Legado de Nelson Mandela nem sempre é respeitado, afirma ex-secretária

Assessora mais próxima do ex-líder diz que África do Sul progrediu, mas ainda sofre com corrupção

Obama está no canto esquerdo, em um púlpito branco, enquanto o banner ocupa três quartos da foto à direita. A altura dele é duas vezes maior que a de Obama, em seu início está o rosto de Mandela. O banner forma uma espécie de escada do rosto de Mandela até a metade da altura. Uma câmera de vídeo tampa parte do logotipo do evento.
Rosto de Nelson Mandela aparece em banner no palco do evento em Joanesburgo, na África do Sul, que celebra seu centenário enquanto o ex-presidente dos EUA Barack Obama discursa - Themba Hadebe - 17.jul.18/Associated Press
Fábio Zanini
São Paulo

Nas últimas duas décadas de vida de Nelson Mandela, que completaria 100 anos nesta quarta (18), uma típica representante da minoria branca sul-africana esteve sempre a seu lado.

Nascida em Pretoria de uma família de africâneres, descendentes de holandeses, Zelda La Grange, hoje com 47 anos, era apenas uma datilógrafa em 1996 no escritório da Presidência sul-africana quando foi transferida para o gabinete pessoal de Mandela.

Primeiro foi assistente, depois passou a secretária pessoal do presidente e, após a saída de Mandela do cargo, em 1999, tornou-se braço direito de um dos homens mais requisitados do planeta.

A presença da mulher de longos cabelos louros como faz-tudo, secretária, cão de guarda da agenda e solucionadora de todo tipo de problema para Mandela não era um acaso.

O veterano líder não desperdiçava o menor símbolo que fosse no seu esforço de reconciliação nacional.

Tal proximidade com uma representante do povo que oprimiu durante décadas a maioria negra sul-africana por meio do regime do apartheid fatalmente causaria ciumeira.

Em seu livro de memórias "Bom Dia, Sr. Mandela" (2015, editora Novo Conceito), ela relata momentos de tensão com amigos e parentes do líder, especialmente nos últimos anos da vida dele, quando a presença de La Grange ao lado de um Mandela fragilizado se tornou ainda mais frequente.

Nesta entrevista à Folha, no entanto, concedida por escrito, ela não quis responder a uma pergunta específica sobre isso.

Mas não se furtou a críticas ao governo do Congresso Nacional Africano (CNA), que enfrenta acusações de corrupção. Apesar disso, ela se mostra otimista com o novo presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, que assumiu em fevereiro deste ano.

Atualmente, La Grange é conferencista na África do Sul e vive de palestras motivacionais e eventos.

 

Qual memória a sra. leva de Nelson Mandela?

A última vez que o vi vivo foi em 11 de julho de 2013 [ele morreu em dezembro daquele ano]. Eu estava prestes a sair para uma viagem do grupo Ciclistas por Mandela, que organizo todo ano para trabalhar em comunidades rurais na África do Sul, quando fui vê-lo no hospital.

Ele já estava gravemente doente, e eu queria ter certeza de que poderia cumprimentá-lo antes de viajar, porque tinha medo de que algo acontecesse enquanto eu estivesse fora.

Ele não vinha respondendo havia dias, mas, quando ouviu minha voz e toquei sua mão, acordou, deu um grande sorriso e percebeu minha presença. Não fui autorizada a vê-lo depois disso, mas fiquei feliz que ele me reconheceu e que pude fazer com que sorrisse.

A sra. acha que o legado dele está sendo respeitado hoje?

De muitas formas sim, mas algumas vezes, não. Sua característica mais forte de liderança era a habilidade de ouvir e compreender de onde vinha a oposição. Nós atualmente vivemos numa era de imediatismo, então não ouvimos nem entendemos, preferimos logo responder.

Nesse aspecto, aqueles de nós que o conhecemos frequentemente o desapontamos. No Mandela Day [evento anual que marca o aniversário dele], as pessoas tendem a honrá-lo e a seu legado, e muitas contribuem com seus corações e seu bolso. Sei que é algo que ele teria apreciado ver.

Pode descrever a primeira vez que a sra. foi apresentada a ele?

Não fomos apresentados. Eu quase trombei com ele um dia entregando documentos para o escritório da Presidência. Ele estendeu a mão para mim, e a primeira coisa que percebi foi a sinceridade em seu rosto, a generosidade em seus olhos e aquele sorriso contagiante.

Ele falou comigo, e houve uma pausa, porque não entendi o que ele estava dizendo. Pedi a ele para repetir e, quando ele o fez, percebi que Mandela falou comigo em minha própria língua, a língua do opressor [africâner].

Ouvi-o depois dizer que, se você fala com um homem, isso vai para sua cabeça, mas, se você fala em sua língua, isso vai para seu coração. Foi o que ele fez. Abriu-se para mim falando minha língua.

Qual o significado de uma pessoa com sua origem racial ter sido tão próxima de um ícone da libertação negra?

Para ele, era importante mostrar ao mundo que todos seriam incluídos na nova África do Sul se estivessem dispostos a mostrar comprometimento e trabalho. Para mim, foi um chamado representar esse papel e mostrar ao mundo que mesmo os que o oprimiram e aprisionaram podem ser leais e dedicados e que a mudança é possível.

Como a sra. vê o governo do CNA após quase 25 anos no poder?

Houve muitas conquistas, mas a corrupção tem atrasado o progresso. Desde a posse de Ramaphosa como presidente, ele tem tentado fechar essa rede de corrupção, e é positivo que tente recuperar recursos muito necessários para ajudar os pobres e acelerar o desenvolvimento. Seria incorreto dizer que eles [o CNA] não fizeram nada.

Como era sua rotina com Mandela? Pode descrever um dia típico?

Não havia rotina com Mandela. Eventos globais ditavam o que nós fazíamos todo dia. Ele iniciava reuniões geralmente às 8h, e isso ia até as 12h30. Depois, havia mais reuniões de 14h-15h até as 18h. Ele religiosamente assistia ao noticiário das 19h em todas as línguas se não tivesse algum evento noturno.

Isso era apenas nos dias em que ele estava o escritório. Nós viajávamos incansavelmente e ficávamos em modo de sobrevivência a maior parte do tempo por causa das pressões sobre seu tempo e sua atenção.


Vida de Mandela

1918 Nasce na localidade de Mvezo, na atual província do Cabo Oriental

1944 Ingressa no Congresso Nacional Africano (CNA)

1952 É processado de acordo com a Lei para Supressão do Comunismo, do governo de apartheid sul-africano. Recebe sentença de prisão, depois suspensa

1962 Deixa o país secretamente e recebe treinamento militar na Argélia. De volta ao país, é condenado a cinco anos por incitar revoltas

1964 Condenado à prisão perpétua, escapando por pouco da pena de morte

1985 Rejeita a oferta de Pieter Botha, então presidente da África do Sul, de ser libertado em troca de renunciar à violência

1990 Libertado da prisão. No mesmo ano, Frederik de Klerk, o último presidente branco do país, acaba com a proibição do CNA, que teve início em 1960

1993 Ganha o Prêmio Nobel da Paz junto com De Klerk

1994 É eleito o primeiro presidente negro da África do Sul

2013 Morre aos 95 anos em Joanesburgo

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