'Caí na ilusão do dinheiro fácil', diz brasileiro preso como 'mula' na Ásia

Recém-libertado, ele relata experiência de passar 9 anos em prisão rígida de Hong Kong

Flávia Mantovani
São Paulo

Cleber*, 35, está fascinado por smartphones, caixas de som com bluetooth e aplicativos como Whatsapp e Facebook. O catarinense acaba de retornar ao Brasil após passar quase dez anos do outro lado do mundo, “parado no tempo”, sem acesso a nenhuma tecnologia.

A quem pergunta, ele costuma responder que estava trabalhando na Ásia. Na realidade, ficou nove anos e meio em penitenciárias de Hong Kong, após ter sido pego no aeroporto dessa região administrativa chinesa levando cocaína na bagagem.

Cleber, que foi posto em liberdade em julho, após ter cumprido sua pena, aceitou contar sua história à Folha com a condição de que sua identidade não fosse revelada. ​

Ele agora fala português com sotaque, resultado da convivência com os outros detentos, especialmente da Colômbia. “Todo mundo pensa que sou gringo”, diz. “Ainda estou em fase de adaptação.”

Segundo o Itamaraty, havia 20 brasileiros presos em Hong Kong em 2017 —os dados de 2018 ainda não foram divulgados. O número mais do que dobrou em dois anos: em 2015, eram oito detidos lá. Dois anos antes, em 2013, eram apenas três. 

A China prevê pena de morte para o tráfico internacional de drogas, mas Hong Kong tem leis próprias. Lá, a pena chega a 24 anos, mas, com alguns atenuantes, costuma ficar entre 7 e 12 anos.  

Antes de ser preso como “mula”, em 2009, Cleber havia trabalhado como servente de pedreiro, frentista, garçom e músico em bares. Começou a usar drogas e assim conheceu o traficante internacional que o aliciou.

“Eu era muito jovem e levava uma vida que não era saudável. Aceitei porque caí na ilusão de que seria dinheiro fácil. Queria ajudar meus pais, fazer alguns investimentos para mudar de vida junto com a minha namorada.”, afirma.

A promess a era de que receberia US$ 10 mil pela entrega. Embarcou sem avisar nenhum amigo ou familiar, com 3,5 kg de cocaína em um fundo falso da mala. Segundo ele, não sabia a quantidade de droga que levava nem a penalidade à qual estava sujeito.

“Passei pela imigração, mas quando já estava saindo, os guardas me chamaram e colocaram minha mala no raio-X”, conta. “Aí eu senti o mundo cair sobre mim.”

À Justiça, ele disse que não poderia dar informações sobre quem lhe entregou a droga, por medo de que sua família sofresse retaliações. Mas declarou-se culpado, o que aliviou sua pena. “Quando a juíza falou que eu tinha pegado 21 anos, olhei para ela, desesperado”, conta. “Mas me deram alguns descontos e fecharam em 9 anos e 4 meses.”

Depois disso, não havia espaço para apelações. Ele teve que se conformar, mas demorou a “cair a ficha”. “Levei uns três anos para aceitar a realidade. No início tive muito medo. Pedi para ser transferido para o Brasil, mas nunca tive resposta”, afirma.

Cleber decidiu, então, se adaptar da melhor maneira possível. Aproveitou os cursos a distância que a prisão oferecia e estudou inglês, espanhol, cantonês (o idioma local), recursos humanos e psicologia. Também aprendeu encadernação de livros, costura e barbearia e trabalhou nos três ofícios enquanto esteve lá.

Sua estratégia foi não criar problemas para ganhar a confiança dos guardas. “A gente tinha que andar na linha, ou eles pegavam no pé, castigavam e tornavam sua vida um inferno. Comigo, viram que eu só queria cumprir minha sentença e me deixaram tranquilo.”

Para “não explodir”, fazia exercícios e tocava violão. “Pensei: se eu quero sobreviver aqui, o que tenho que fazer? Aprender a administrar meu tempo, meu coração, minhas emoções”, diz. “Não é fácil viver com pessoas de outra cultura, longe da família e dos amigos. Se a pessoa não tem força emocional, vai sair afetadíssima de lá.”

 

As cartas da família e da namorada —​que continuou se correspondendo com ele por três anos, até que começou a sair com outra pessoa— também o ajudaram a aguentar o cativeiro. Os contatos com o Brasil eram rigidamente controlados: cada preso tinha direito a apenas um telefonema de 10 minutos a cada três meses. Atualmente, a frequência aumentou para uma vez ao mês.

Por falta de recursos, nenhum parente conseguiu ir até Hong Kong vê-lo. As visitas que ele recebia era de pessoas da embaixada brasileira e de voluntários religiosos. Hoje, Cleber é cristão e compõe música gospel.

A morte dos pais enquanto ele cumpria sentença foi a parte mais dura. Menos de um ano após ele ter sido preso, a mãe teve infecção hospitalar e não resistiu. Ela nunca soube da prisão, pois já estava doente e Cleber pediu que ela fosse poupada da notícia.

Já o pai de Cleber adoeceu no fim do ano passado e morreu poucos meses antes da libertação do filho. “Ele prometeu que iria me esperar. Quando viu que não daria, pediu para a minha irmã me dizer para perdoá-lo, porque não conseguiria”, lembra ele.

O brasileiro passou por quatro prisões, duas delas de segurança máxima. Em algumas, dividiu a cela com mais de 20 pessoas. Ele se lembra do preconceito que os chineses tinham com latinos e africanos e da dificuldade para dormir.

“Eram beliches de ferro e madeira, sem colchão. Eu fazia varal na cama com lençol para ter alguma privacidade. Ficava ouvindo rádio para conseguir dormir”, conta. Agora que dorme em um colchão macio, demora “menos de um minuto para cair no sono”.

Também sofreu com a temperatura. “Foi um inferno. No verão, era um calor insuportável. No inverno, era muito frio e úmido, sem calefação. Tinha que vestir todas as roupas de uma vez e mais os cobertores", diz ele, que quase morreu em decorrência de uma gripe H1N1, em 2011.

Cleber conviveu principalmente com colombianos, peruanos e outros presos da América Latina.  “Quando cheguei tinha um brasileiro, mas ele foi solto logo depois. Nos últimos tempos chegaram vários outros”, diz.

Agora que está de volta, ele quer procurar emprego e lançar os dois livros que escreveu na prisão. Em um deles, conta a sua história e quer alertar outras pessoas a não aceitarem viajar como “mulas de drogas”. “Não vale a pena. Minha família pagou muito duro, meu pai e minha mãe morreram de desgosto”, diz. “Lá é pior que uma guerra. Só que não é uma guerra física, é psicológica.”

No fim da entrevista, Cleber mostra à reportagem algumas pastas com o material que ele trouxe de Hong Kong: as cartas que recebeu, o crachá com seu número de detento, um barbeador que ele adaptou para fazer tatuagens, as letras das músicas que compôs, o celular analógico que agora “só serve para um museu”, os calendários nos quais riscava cada dia que passava.

“Achei que este dia [da libertação] nunca iria chegar. Ainda estou processando”, afirma. “Agora quero viver a vida que me resta fazendo o que é certo, sem prejudicar ninguém.”

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