Descrição de chapéu The Washington Post

Como foi o cerco de paramilitares a estudantes dentro de igreja na Nicarágua

Dois estudantes acabaram mortos; repressão a protestos contra presidente já matou 300

Joshua Partlow
Manágua

O primeiro estudante que encontrei fora da Igreja da Graça Divina tinha um buraco de bala recente na nádega.

"Está feio lá dentro", disse ele.

"Lá dentro" era o enorme e arborizado campus da Universidade Nacional Autônoma da Nicarágua (Unan), que na sexta-feira (13) à tarde se tornou um campo de batalha.

Longe da luta inicial estava a igreja católica, um local supostamente seguro para triagem, e estudantes feridos e estressados chegavam das linhas de frente em caminhonetes e motos ou a pé.

"Tivemos de evacuar", disse Jonas Cruz, 18. "Eles estão invadindo as barricadas. Já estão lá dentro."

Esses estudantes, e grande parte da Nicarágua, estão em rebelião contra o governo do presidente Daniel Ortega há três meses, pelo modo como ele consolidou um poder quase absoluto em seus quatro mandatos como presidente, minou as instituições democráticas e permitiu que seu aparelho de segurança empregasse força mortal contra os manifestantes. Mais de 300 pessoas foram mortas desde o início do conflito, em abril, na grande maioria civis.

Desde a tarde de sexta surgiu uma nova crise. Milícias pró-governo começaram a esmagar a rebelião estudantil na Unan, um dos últimos baluartes da resistência na capital. Durante um sítio de 15 horas, cerca de 200 estudantes da universidade e outros ficaram imobilizados pelo tiroteio dentro da pequena igreja católica.

Dois estudantes foram mortos e pelo menos dez ficaram feridos antes que religiosos graduados conseguissem negociar sua libertação, na manhã de sábado (14), e escoltar os estudantes sobreviventes através das linhas da polícia.

O governo Ortega acabou conseguindo recuperar o controle do campus --assim como em outras cidades rebeldes de toda a Nicarágua--, mas o custo para seu governo poderá ser alto. Há uma crescente condenação internacional às táticas violentas de Ortega para romper os protestos. Líderes empresariais e outros ex-aliados pediram eleições antecipadas ou que ele renuncie.

"Estão atirando contra uma igreja", disse Erik Alvarado Cole, um dos padres na Graça Divina, enquanto a batalha rugia lá fora. "O governo diz que respeita os direitos humanos. Isto é respeitar os direitos humanos?"

Ortega não falou sobre o sítio, mas um site de notícias oficial, El 19, descreveu os estudantes como "terroristas e criminosos" que tinham atacado uma caravana de sandinistas mais cedo naquele dia e depois queimado prédios do campus enquanto fugiam. O site publicou fotos de armas encontradas na igreja depois que os estudantes foram retirados.

Na última semana, comboios de atiradores em roupas civis, conhecidos aqui como paramilitares e que parecem coordenados com a polícia, varreram várias cidades destruindo as barricadas em batalhas sangrentas, enquanto tentavam reafirmar o controle do governo.

No último fim de semana, esses milicianos esmagaram protestos em Jinotepe e Diriamba, duas cidades ao sul da capital, saqueando igrejas e deixando mais de 30 mortos na região, segundo grupos de direitos humanos. Na manhã de sexta, atiradores mascarados dominaram praças nas duas cidades, vigiando os poucos moradores assustados que ousavam seguir em suas rotinas diárias.

A Unan era um dos últimos bastiões de protesto na capital. Na sexta, os paramilitares decidiram mudar isso.

Os estudantes tinham fortificado o campus com barreiras de tijolos e arame farpado. Alguns portavam armas de fogo, mas a maioria tinha armas rudimentares como pedras, lanças ou morteiros feitos em casa. Quando o tiroteio começou, eles foram rapidamente dominados e muitos recuaram para a igreja em busca de refúgio e tratamento.

Era um conjunto de dois prédios: a igreja e a casa do padre, separadas por um pátio. Um portão de metal bloqueava a entrada pela rua, mas o quintal era aberto para o campus. Lá dentro reinava a energia caótica e confusa de um hospital de campanha conduzido principalmente por não médicos. Os pacientes se contorciam sobre mesas e no chão, enquanto voluntários injetavam soro e faziam curativos nos feridos. Adolescentes fumavam cigarros através de máscaras de esqui e balaclavas.

Pouco depois das 18h, com uma série de estampidos fortes, o ambiente ficou tenso. O tiroteio distante de repente estava mais próximo. Os paramilitares tinham aparecido, cortando a única saída da Graça Divina, e disparando contra a barricada que restava diante da igreja.

