Putin recria figura do oficial político nas Forças Armadas

Com popularidade em queda, russo usa artifício soviético para buscar doutrinação patriótica

Igor Gielow
São Paulo

O governo de Vladimir Putin recriou a figura do oficial político nas Forças Armadas da Rússia. Em vez de promover valores do comunismo e do marxismo, como ocorria na União Soviética, a ideia é unificar ideologicamente os militares em torno de um ideário patriótico.

A medida foi publicada em decreto na segunda (30), instituindo um departamento para assuntos militares-patrióticos, algo que havia sido suprimido após o fim do regime comunista, em 1991. Seu chefe será o ex-comandante do Distrito Militar Ocidental das Forças Armadas, general Andei Kartapolov, um veterano da campanha na Síria.

Putin tem enfrentado uma queda em sua popularidade desde que seu governo apresentou uma reforma previdenciária que reduz a idade mínima para a aposentadoria. Ainda está com confortáveis 60% a 65% de aprovação, mas isso é uma queda de um índice de 80% anterior à medida, em junho.

O presidente está no poder desde 1999, quando foi indicado premiê, e foi reeleito para um quarto mandato no Kremlin em março, com 77% dos votos. A recriação do agente político indica que ele não pretende, contudo, abrir margem a contestações no restante de seu mandato, que acaba em 2024.

A figura do representante do regime nas Forças Armadas remonta aos tempos soviéticos. Os "zampoliti" eram responsáveis em manter a fidelidade ao regime instaurado em 1917 pelos bolcheviques.

O motivo era a violenta guerra civil que durou até 1922, durante a qual forças comunistas e monarquistas se engalfinharam, deixando cerca de 10 milhões de mortos no processo. Em 1918, os "zampoliti" foram instituídos e invariavelmente seu papel doutrinador era, na realidade, o de coação de dissensos nas fileiras do Exército.

Na Segunda Guerra Mundial, os "zampoliti" foram essenciais em momentos do combate aos nazistas nos quais os soldados preferiam se entregar do que ir ao sacrifício, como na crucial batalha de Stalingrado (1942-43). Relatos de oficiais políticos atirando em potenciais desertores para sustentar linhas de ataque abundam na historiografia.

Já ao longo da Guerra Fria, encerrada com a morte da União Soviética em 1991, eles ganharam status quase mítico como olheiros de órgãos como a KGB, o serviço secreto de Moscou, em busca de espiões infiltrados além de dissidentes.

Não há detalhes sobre qual exatamente é a noção de patriotismo a ser difundida entre os cerca de 1 milhão de homens da ativa nas forças russas, mas o histórico de Putin dá uma boa ideia do que estará em jogo.

Desde o fim da década passada, o presidente tem promovido um crescente isolamento e autossuficiência de seu país devido à percepção de que o Ocidente se portou de maneira expansionista e hostil a Moscou após o fim da Guerra Fria.

Com o enfraquecimento geopolítico ocidental, cortesia da crise econômica de 2008 e de sucessivas administrações americanas atoladas nos conflitos no Afeganistão e Iraque, Putin promoveu um rearmamento gradual de suas forças.

Politicamente, assegurou com intervenções armadas que nem Geórgia, nem Ucrânia, ex-repúblicas soviéticas que considera sob sua esfera de influência, aderissem à Otan.

A aliança militar ocidental vinha se expandindo rumo a fronteiras russas até 2004, quando absorveu vários países do antigo bloco socialistas, inclusive os antigos integrantes da União Soviética do Báltico.

No caso ucraniano, o mais sensível, Putin patrocinou uma votação para que a Crimeia voltasse a ser russa, sendo condenado em fóruns internacionais. A anexação é considera pelo Kremlin o principal fato geopolítico do pós-Guerra Fria na Rússia.

O recente encontro de cúpula com Donald Trump sinalizou uma tentativa de abertura na relação, mas a baixa confiabilidade do presidente americano junto a seus pares ocidentais parecem dificultar as coisas. Putin também pôde comemorar o gol diplomático de uma Copa do Mundo realizada com brilho em seu país, entre junho e julho. 

Segundo disse à agência Tass o presidente da Comissão de Defesa da Duma (Câmara baixa do Parlamento), Vladimir Shamanov, a nova unidade irá criar "o oficial político de uma maneira nova".

"É um dever sagrado sugerir novas abordagens para o trabalho educativo. A estrutura irá combinar velhas e novas tradições. Uma família tem de ser confiável", afirmou. Não é exatamente um palavreado que irá acalmar os que temem a volta da doutrinação política como forma de coação nas Forças Armadas.

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