Ala socialista democrática ganha força e adeptos nos EUA sob Trump

Vertente, que tem Bernie Sanders como um dos líderes, quer ganhar espaço no Congresso

O ativista Jon Torsch usa camisa dos Socialistas Democráticos da América durante encontro do grupo no Maine
O ativista Jon Torsch usa camisa dos Socialistas Democráticos da América durante encontro do grupo no Maine - Charles Krupa/Associated Press
Steve Peoples
Portland (Maine) | Associated Press

​Uma semana atrás, o democrata Zak Ringelstein, do Maine, hesitava se considerar um membro dos Socialistas Democráticos da América, embora ele aprecie os valores da organização e o apoio que ele dá à sua proposta de ser um senador dos EUA.

Três dias depois, ele disse à agência Associated Press que está na hora de aderir. Hoje ele é o único socialista democrático de carteirinha candidato ao Senado americano.

O salto de Ringelstein é a última evidência do crescimento nacional da força e popularidade de uma organização que, até recentemente, atuava nas margens mais à esquerda do movimento liberal. Enquanto a Presidência de Donald Trump se estende por seu segundo ano, o socialismo democrático se tornou uma força significativa na política democrática. Sua ascensão ocorre enquanto o Partido Democrata discute se um avanço excessivo à esquerda poderá afastar eleitores.

"Estou com os socialistas democráticos, e decidi me tornar um membro pagante", disse Ringelstein à Associated Press. "Está na hora de fazer o que é certo, mesmo que não seja fácil."

Há 42 pessoas disputando cargos nos níveis federal, estadual e local neste ano com o apoio formal dos Socialistas Democráticos da América (SDA), segundo a organização. Eles abrangem 20 estados, entre os quais Flórida, Havaí, Kansas e Michigan.

Os democratas mais ambiciosos em Washington relutam em adotar o rótulo, mesmo quando abraçam as políticas que definem o socialismo democrático moderno: saúde pública para todos, salário mínimo por hora de US$ 15 (R$ 56,90, o dobro do nacional atual), faculdades gratuitas e a abolição do órgão federal de Polícia de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês).

O senador Bernie Sanders, de Vermont, único socialista democrático autodeclarado no Congresso e ex-pré-candidato democrata em 2016, fez campanha na sexta-feira (20) com a nova estrela do movimento, a candidata ao Congresso Alexandra Ocasio-Cortez, de Nova York. A ex-garçonete de 28 anos derrotou um dos mais poderosos democratas da Câmara em primárias partidárias no mês passado.

James Thompson (esq.), que disputa a indicação democrata para uma vaga de deputado pelo Maine, recebe em evento de sua campanha o senador Bernie Sanders (centro) e Alexandria Ocasio-Cortez (dir.) que será candidata por Nova York
James Thompson (esq.), que disputa a indicação democrata para uma vaga de deputado pelo Maine, recebe em evento de sua campanha o senador Bernie Sanders (centro) e Alexandria Ocasio-Cortez (dir.) que será candidata por Nova York - Jaime Green - 20.jul.2018/The Wichita Eagle/Associated Press

Sua vitória alimentou uma chama que já começava a queimar mais forte. A afiliação paga ao SDA pairava em torno de 6.000 integrantes nos anos que antecederam a eleição de Trump, segundo Allie Cohn, membro da equipe de política nacional do grupo. Na semana passada, os membros pagantes chegavam a 45 mil em todo o país.

Não se faz muita distinção entre os termos "socialismo democrático" e "socialismo" na literatura do grupo.

Enquanto Ringelstein e outros candidatos apoiados pelo SDA promovem uma filosofia abrangente, a constituição do grupo descreve seus membros como socialistas que "rejeitam a ordem econômica baseada no lucro privado" e "compartilham a visão de uma ordem social humanista, baseada no controle popular dos recursos e da produção, planejamento econômico, distribuição equitativa, feminismo, igualdade racial e relacionamentos não opressivos".

Durante reuniões públicas, os membros muitas vezes se referem aos outros como "camaradas", usam roupas com símbolos socialistas, como a rosa, e promovem autores como Karl Marx.

A associação comum com a fracassada União Soviética dificultou para os liberais simpatizantes explicarem sua conexão.

"Eu não gosto do termo socialista, porque as pessoas o associam a coisas ruins na história", disse o candidato ao Congresso pelo Kansas James Thompson, que é apoiado pelo SDA e fez campanha ao lado de Sanders e Ocasio-Cortez, mas não é oficialmente membro do grupo. "Há, porém, muito em suas políticas que se alinha com as minhas."

Thompson, um veterano do Exército que se tornou advogado de direitos civis, está competindo de novo depois de perder por pouco uma eleição especial no ano passado para ocupar a vaga deixada pelo atual secretário de Estado, Mike Pompeo. Até no Kansas, Estado profundamente republicano, ele apoia políticas como "Medicare para todos" e critica abertamente o capitalismo.

