Reino Unido prevê proibir terapias de cura gay e criar fundo anti-homofobia

Lei deve entrar em vigor antes de 2020; ações educativas incluem combate a bullying nas escolas

O brasileiro Victor Diamente anda por rua de Londres, onde se sentiu mais à vontade em se assumir gay  
O brasileiro Victor Diamente anda por rua de Londres, onde se sentiu mais à vontade em se assumir gay   - Candice Japiassu/Folhapress
Diana Brito
Londres

​O governo britânico anunciou este mês um plano para acabar com as chamadas terapias de “conversão” de orientação sexual no Reino Unido. A iniciativa foi elaborada após uma pesquisa nacional com 108 mil lésbicas, gays, transexuais e bissexuais.

A previsão é que o plano entre em vigor antes de 2020, com a implantação de uma lei de proibição desses tipos de terapia. A punição, no entanto, ainda não foi divulgada.

Também será criado um fundo de 4,5 milhões de libras (cerca de R$ 22 milhões) para ações anti-homofobia como um programa de combate ao bullying nas escolas e melhorias no sistema de registros policiais de “crimes de ódio”, além da nomeação de um conselheiro nacional de saúde LGBT.

“A orientação sexual de uma pessoa e a identidade de gênero são uma parte natural, normal de cada um, e não algo que possa ou deva ser mudado”, disse à Folha Laura Russell, coordenadora política da ONG LGBT Stonewall, em Londres.

“Essas terapias tentam envergonhar as pessoas para que elas neguem quem elas são, e isso pode ter um forte impacto na saúde mental e no bem-estar delas”, afirmou Laura.

Um dos dados divulgados pela pesquisa nacional, que impulsionou a iniciativa, é que pelo menos 2% dos entrevistados admitiram ter recorrido à terapia de “conversão sexual”, enquanto 5% afirmaram ter recebido ofertas nesse sentido. Ainda segundo o estudo, dois terços das pessoas LGBT têm medo de dar as mãos ao parceiro em público.

Mais da metade dos que passaram por esse tipo de tratamento disse que as terapias foram conduzidas por entidades religiosas; 19% por profissionais de saúde; e 16% pelos pais ou por membros de suas famílias.

Cerca de 40% das pessoas afirmaram ter vivenciado incidentes como ataques verbais ou violência física nos 12 meses anteriores à pesquisa. No entanto, 90% desses casos não foram registrados, com a justificativa de que “essas agressões ocorrem o tempo todo”.

“Essas atividades são um erro, e não estamos dispostos a permitir que continuem”, afirmou, em nota, o governo britânico. “Além disso, ninguém deve esconder quem é ou quem ama”, acrescentou a primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May.

Em entrevista ao programa “Newsbeat”, da emissora britânica BBC, uma jovem chamada Louise disse que foi forçada a fazer um tratamento de “cura gay” ou “conversão” de orientação sexual em 2007 na igreja evangélica que frequenta, na região de West Yorkshire, na Inglaterra.

“Eu fui submetida a uma prática de exorcismo. Não exatamente como no filme de terror ‘O Exorcista’. Mas tinha pessoas da igreja rezando, erguendo as mãos e falando línguas durante horas. Eu lembro de dormir no meio, de tão longo que era”, explicou.

Atualmente o sistema de saúde público britânico, o NHS, oferece apenas terapias de conversação às pessoas LGBT, com um médico terapeuta para situações de difícil aceitação de orientação sexual, para lidar com as reações das outras pessoas, baixa autoestima, automutilação, pensamentos suicidas, depressão causada por bullying ou discriminação, hostilidade ou rejeição da família, amigos ou comunidade, além de medo de violência em lugares públicos.

Alguns grupos religiosos e clínicas particulares ainda anunciam na internet e em locais de reunião em Londres a chamada “cura gay”, usando frases como “terapia reparativa” ou “libertação homossexual”. Pesquisa da ONG Stonewall em 2015 revelou que uma em cada dez equipes de saúde e assistência social no Reino Unido “testemunhou colegas dizendo que gays, lésbicas e bissexuais podem se ‘curar’”.

Em 2009, uma outra pesquisa apontou que 200 profissionais de saúde mental ofereceram algum tipo de terapia de conversão a pacientes, e 40% deles foram tratados dentro do próprio NHS.

Brasileiro em Londres

Há quatro anos em Londres, o brasileiro Victor Diamente, 22, diz que se sentiu mais à vontade em assumir sua identidade homossexual na capital britânica. “Eu me assumi aqui, mas isso porque tenho condições de me sustentar. Tenho certeza de que pessoas da comunidade muçulmana LGBT, por exemplo, devem sofrer com isso”, afirmou.

Diamente defende que os governos ofereçam suporte para que as pessoas aceitem e saibam lidar com a sua orientação sexual e identidade de gênero. “E isso deve ser feito por médicos, e não por líderes religiosos”, disse.

Há dois anos, em dezembro de 2016, Malta se tornou o primeiro país europeu a proibir a terapia de “conversão” sexual. De acordo com a nova lei, quem tentar “reprimir, mudar ou eliminar a orientação sexual, identidade ou expressão de gênero de alguém” será multado em até € 10 mil (R$ 44 mil) ou pode até ser preso por até um ano.

Já a Rússia, assim como o Brasil e outros países, tirou a homossexualidade da lista de doenças psiquiátricas em 1999, nove anos depois de a Organização Mundial de Saúde fazer o mesmo.

A homossexualidade não é considerada uma desordem mental na Rússia até hoje, mas a homofobia é comum no país, que aprovou no último ano uma lei vetando a “propaganda gay”. Conversar com crianças sobre homossexualidade também é crime.

Homossexualidade no Reino Unido

1950 Começa uma campanha pela igualdade de direitos após um relatório do governo sobre o tratamento dado aos homossexuais no país

1967 Lei é alterada, e relação homossexual deixa de ser considerada crime na Inglaterra; mudança na Escócia acontece em 1980, e em 1982 na Irlanda do Norte

1972 Em 1º de julho, Londres recebe sua primeira Parada Gay

1988 É aprovada uma lei que impede professores de falarem sobre relacionamentos homossexuais em escolas; ela seria derrubada apenas em 2003

2000 É autorizada a entrada de homossexuais e bissexuais nas Forças Armadas 

2004 Parceria civil entre pessoas do mesmo sexo é liberada, e movimentos começam campanha para que o casamento também seja autorizado

2008 “Crime de ódio” contra pessoas LGBT entra numa lista específica de punições; no ano anterior, mais de 7.000 crimes do tipo foram reportados no país

2013 Casamento gay é legalizado na Inglaterra e País de Gales e, mais tarde, na Escócia (a Irlanda do Norte ainda não autoriza a prática); Nikki Sinclaire se torna o primeiro parlamentar transgênero do Reino Unido

2014 O cantor Elton John se casa com seu companheiro após 21 anos de relacionamento, e Ryan Atkin se torna o primeiro árbitro de futebol abertamente gay na Inglaterra

2017 Governo britânico concede indulto e perdão póstumo a cerca de 49 mil pessoas condenadas no passado por serem homossexuais ou bissexuais; entre eles está o matemático Alan Turing, responsável por decifrar os códigos secretos nazistas durante a Segunda Guerra, que se suicidou em 1954 após ser obrigado a fazer a castração química

2018 Reino Unido anuncia plano de vetar terapias para “converter” gays 


 

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