Ficou claro que todos lá dentro --dezenas de estudantes, pelo menos dois padres e dois médicos, vizinhos, voluntários e jornalistas, inclusive eu-- não iriam a lugar nenhum.

A maioria dos estudantes aceitou essa percepção com estoicismo e uma calma notável. Muitos vinham sendo alvo de tiros esporádicos nos últimos dois meses e pareciam acostumados com isso. Eles carregavam os feridos para o reitorado do reverendo Raúl Zamora e os colocavam em cadeiras ou no piso de cerâmica sujo de sangue. Lá fora, na barricada, outros estudantes gritavam e disparavam seus morteiros contra os atacantes invisíveis.

Nas quatro horas seguintes, a luta cresceu e arrefeceu. Uma sequência de tiros obrigava todos a entrar, depois as pessoas saíam lentamente para o pátio. Às vezes cantavam "Viva Nicarágua", disparavam seus morteiros no ar e prometiam nunca deixar seus postos. Por volta do anoitecer, dezenas deles se ajoelharam em um círculo, de mãos dadas e rezaram.

"Obrigado, Deus, por nos salvar da morte", disse o líder da oração. "O senhor está sempre sobre nós."

Esse momento foi interrompido por uma caminhonete que entrou no pátio carregando um rapaz que teve parte do pé direito arrancada por um tiro. Uma estudante de medicina de 18 anos tinha recebido um tiro na perna direita e a bala quebrou seu fêmur. A polícia e os paramilitares lá fora tinham isolado o bairro, impedindo a entrada de ambulâncias.

"A ambulância está lá fora e os paramilitares a bloquearam", disse Carlos Duarte, um cardiologista e voluntário que tratava os estudantes e falava ao telefone com seus colegas no Hospital Vivian Pellas. "Eles ameaçaram matar os motoristas."

A estudante de medicina, que pediu para não ser identificada, passou horas no chão com a perna ensanguentada numa tala feita de paus e papelão.

"A dor é insuportável", disse ela.

Do interior da igreja era impossível determinar o rumo da batalha --quem estava atirando, ou de onde--, mas foi inconfundível quando ela se aproximou.

"Todo mundo no chão! Todo mundo no chão!", gritou Zamora a certa altura para as dezenas de pessoas abraçadas no escuro no chão de sua sala de estar.

"Ali há janelas", disse ele olhando para o outro lado da sala. "Se uma bala passar por ali o matará."

Então o tiroteio estava na rua e era dirigido à casa. Algumas balas pareciam ter entrado. Estava escuro e os estudantes se reconfortavam e tentavam encobrir as luzes de seus celulares. Os feridos soltavam gemidos de dor abafados. Um rapaz começou a xingar nervosamente e os outros o mandaram se comportar.

Durante tudo isso, o padre Zamora e seu subordinado, Alvarado Cole, estavam em seus celulares ligando para o clero da Nicarágua pedindo ajuda e negociando uma solução pacífica com o governo. Enquanto as balas espoucavam, ele entrou num programa de rádio ao vivo e pediu ajuda. Disse que os estudantes tinham deixado as barricadas e por isso não havia motivo para o governo continuar atirando.

"Parece que eles querem assassinar todos os estudantes", afirmou.

"Por favor", continuou. "Apelo à consciência das autoridades. Se eles já deixaram a Unan, por que estão atacando a igreja?"

"Eles não podem atacar um local sagrado", disse o padre.

O tiroteio continuava se aproximando; podiam-se ouvir vozes. Meia dúzia de pessoas, incluindo o padre, se esconderam numa sala posterior e se deitaram no chão. Zamora disse uma oração em voz baixa.

"Senhor, pedimos que nos proteja neste momento", disse.

"Acreditamos no senhor, Deus, nós que não temos força contra esse grande exército", murmurou ele. "Ajude-nos, senhor."

Às 22h30, a Igreja Católica e o Departamento de Estado dos EUA tinham prevalecido sobre o governo da Nicarágua para permitir que um comboio de ambulâncias e negociadores cruzasse as linhas da polícia e retirasse da igreja três estudantes feridos e eu. Depois que se foram, os tiros recomeçaram rapidamente, segundo os que ficaram, durante toda a noite e a madrugada.

O impasse terminou na manhã de sábado (14), quando dois importantes líderes da Igreja Católica no país, monsenhor Waldemar Stanislaw Sommertag e o cardeal Leopoldo Brenes, chegaram à igreja e negociaram a libertação dos estudantes.

Pouco depois das 9h, cerca de 200 estudantes e outros que ficaram cercados a noite toda, juntamente com dois estudantes mortos e três feridos, foram conduzidos pela cidade à Catedral Metropolitana da Nicarágua, em cinco ambulâncias e dois ônibus escolares brancos.

Washington Post

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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