No Havaí, o deputado estadual Kaniela Ing, 29, não se intimida ao promover a posição do socialismo democrático em sua aposta ao Congresso. Ele disse que foi incentivado a disputar um cargo mais elevado pelos mesmos ativistas que recrutaram Ocasio-Cortez.

"Nós pensamos apenas em entrar com firmeza", disse Ing à Associated Press sobre o rótulo de socialismo democrático. 

Ele admite que alguns membros da geração pós-guerra podem ficar assustados, mas disse que as políticas que os social-democratas promovem —como serviço de saúde gratuito e igualdade econômica— não são radicais.

Enquanto isso, os republicanos são encorajados pela ascensão do socialismo democrático por um motivo diferente: eles creem que o que consideram uma tendência à esquerda dos democratas vai afastar eleitores nas legislativas de novembro e na corrida presidencial em 2020.

O Comitê Nacional Republicano (CNR) enfatiza que o plano de Sanders de oferecer serviços de saúde grátis pagos pelo governo para todos os americanos não teve copatrocinadores em 2013.

Hoje, mais de um terço dos senadores democratas e dois terços dos deputados democratas assinaram a proposta, que segundo uma estimativa custará aos contribuintes US$ 32 trilhões (R$ 121,3 trilhões).

Os copatrocinadores incluem alguns pré-candidatos de 2020, como os senadores Elizabeth Warren, de Massachusetts, Cory Booker, de Nova Jersey, Kirsten Gillibrand, de Nova York, e Kamala Harris, da Califórnia.

Estes não se declaram socialistas democráticos, mas também não se dissociam das prioridades do movimento.

A maioria deles apoia a abolição da ICE, que aplica as leis de imigração e levou à recente medida do governo Trump de separar as famílias migrantes na fronteira com o México.

Desse grupo, somente Booker não pediu a abolição, substituição ou reformulação da ICE. Mas seu gabinete comenta que ele é um dos poucos senadores que defendem um plano para garantir empregos financiados pelo governo a adultos desempregados e comunidades com alto desemprego em todo o país.

"Adotar políticas socialistas como a saúde pública, um programa de empregos e fronteiras abertas só deixará os democratas mais isolados", disse a presidente do CNR, Ronna Romney McDaniel.

Apesar do recente sucesso de Ocasio-Cortez, a maioria dos candidatos apoiados pela SDA teve dificuldades.

Gayle McLaughlin acabou em oitavo lugar na primária democrata no mês passado para vice-governadora da Califórnia, com apenas 4% dos votos. Os três candidatos endossados para vereador no condado de Montgomery em Maryland no mês passado também perderam. E Ryan Fenwick foi derrotado por 58 pontos percentuais na disputa para prefeito de Louisville, no Kentucky.

Ringelstein, um político novato de 32 anos, deverá ter dificuldades em sua campanha para derrubar o senador Angus King, do Maine, um independente que se alia aos democratas.

Ele se recusa a aceitar doações de lobistas ou de comitês de ação política empresariais, o que dificulta a captação de fundos. No final de junho, a campanha de King relatou ter em caixa US$ 2,4 milhões (R$ 9,1 milhões), enquanto a de Ringelstein tinha apenas US$ 23 mil (R$ 87,2 mil).

Zak Ringelstein (de azul no centro) durante encontro do Socialistas Democráticos no Maine, estado onde ele tenta ser candidato ao Senado
Zak Ringelstein (de azul no centro) durante encontro do Socialistas Democráticos no Maine, estado onde ele tenta ser candidato ao Senado - Charles Krupa/Associated Press

Ele aproveitou o movimento progressista nacional do partido e a filial do sul do Maine da SDA para conseguir o apoio da base que propiciou a vitória de Ocasio-Cortez. Como fez quase todos os meses neste ano, Ringelstein participou da reunião mensal do grupo na Prefeitura de Portland na última segunda-feira (16).

Mais de 60 pessoas lotavam a sala. A presidente do grupo, a sindicalista Meg Reilly, 25, usava uma camiseta estampada com três rosas.

Ela aplaudiu a última temporada do time de softball dos "camaradas", antes de abordar uma agenda que incluía legislação sobre a mudança climática, um programa de compartilhamento de livros "para promover a educação socialista" e um programa de intercâmbio em que os membros podem trocar favores como reparo de joias, cuidado de animais domésticos ou cozinha.

Quase no fim da reunião de duas horas, Ringelstein agradeceu ao grupo por "participar ombro a ombro conosco durante toda esta campanha".

"Podemos ganhar um lugar no Senado", exclamou. "Quero repetir sempre isso. Podemos ganhar um lugar no Senado! Então vamos lá!"​

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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