritório no West End da cidade, onde trabalha em suas memórias e recebe visitantes. E joga muito golfe. Obama entrou para o Columbia Country Club e o Robert Trent Jones Golf Club, mas joga nos campos de toda a cidade. 

Michelle frequenta a Solidcore, fato ressaltado no site do estúdio de ginástica, que também declara que a proprietária “não fala sobre suas clientes”.

Há também sessões de fotos públicas: os Obamas visitam escolas, clubes de jovens e outros programas educacionais. Museus e teatros em Washington que aguardam seu toque são poucos: o casal apareceu na Galeria Nacional de Arte para a exposição de Theaster Gates e no Centro Kennedy para a apresentação de “The Humans”. Michelle assistiu a “The Wiz” no Ford’s Theatre, assim como shows de Erika Badu, Ledisi e Bruno Mars.

O maior sucesso público foi a inauguração na Galeria Nacional de Retratos em fevereiro dos retratos oficiais da família, que atraíram multidões.

E restaurantes. O casal evitou a cena social de Washington em favor de noites mais íntimas durante seus anos na Casa Branca, e isso não mudou. 

No último ano eles comeram no Dabney, Rasika, Del Mar, Mayden e Fiola Mare, para citar alguns —muitas vezes em salas privativas. Sua posição VIP lhes conseguiu uma mesa no A Rake’s Progress antes da inauguração oficial, para comemorar o aniversário de Michelle.

Há uma linha tênue entre respeitar a privacidade e esnobar quando os Obamas fazem uma aparição. Os restaurantes geralmente evitam o assunto quando clientes ou empregados os avistam: um deles tuitou uma foto do casal no Tail Up Goat; outro cliente entusiasmado fez um vídeo do ex-presidente no Nobu.
Em março, a dona do Hank’s Oyster Bar, Jamie Leeds, tuitou seu próprio encontro, admitindo que ficou “assombrada”.

O ex-casal presidencial não pode simplesmente entrar num restaurante. Sua equipe de segurança foi ao Hank’s no Wharf dois dias antes e verificou a área no dia da reserva. Os Obama, Valerie Jarrett e amigos ocuparam uma mesa de canto com vista para a água; os seguranças ficaram na mesa ao lado.

Clientes tiraram fotos de longe, mas não se aproximaram; um grupo enviou uma rodada de drinques. Clientes aplaudiram quando eles apertaram algumas mãos na saída.

“Você podia sentir a energia na sala”, disse Sabrina Zahid, a diretora de marketing do restaurante. “Você via que era uma noite especial.” 

Apesar disso tudo, por que parece que eles não estão realmente aqui?

De um ponto de vista político, manter um perfil discreto segue uma longa tradição: é considerado errado um ex-presidente se sobressair ou criticar seu sucessor, algo que é mais provável de acontecer quando eles moram na mesma cidade. 

Mas também porque eles viajam muito para promover suas plataformas preferidas: liderança jovem, programas de saúde, direitos das mulheres e bem-estar. Nesta semana, Barack está na África do Sul para um tributo de aniversário a Nelson Mandela; Michelle foi a um show de Beyoncé e Jay-Z no domingo em Paris. 

Várias dessas viagens incluem discursos pagos, a galinha dos ovos de ouro moderna para todos os ex-presidentes e primeiras-damas. Os honorários individuais de palestras não são revelados, mas segundo diversas reportagens na mídia os Obamas recebem cachês altos: ele ganha em média US$ 400 mil por discurso e ela, cerca de US$ 200 mil. O porta-voz dele explicou no ano passado que os discursos permitem que o casal doe para seus programas sociais preferidos. 

Também há viagens exóticas para viver o melhor da vida: kitesurf no Caribe com o bilionário Richard Branson (eles retribuíram o favor convidando-o para um aperitivo em sua casa na capital), uma escapada luxuosa à Toscana e férias no ano passado na Polinésia Francesa no iate de US$ 590 milhões de David Geffen, com Oprah, Tom Hanks e Bruce Springsteen.

“O que acontece no barco fica no barco”, disse Oprah a repórteres. 

Os detalhes são ainda mais difíceis de aparecer aqui. O ex-secretário da Justiça Eric Holder Jr., que convenceu Obama a participar de uma festa para levantar fundos para o Comitê Democrata Nacional de Redistritagem, não respondeu a pedidos de comentários. Jarrett, uma de suas mais próximas confidentes, não quis responder a perguntas sobre a vida dos Obama. 

Diante das ligações estreitas entre Oprah e os Obama, parecia provável que eles fossem à sua exposição “Watching Oprah” no Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana. Eles não estavam na festa inaugural para 700 pessoas. Talvez tenham feito uma visita privada ou participado de um evento VIP com Oprah? Um porta-voz do museu não respondeu às perguntas. 

Há outro fator, um aspecto mais sutil e complexo da vida deles em Washington: a maioria de seus amigos mais próximos é afro-americana. Eles se movimentam em um círculo de elite, exclusivo, que se diverte em particular e não publica detalhes nas redes sociais sobre suas vidas, muito menos a dos Obama.

“A Washington negra não é observada pela Washington branca”, diz um amigo que não pode falar sobre os Obama, mas se relaciona socialmente com eles. “Eles ainda são o primeiro casal do mundo. Mas a ideia de que não estão aqui é algo de que as pessoas negras riem.” 

Eles estão por aí —só que protegidos, explica. “A Washington onde eles se movem é adequada à sua idade. As pessoas de 50 e 60 anos não puxam o telefone e mandam tuítes.”

Todos veremos muito mais dos Obama em breve, pelo menos na televisão. 

“Becoming”, a autobiografia de Michelle Obama, será publicada em novembro; o novo livro de seu marido deve sair na próxima primavera. Ambos fazem parte de um contrato de US$ 65 milhões com a Penguin Random House, um dos maiores adiantamentos da história. Espere uma turnê de lançamento muito pública, porque eles precisam vender um número recorde de livros para justificar essa quantia.

Há também um novo acordo empresarial multicamadas com a Netflix para produzir séries e filmes de longa metragem e documentários. As condições não foram reveladas.

Um ano atrás, eles anunciaram planos para o Centro Presidencial Obama no South Side de Chicago, uma biblioteca presidencial e um centro comunitário. A Fundação Obama, um ponto chave de sua pós-presidência e empreiteira do centro presidencial, também é sediada em Chicago e realizou sua primeira reunião de cúpula em outubro.

Sasha deverá se formar em junho do próximo ano. Sua irmã mais velha provavelmente continuará em Harvard pelos próximos três anos. 

Então, sim, os Obama estão instalados em Washington —por enquanto. Apenas não se entusiasme demais porque eles moram aqui.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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