Ortega perde apoio na esquerda latino-americana, mas obtém respaldo do PT e do Foro de São Paulo

PSOL compara repressão do presidente da Nicarágua à do ditador sírio

Fabiano Maisonnave
Manágua

Para o PT, os protestos contra Daniel Ortega fazem parte de uma “contraofensiva neoliberal”. Já o PSOL compara a repressão comandada pelo presidente nicaraguense à Síria do ditador Bashar Al-Assad.

A esquerda brasileira —e latino-americana— está dividida sobre o líder do movimento sandinista, que, nos anos 1970, inspirou milhares na região ao derrubar a ditadura Somoza, mas que hoje comanda uma repressão responsável pela morte de cerca de 360 pessoas em três meses, muitos deles estudantes universitários.

Entre os mais críticos está o ex-presidente e senador uruguaio José “Pepe” Mujica. Em pronunciamento no Congresso nesta terça-feira (17), ele falou sobre a decepção com os rumos do sandinismo e pediu a renúncia de Ortega.

“Sinto que algo que foi um sonho se desvia, cai em autocracia”, disse Mujica. “E entendo que aqueles foram revolucionários perderam hoje o senso de que, na vida, há momentos em que devem dizer: 'Vou embora’”.

Em seguida, o Senado uruguaio aprovou por unanimidade uma moção da Frente Ampla, a agremiação do ex-presidente, exigindo de Ortega “o fim imediato da violência conta o povo nicaraguense”.

No Chile, o Partido Socialista, da ex-presidente Michelle Bachelet, manifestou, em nota, “nossa indignação contra a violenta repressão” e defendeu o “restabelecimento da normalidade democrática” no país centro-americano.

No Brasil, o PSOL tem liderado as críticas de esquerda contra a onda de repressão. À Folha o secretário de Relações Internacionais, Israel Dutra, afirmou que Ortega “está se tornando o Assad centro-americano”. 

“Há muito tempo a gente não via [na América Latina] um governo com esse nível de repressão”, diz o dirigente. "Ele está transformando um protesto político radicalizado numa guerra civil contra uma banda desarmada."

Dutra tem apoiado as ações de um grupo de cerca de 20 nicaraguenses radicados no Brasil de resistência a Ortega. Encabeçado por acadêmicos, promove pequenas manifestações, incluindo um na avenida Paulista, e debates sobre a situação do país.

Nesta terça (17), o grupo lançou um manifesto com abaixo-assinado exigindo o fim da violência e o julgamento de Ortega e de sua mulher, a vice-presidente Rosario Murillo, pelos “crimes cometidos contra o seu próprio povo".

Pesquisador da UFRJ, o cientista político nicaraguense Humberto Meza diz que sente dificuldades para explicar a crise em seu país por causa dos paralelos —segundo ele, indevidos— com os protestos de 2013 no Brasil e a Venezuela. 

Com relação ao PT, Meza, autor de um doutorado sobre o sandinismo na Unicamp, afirma que tem conseguido diálogo com pessoas em posições médias com laços com a Nicarágua, mas não com a cúpula do partido.

Membro do Foro de São Paulo, que reúne agremiações da esquerda latino-americana, a agremiação de Lula foi um dos que respaldaram o apoio do grupo à Nicarágua, durante encontro em Havana.

Participaram da reunião, realizada no início desta semana, a ex-presidente Dilma Rousseff e os presidentes Evo Morales (Bolívia) e Nicolás Maduro (Venezuela), entre outras lideranças e dirigentes da esquerda latino-americana.

“Depois de tantos sucessos, sofremos uma contraofensiva neoliberal, imperialista, multifacetada, com guerra econômica, mediática, golpes judiciais e parlamentares, como ocorre na Nicarágua e ocorreu na Venezuela”, disse, durante o encontro, a secretária de Relações Internacionais do PT, Mônica Valente, atual secretária-executiva do foro.

A declaração foi reproduzida pela Chancelaria venezuelana. Procurada via WhatsApp na terça-feira (17), Valente não respondeu à solicitação da reportagem da Folha para comentar a posição do PT sobre a crise nicaraguense.

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